Produção industrial cai 1,3% em março, diz IBGE

Resultado ficou bem abaixo da projeção de analistas ouvidos pela Bloomberg, que esperavam queda de 0,6%

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

Com queda disseminada entre praticamente todos os segmentos, a produção industrial brasileira recuou 1,3% em março, informou nesta sexta (3) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Na comparação com março de 2018, a queda foi de 6,1%, índice semelhante ao verificado durante a greve dos caminhoneiros.

O resultado ficou bem abaixo da projeção de analistas ouvidos pela Bloomberg, que esperavam queda de 0,6% com relação ao mês anterior e de 4,7% na comparação com março de 2018. Com o recuo, a nível da produção brasileira em março foi equivalente ao de janeiro de 2009.

Com o resultado, a indústria fecha o trimestre sob o governo Jair Bolsonaro em queda de 0,7% em relação ao trimestre anterior. Na comparação com o mesmo período de 2018, o recuo acumulado no trimestre é de 2,2%.

"A grande realidade é que a indústria como um todo já vem numa trajetória descendente desde o segundo semestre do ano passado", comentou o gerente da pesquisa, André Macedo. No acumulado de 12 meses, março teve primeiro resultado negativo desde agosto de 2017. 

Para Macedo, o desemprego e as incertezas entre investidores e consumidores explicam o resultado do ponto de vista do mercado interno. Há também fatores externos, como a crise argentina, e pontuais, como corte de operações no setor de mineração após a tragédia de Brumadinho (MG)

Os maiores impactos negativos no resultado de março, em comparação com o mês anterior, vieram das indústrias de produtos alimentícios, que teve queda de 4,9%, veículos automotores (-3,2%) e derivados de petróleo e biocombustíveis (-2,7%).

Dos 26 grupos analisados pelo instituto, 16 apresentaram queda no período. Entre os que apresentaram resultado positivo, o destaque foi o setor de produtos farmacêuticos, com alta de 4,6%. 

Três das quatro grandes categorias econômicas registraram recuo em março, na comparação com o mês anterior: bens intermediários (-1,5%), bens de consumo duráveis (-1,3%) e bens de consumo semi e não duráveis (-1,1%). A única taxa positiva se deu na produção de bens de capital (0,4%).

Macedo ressalta, porém, que o segmento de bens de capital teve perda acumulada de 10,7% entre novembro e janeiro. Em fevereiro e março, a alta acumulada é de apenas 5,1%. "Está longe de significar que o desempenho dos dois últimos meses seja uma trajetória de crescimento".

Dados compilados pela consultoria IHS Markit mostram que a situação não melhorou em abril. O Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês), calculado pela consultoria, teve no mês o resultado mais fraco em seis meses.

Na comparação com março de 2018, o IBGE detectou recuo em 22 dos 26 ramos pesquisados. Os destaques negativos nessa base de comparação são a indústria extrativa (-14%) e veículos automotores (-13,3%).

Foi o maior espalhamento de queda desde outubro de 2016, explicado tanto pelo efeito calendário (março de 2019 teve dois dias a menos do que o de 2018), quanto pelo recuo de intensidade da indústria, disse Macedo.

"Dado que a gente observa em todos esses indicadores, uma trajetória descendente, neste momento a gente está longe de enxergar uma melhora", afirmou o gerente do IBGE. A produção industrial brasileira ainda está 17,6% abaixo do pico atingido em maio de 2011.

BRUMADINHO

A indústria extrativa permanece sentindo os efeitos da tragédia em Brumadinho (MG), que contabiliza até o momento 233 mortos e 37 desaparecidos, e recuou 1,7% no mês, na comparação com fevereiro. No primeiro trimestre, a produção do setor acumula queda de 17,6%.

O rompimento da barragem Córrego do Fundão levou autoridades a decretarem a suspensão de operações em diversas barragens em Minas Gerais, com impacto sobre a produção nacional de minério de ferro.

"Não por acaso, na comparação com março de 2018 ou entre os primeiros trimestres, a indústria extrativa tem a maior influência negativa", afirmou o gerente do IBGE, para quem os feitos negativos continuarão a ser sentidos ao longo do ano. 

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