Advogado que pode provocar demissão de Levy ajudou a criar Prouni

Bolsonaro ameaçou demitir presidente do BNDES por intenção de indicar executivo que trabalhou na gestão petista

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Apontado por Jair Bolsonaro como o nome que pode provocar a demissão de Joaquim Levy da presidência do BNDES, o advogado Marcos Barbosa Pinto tem uma trajetória de serviços prestados a governos do PT.

Neste sábado (15), Bolsonaro ameaçou dispensar Levy após demonstrar intenção de nomear Barbosa Pinto como diretor da área de mercado de capitais do banco. "Eu já estou por aqui com o Levy. Falei pra ele demitir esse cara na segunda-feira ou eu demito você, sem passar pelo [ministro da Economia] Paulo Guedes", disparou diante do Palácio da Alvorada, em Brasília.

 

Marcos Pinto já havia sido assessor da diretoria e chefe do gabinete da presidência do BNDES em 2005 e 2006, durante o mandato de Lula. Depois, foi o mais jovem diretor da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), autarquia responsável pela regulação e fiscalização do mercado de capitais, até 2010.

Antes disso, foi consultor do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) junto ao Ministério do
Planejamento de Lula, em 2004. A revista "Capital Aberto", que o entrevistou em 2008, diz que, na época, ele assumiu o papel de assessor informal do governo federal, que havia descoberto um projeto seu de parcerias público-privadas (PPPs) para países africanos elaborado para o Banco Mundial.

Nas horas vagas, disse ele à revista, ajudou, a convite de Fernando Haddad, então ministro da Educação, a elaborar o anteprojeto de lei das PPPs no Brasil e o Prouni, programa que oferece bolsas estudantis a estudantes de baixa renda.

Marcos Pinto nasceu e morou até a adolescência em Amambaí, no Mato Grosso do Sul. O pai foi vereador e presidente da Câmara Municipal local, mas de início ele descartou a política, depois de participações em movimentos estudantis.

"Observo o Brasil com olhos de encanador", declarou dez anos atrás à "Capital Aberto". "Tentar resolver as grandes questões é para outras pessoas, com carisma e vocação para disputar eleições. O meu talento está em olhar um problema específico e perceber que dá para resolvê-lo, com um pouquinho de técnica."

Barbosa Pinto é doutor em direito pela USP (2008), mestre pela Universidade de Yale (2001) e mestre em economia e finanças pela Fundação Getúlio Vargas (2011). Também foi pesquisador visitante da Universidade de Columbia por alguns meses entre 2006 e 2007.

Ainda estava em Nova York quando foi chamado pelo ministro da Fazenda de Lula, Guido Mantega, para o cargo na CVM. Depois do fim de seu mandato na autarquia, ele seguiu a carreira no setor privado.

Deu aulas de direito por dois anos na Fundação Getúlio Vargas e foi membro do conselho de administração de diversas companhias, como América Latina Logística, Unidas, Multiterminais, Chilli Beans, Energisa, BR Malls, São Francisco Saúde, Simpress e Fibria.

Uma das suas atuações mais duradouras foi na Gávea Investimentos, de 2011 a 2018, ao lado do economista Arminio Fraga, colunista da Folha e ex-presidente do Banco Central.

Neste sábado, comentando a ameaça de Bolsonaro, Fraga disse que “Levy deveria pedir demissão antes de ser demitido na segunda-feira”.

Levado pelo ministro Paulo Guedes para a presidência do BNDES durante a atual gestão, Levy foi ministro da Fazenda no segundo mandado de Dilma Rousseff (PT), por 11 meses.

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