Descrição de chapéu Financial Times

Apple diz a governo Trump que tarifar iPhone chinês afetará competitividade

Empresa afirma que sobretaxa reduzirá contribuição bilionária à economia dos EUA

Tim Bradshaw
Londres | Financial Times

A Apple alertou o governo dos EUA para o fato de que as tarifas propostas sobre as importações de iPhones fabricados na China podem “inclinar o campo de jogo” em favor dos rivais estrangeiros da empresa e reduzir sua contribuição multibilionária para a economia americana.

O duro aviso do fabricante do iPhone é apenas uma das centenas de solicitações ao Representante Comercial dos EUA (USTr na sigla em inglês) feitas por fabricantes globais, pequenas empresas e indivíduos americanos, muitos deles em veemente oposição a aumentos dos impostos de importação.

Em carta divulgada nesta quinta-feira (20), a Apple pressionou a Casa Branca a abandonar tarifas de até 25% sobre seus produtos, incluindo iPhones, iPads e Apple Watches, assim como peças usadas em consertos de aparelhos.

O imposto extra, caso repassado aos consumidores, poderia adicionar centenas de dólares ao custo dos produtos de alta tecnologia da Apple.

“Pedimos ao governo dos EUA que não imponha tarifas sobre esses produtos”, escreveu a Apple em carta ao USTr, como parte de sua consulta sobre as propostas.

A Apple aludiu à sua rival chinesa Huawei, ao dizer que concorrentes sem “presença significativa no mercado americano” “não seriam afetados” pelas tarifas. 

“Uma tarifa dos EUA, portanto, inclinaria o campo de jogo em favor de nossos concorrentes globais”, disse.

A carta se segue a uma notícia da Nikkei Asian Review, desta semana, de que a Apple pediu a seus fornecedores para retirar até 30% de sua capacidade produtiva da China, em consequência da crescente disputa comercial entre os dois países. Mas muitas empresas de tecnologia dos EUA não conseguem efetuar mudanças tão drásticas em sua cadeia de suprimentos, o que poderia levar anos para ser concluído.

A Associação de Consumidores de Tecnologia (CTA), um grupo setorial, disse que US$ 167 bilhões em importações anuais da China entre seus membros seriam afetados.

“Não é fácil para as empresas membros da associação simplesmente ‘mudarem’ as cadeias de suprimentos”, disse a organização ao USTr. “Ninguém vence uma guerra comercial, e uma escalada da luta tarifária infligirá danos imensos a empresas, trabalhadores e consumidores americanos.”

As tarifas minariam os esforços para aumentar o acesso à tecnologia digital e prejudicariam a capacidade de liderança das empresas americanas em campos emergentes como realidade aumentada e virtual, acrescentou a associação de consumidores.

Em uma apresentação conjunta pedindo a suspensão da tarifa sobre as importações de notebooks e tablets, Dell, HP, Intel e Microsoft disseram que as propostas “ameaçam prejudicar desproporcionalmente vários interesses dos EUA”, mas “não abordariam as práticas comerciais chinesas subjacentes” que o USTr procurava remediar.

“Esses aumentos de preços irão recair durante as temporadas de maior demanda, nas férias e na volta às aulas”, acrescentaram os quatro grupos de tecnologia.

Solicitações individuais à consulta expressaram preocupações semelhantes. Todd Gormick, de São Clemente, na Califórnia, um declarado defensor do presidente Donald Trump cuja empresa fabrica motos para crianças, alertou em sua declaração por escrito para o fato de que as tarifas “colocariam toda a nossa empresa de cem pessoas ‘fora do mercado’. Produzir nos EUA não é realmente uma opção”.

A Apple disse em sua carta que está “a caminho” de fazer uma “contribuição direta” de US$ 350 bilhões para a economia americana em cinco anos, meta divulgada pela primeira vez no ano passado após a aprovação das reformas fiscais nos EUA. 

A empresa, sediada no Vale do Silício, diz que já é o maior contribuinte corporativo dos Estados Unidos e está abrindo novas instalações em todo o país, incluindo um novo “campus” em Austin, no Texas, e planeja adicionar milhares de novos empregos.

Loja da Apple em São Francisco (EUA)
Loja da Apple em São Francisco (EUA) - Josh Edelson/AFP

Mas a Apple disse que agora esses planos de crescimento estão ameaçados. “As tarifas americanas sobre os produtos da Apple resultariam em uma redução da contribuição econômica da empresa para os EUA”, escreveu a companhia.

A escalada da guerra comercial já atingiu as vendas do iPhone na China, alertou a Apple no início deste ano.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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