Até quentinha vira emprego fixo em país com agro e indústria que patinam

Desemprego em alta leva trabalhador a enfrentar a informalidade, e PIB em queda faz setor produtivo amargar anos de marasmo

Ribeirão Preto, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo

Desempregada há dois anos, Ana Alice Bispo, 40, vende quentinhas por R$ 6 em Salvador para sobreviver.

Após ter trabalhado como auxiliar de cozinha e doméstica com carteira assinada, não consegue novo emprego. “Se não fossem essas quentinhas, não sei como seria para manter a minha família”, diz ela, que é mãe de dois filhos.

O mais velho, de 27 anos, também está desempregado. E seu marido, Carlos Cardoso, 55, vive realidade semelhante.

A família ajuda a desenhar o retrato do PIB (Produto Interno Bruto) que não cresce no país. A economia brasileira, ao contrário, encolheu 0,2% no primeiro trimestre deste ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Fábrica de cimentos em Sete Lagoas (MG)
Fábrica de cimentos em Sete Lagoas (MG) - Alexandre Rezende/Folhapress

Os danos se espalham não só pelo consumo mas pela indústria, pelo agronegócio e até pelos gastos de governos, cada vez mais engessados e sem condições de investir.

Uma das faces da estagnação econômica é o avanço do desemprego e da informalidade, problemas que atingem mais fortemente a economia de estados do Nordeste, como também mostrou o IBGE na semana passada.

Com 18,3% da população ativa desempregada, a Bahia tem a segunda maior taxa de desocupação do Brasil, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua divulgada na sexta-feira (31).

No Brasil, o desemprego era de 12,5% no trimestre encerrado em abril.

Houve ainda uma migração para o trabalho informal na Bahia. Na praça do Relógio de São Pedro, uma das mais movimentadas do centro da Salvador, a quantidade de ambulantes disparou.

Em um trecho de pouco mais de cem metros, é possível comprar água, caixas de som, ursos de pelúcia e até trocar a tela do celular.

É lá que fica a tenda de dois metros quadrados, onde trabalha o casal Bispo e Cardoso. Entre três grandes caixas térmicas, eles se revezam na venda das quentinhas.

A comida é racionada —é vendida em um isopor do tamanho de uma embalagem para sanduíche. Mesmo assim, a procura é grande.

“Todo o mundo está precisando economizar. Aqui a comida é boa e barata”, diz Bispo.

Para economistas, mesmo quem têm alguma renda pode estar preferindo economizar, reflexo do trauma deixado pelo longo ciclo de crise.

“O consumo [das famílias] até foi positivo no trimestre, mas cresce muito pouco. É um aprendizado da crise que deixa o consumidor mais cauteloso”, diz Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra.

Enquanto o consumo acumula trimestres de alta contida, indústria, investimentos e até agronegócio recuaram.

“Se você voltar nos últimos cinco anos, não tem nada que tenha se recuperado de fato”, afirma José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

“Isso assusta e tem um efeito na memória das pessoas. Sejam pessoas comuns, sejam executivos, elas fazem conta, veem que está pior e isso pesa muito na disposição de fazer qualquer coisa. Elas estão carregando o peso dessa frustração persistente.”

Enquanto vende quentinhas, Cardoso vê cada vez mais longe a chance de voltar a ter carteira assinada.

Ana Bispo e o marido vendem quentinhas em Salvador
Ana Bispo e o marido vendem quentinhas em Salvador - João Pedro Pitombo/Folhapress

Com trajetória na construção pesada, ele aproveitou o ciclo de crescimento da Petrobras no início da década, quando trabalhou em obras de dutos e tanques. Está parado há quatro anos.

“Além da falta de vagas nessa área, a idade também pesa. As empresas sempre vão preferir contratar um jovem, que chega mais forte e cheio de gás”, diz ele.

A construção civil registrou PIB negativo em 2018, queda de 28% em cinco anos.

A cadeia produtiva do setor começou a sentir a crise em 2015, um ano depois do início do ciclo recessivo, e também registra quedas consecutivas nos últimos quatro anos.

A indústria cimenteira, fornecedora da construção civil, saiu de um recorde de vendas e produção em 2014 para “o pior momento de sua história”, segundo entidades do setor.

Há cinco anos, as fábricas venderam 71 milhões de toneladas, tendo capacidade produtiva de 89 milhões. No ano passado, caíram a 52,7 milhões de toneladas.

Vinte das cem fábricas brasileiras fecharam, e muitas optaram por desligar fornos. Na produção de cimento, quando um forno é desligado, ele tem de ser refeito. É a última opção das empresas.

Na Apodi, indústria de cimento no Ceará, 20% dos funcionários são terceirizados e houve poucas demissões.

“Sentimos uma pancada forte, caíram a quantidade e o preço. Como os nossos sócios são dois grupos muito fortes, conseguiram suportar esse prejuízo que a indústria cimenteira está passando”, diz o presidente da empresa, Adauto Farias.

A Apodi é, desde 2016, uma joint venture da grega Titan Cement Group com a família Dias Branco, controladora do grupo M. Dias Branco.

No cenário geral da indústria, os empregos diretos passaram de 30 mil para 20 mil, enquanto os indiretos tiveram corte de 90 mil para 60 mil.

“O fato é que hoje, para uma capacidade de produção da indústria do cimento de 100 milhões de toneladas, temos 43% de capacidade ociosa”, diz Paulo Camillo Pena, presidente da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland) e do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento.



Em janeiro deste ano, a indústria esboçou crescimento de 4% em relação ao mesmo período do ano passado. Ao fim do quadrimestre, os números caíram para 0,9%. A expectativa está nas vendas do segundo semestre.

“Hoje, temos 53 milhões de toneladas, e a distribuição está 90% em edificações e 10% em infraestrutura. Desses 90%, a maior parte continua sendo habitacional e é [esse setor] que tem ajudado a reduzir a velocidade da queda”, diz Pena.

As obras de infraestrutura, de outro lado, dependem de concessões ou de investimentos do governo. Os estados, porém, atravessam dificuldades e também enxugam os gastos, dificultando a retomada da economia.

O Rio Grande do Sul é um dos exemplos mais simbólicos. A projeção de investimento sem financiamento neste ano é de R$ 159,4 milhões, um valor quatro vezes menor que o empenhado no ano anterior.

Há muitos anos o governo gaúcho é um dos que menos investem com recursos próprios, diz o economista Marco Aurelio Santos Cardoso, secretário da Fazenda do estado.

“O investimento está muito longe do que o estado precisa. Como as despesas de investimento não são obrigatórias, acabam sendo as primeiras cortadas”, disse Cardoso, citando o cenário de salários parcelados e pagamentos a fornecedores atrasados.


E tem momentos que nem o tempo ajuda o PIB brasileiro. Cafeicultores do interior paulista e de Minas Gerais se se queixam dos preços da saca (60 quilos), vendida ao redor de R$ 420.

O preço está em alta, mesmo com o início da safra, mas abaixo do que produtores consideram ideal, ao redor de R$ 500. O preço mínimo para cobrir os custos de produção, estimado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), é de R$ 362 a saca.

O valor tem ficado abaixo do desejado por produtores porque, apesar de crescer, a demanda não sobe no mesmo ritmo da produção, diz Netto.

“Embora grande, a safra que está chegando ao mercado agora está abaixo do esperado não só no preço mas também em relação à qualidade e ao rendimento. Por causa das chuvas, muito café caiu no chão e isso faz a qualidade cair.”

A safra que está no início —deve ir até setembro em algumas regiões— deve impactar negativamente o PIB do agro nos dois próximos trimestres. Marcelo Toledo, João Pedro Pitombo, Fernanda Canofre, Paula Sperb e Anaïs Fernandes


-5,3% era quanto o PIB estava, no primeiro trimestre, abaixo do pico de atividade, registrado no primeiro trimestre de 2014

-8,6% mais pobres estão os brasileiros em relação ao primeiro trimestre de 2014, pela medida da renda per capita

28,4 mi de pessoas, ou 24,9% dos brasileiros em idade para trabalhar, estavam sem emprego ou trabalhando menos do que gostariam no trimestre encerrado em abril

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