Caminhoneira trans vira estrela de comercial de rede de postos

Pai, ex-militar e ex-pastor, Afrodite Almeida Araújo, 70, estreia campanha digital nesta quarta

Curitiba

"Olha o traveco!", gritaram-lhe colegas caminhoneiros quando Afrodite, até então conhecida como o cinquentão tão macho quanto qualquer um ali, apareceu pela primeira vez vestida de mulher.

Tamanco, meia-calça, unhas esmaltadas. Estranharam, e ela se assustou. "Começaram a embaçar, era noite. Falei que era uma aposta para ver quem tinha coragem de sair daquele jeito. Seria o mais machão."

Era 1994. Seriam 22 anos até que ela assumisse a identidade feminina que clamava para si às escondidas, desde quando, moleque, perguntava para a mãe por que seus seios não cresciam como os das irmãs.

Sempre a mesma resposta: "Porque você é homem!".

Era mesmo? Nunca se sentiu um. Nesta quarta-feira (5), o Brasil conhecerá não aquele nome masculino que consta de suas certidões, mas Afrodite Almeida Araújo, 70, caminhoneira, pai, ex-militar, ex-pastor —tudo isso ao mesmo tempo.

Afrodite Almeida Araújo, 70, é trans e caminhoneira; é pai e já foi pastor e militar
Afrodite Almeida Araújo, 70, é trans e caminhoneira; é pai e já foi pastor e militar - Karime Xavier/Folhapress

A Shell estreia uma campanha digital pró-diversidade. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) vetou comercial do Banco do Brasil com apelo às diversidades sexual.

Afrodite é sua primeira protagonista: uma transgênero em um meio em que, como a Folha ouviu de um caminhoneiro, "tem mais testosterona que estrela no céu".

No momento em que país vive polarização, empresas ignoram os conflitos e defendem os direitos LGBTs.

A reportagem a encontra no aeroporto de Curitiba —onde mora a filha única, fruto de um de seus dois casamentos, ambos com mulheres, e a neta de 18 anos que a ajudou a escolher o visual: vestido de oncinha, jaqueta de couro, pulseira com textura de mármore, unhas vermelhas e salto alto (odeia rasteirinhas, até mesmo para dirigir).

A vida na estrada pode lhe ser hostil às vezes, mas Afrodite diz que tira de letra os engraçadinhos, que, em 2019, comportam-se como aqueles marmanjos de 1994.

Quando ia ao banheiro masculino, já caracterizada de mulher, muitos mostravam o órgão sexual para ela. Fora que era uma chatice tirar a meia-calça lá. Já no toalete feminino sempre foi bem recebida, diz.

Curioso é que os "mais valentões" costumam ser os que a puxam de canto para tentar um "algo a mais", afirma. Diz que nunca topou, até porque nunca foi muito chegada em sexo. "Eu não quero transar nem com mulher, vou querer com homem?"

Não é por se sentir feminina que Afrodite, ainda na identidade masculina, necessariamente era gay.

Sentia-se atraída mais por elas e tem consciência do porquê: "Mais por inveja do corpo delas". Queria aqueles peitos também.

O pai era filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), mas ela, que nasceu no interior do Paraná e adolesceu em Corumbá (MS), simpatizava com o regime militar. Acha que o sistema da época funcionava, ao contrário do de agora, em que candidatos como Tiririca saem eleitos.

Na sua passagem pelo Exército, de 1968 a 1971, atuou na fronteira Brasil-Bolívia. Morrer, naquele contexto, era o de menos. "Minha maior preocupação era ser ferido, porque sempre tiram a roupa de quem se feriu, para socorrer."

E não raramente, por baixa da farda, o cabo do Exército usava lingerie.

O hábito continuou ao virar, anos depois, pastor da Assembleia de Deus. Ideia da segunda mulher, "uma baixinha crente de 100 kg" que fez a caminhoneira espírita aderir à fé evangélica por um tempo.

Afrodite conta que gostava dos estudos bíblicos, gostava de verdade. E gostava ainda mais de usar paletó, sobretudo os mais grossos, pois dava para vestir sutiã com bojo sem ninguém perceber.

Já sexagenária, ela começou a tomar anticoncepcional e injeções de hormônio feminino, sem prescrição, para ver se aumentava as mamas e afinava os pelos, que sempre foram poucos em seu caso.

Veio o diagnóstico de gordura no fígado, um efeito colateral, e a bronca do médico, que lhe receitou um gel próprio para ela. Quer fazer cirurgia de mudança de sexo, mas a filha acha que não precisa, "que já estou bonita assim".

Prega a mitologia grega que Afrodite nasceu de um órgão sexual capado. Uma das lendas diz que Cronos, filho do deus Uranus, mutilou o pai e jogou seus testículos no mar. A deusa da beleza teria nascido da espuma formada ali.

"Me encantei com a forma pela qual veio ao mundo", diz Afrodite, a caminhoneira, dentro da boleia do caminhão e, por fim, fora do armário.

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