Celso Amorim diz temer perdas na área social do Mercosul

Fator político pode ter acelerado o ritmo das tratativas, afirmam especialistas

Ivan Martínez-Vargas Nicola Pamplona
São Paulo e Rio de Janeiro

O ritmo das negociações do acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi acelerado por fatores políticos como a troca de comando na Comissão Europeia e a eleição argentina deste ano, segundo especialistas.

“Preocupa-me o fato de o acordo ter sido fechado em um momento em que Brasil e Argentina estão com grande fragilidade e vulneráveis a aceitar qualquer tipo de tratado para dizer que conseguiram 
alguma coisa”, diz o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim (governo Lula).

A comissária europeia para o Comércio, Cecilia Malmström, disse nesta sexta-feira (28) que o ritmo das negociações se acelerou após a posse de Jair Bolsonaro.

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim durante evento em São Paulo - Nelson Almeida - 13.set.18/AFP

“Temo que Brasil e Argentina possam ter abdicado de políticas importantes na área social, como a questão de patentes para medicamentos.”

Uma das demandas da UE era que os países do Mercosul não quebrassem patentes por cinco anos após o registro, o que poderia prejudicar o setor farmacêutico nacional que produz genéricos.

Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente da Abitrigo (associação da indústria do trigo), a troca de comando de comando no braço executivo da UE também pode ter influenciado no ritmo das tratativas.

Barbosa vê o acordo como um marco histórico para o Mercosul e um contraponto à guerra comercial entre Estados Unidos e China.

“A UE é um bloco importante, nosso segundo parceiro comercial. O acordo põe fim a um isolamento comercial de 20 anos. Nesse período, só fizemos tratados com Egito, Israel e Autoridade Palestina.”

A implementação do acordo, segundo ele, deverá demorar ao menos um ano e meio.

Apesar do significado, porém, o tratado representa desafios para a economia brasileira, segundo Barbosa.

“Para ter um comércio dinâmico, é preciso melhorar a competitividade dos produtos brasileiros, o que só será possível depois de eliminarmos as ineficiências, desburocratizarmos o país e reduzirmos o chamado custo Brasil.”

O acordo aumenta a pressão sobre industriais brasileiros para o ganho de eficiência, segundo o ex-ministro da Fazenda e ex-secretário da Unctad (agência de comércio e desenvolvimento da ONU) Rubens Ricupero.

“Na área agrícola é o contrário. Mesmo que o acordo seja limitado, nesse setor tendemos a ganhar”, diz.

Para ele, a demora nas negociações indica que o que se conseguiu “é o limite do possível”.

“No caso de produtos agrícolas, recebemos concessões de tarifa para produtos que são do nosso interesse, mas aceitamos as cotas, o que é um ganho para nós”, diz Barbosa.

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