Descrição de chapéu Previdência

Com R$ 107 bi em ações, BNDES tem dificuldade para vender participações

Ofertar muitas ações da Petrobras, que tem maior peso na carteira do banco, poderia depreciar valor

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

Apesar das críticas sobre sua participação no mercado acionário, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) acelerou nos últimos anos a venda de participações que mantém em outras empresas.


O processo, porém, esbarra na elevada concentração de sua carteira em ações da Petrobras e da Vale.
A demora para reduzir o tamanho da carteira era uma das críticas da área econômica do governo à gestão de Joaquim Levy, que pediu demissão no domingo (16) em resposta a reclamações do presidente Jair Bolsonaro —que, no dia anterior, dissera “estar por aqui” com o executivo.


Ao fim do primeiro trimestre de 2019, a carteira de ações do BNDESPar, braço de participações do banco, valia R$ 106,84 bilhões. Embora tenha se desfeito de fatias importantes em empresas como Eletropaulo e Fibria, o valor da carteira cresceu 38% desde 2016, acompanhando a melhora da Bolsa de Valores.

O valor compreende apenas as ações em 37 empresas com capital negociado em Bolsa. 

Além delas, o BNDES tem fatias em 80 empresas fechadas, que valem, de acordo com a instituição, R$ 3,97 bilhões (possui ainda R$ 7,8 bilhões em debêntures de renda variável e outro R$ 1,86 bilhão em fundos de investimento).


A redução da presença em empresas negociadas em Bolsa já estava nas prioridades das últimas gestões. Em 2017, o BNDES teve lucro de R$ 3,7 bilhões com a venda de ações. Em 2018, o ganho saltou 65%, para 6,1 bilhões, “devido à aceleração das vendas e apreciação da Bolsa”, segundo informou o banco na ocasião. 


No primeiro trimestre de 2019, foram R$ 10,1 bilhões. O resultado foi obtido principalmente com venda de ações da empresa de celulose Fibria, que rendeu R$ 6,8 bilhões, e da Petrobras, que garantiu outros R$ 2 bilhões de ganho no período.


Em entrevista para detalhar o balanço, o então presidente Levy disse que o objetivo era manter o ritmo de desinvestimentos para reduzir volatilidades em seu balanço e, por outro lado, concentrar a aplicação de recursos em empresas nascentes e infraestrutura.


“Carregar Petrobras não traz valor adicionado”, afirmou, na ocasião.


A menção à petroleira estatal não foi feita à toa: 44,3% do valor da carteira do banco, ou R$ 53,4 bilhões, refere-se a ações da Petrobras. Outros 13,7% (R$ 16,5 bilhões) são da Vale. Mais três empresas (Eletrobras, JBS e Suzano) respondem por 21,2%.


O banco vem vendendo ações da Petrobras, mas em ritmo ainda considerado insuficiente pelo governo: no primeiro trimestre, se desfez do equivalente a 1,1% do capital da estatal, mas mantém ainda 13,9%.

A justificativa é que a oferta de um volume alto de ações pode depreciar o valor dos papéis.

No caso da Vale, o projeto de venda das ações foi suspenso após a tragédia de Brumadinho, em janeiro, que derrubou o valor de mercado da mineradora. Os papéis só serão oferecidos ao mercado quando estiverem mais valorizados.


Com a melhora do desempenho das empresas, porém, o BNDES tem recebido mais dividendos das companhias em que tem participação. Em 2018, foi R$ 1,6 bilhão.


Em evento na sede do banco na quarta (19), o ex-presidente do BNDES José Pio Borges defendeu uma maior rotatividade da carteira do BNDESPar, com ciclos de investimento entre cinco e seis anos.

O banco carrega até hoje, por exemplo, ações da Petrobras adquiridas no processo de capitalização da estatal, em 2010.

O logo do BNDES
O logo do BNDES - Sergio Moraes/Reuters

O ex-presidente Luciano Coutinho, que conduziu essa aquisição quando estava à frente da instituição, defendeu que o BNDESPar é gerador de caixa para o banco e, portanto, a compra de ações não é feita com dinheiro subsidiado do governo.

Entre 2007 e 2015, afirma, a subsidiária gerou R$ 23 bilhões de caixa, com lucro acumulado de R$ 16 bilhões.

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