Desempenho fraco em setores da economia já provoca efeito dominó, diz Maersk

Para companhia dinamarquesa, governo ainda não deu sinais para destravar uma retomada

Arthur Cagliari
São Paulo

O desempenho fraco de alguns setores econômicos já vem provocando um efeito dominó na economia brasileira, na avaliação da dinamarquesa Maersk, maior companhia de transporte de contêineres do mundo.

“Um efeito dominó dentro da economia brasileira já está em andamento em segmentos-chave dos setores agrícola, de varejo e industrial. Ele precisa ser interrompido antes de ganhar mais impulso e causar um impacto indireto em outras partes da economia”, segundo o diretor da Maersk no Brasil, Antônio Dominguez, em relatório divulgado na quarta-feira (5).

Contêineres da companhia dinamarquesa Maersk
Importações e exportações devem voltar a crescer só em 2020, diz Maersk - Edgar Su/Reuters

Nos três primeiros meses deste ano, um sinal preocupante, segundo a empresa, foi a queda de 10% nas importações de produtos químicos, que são principalmente fertilizantes.

No período, os agricultores brasileiros deixaram de comprar 100 mil toneladas de fertilizantes. Essa redução deve impactar as vendas dos produtos agrícolas no futuro.

"O processo normal é que você importe fertilizante para sua produção de algodão, de café, de soja, para depois exportar esses produtos. Se vemos uma queda na importação [do fertilizante], isso se reflete no futuro em uma menor exportação [dos produtos agrícolas]", disse à Folha o gerente de Produto da Maersk, Matias Concha.

Na contramão das expectativas apresentadas em relatório de fevereiro, as exportações não avançaram no primeiro trimestre.

Na época, a projeção era que as vendas brasileiras para fora em 2019 tivessem alta de 2%. No resultado de janeiro a março, as exportações recuaram 2%, mesmo com a moeda brasileira desvalorizada ante o dólar –o que torna o produto brasileiro mais competitivo lá fora.

"De fato, [tínhamos] uma expectativa muito grande na abertura de mercado tanto dita pelo governo nas eleições. E o que a gente viu foi a falta de novos acordos comerciais e uma regulação excessiva no setor marítimo", afirmou Gustavo Paschoa, diretor comercial da companhia dinamarquesa. 

A ausência de sinais que deem segurança às empresas impactam novos aportes no país, na avaliação da Maersk, que não enxerga um cenário econômico melhor para o segundo trimestre. 

"Empresas adiam seus investimentos por ainda não terem certeza se o novo governo no Brasil conseguirá apoio o suficiente para seu programa de reformas", diz o relatório.

"As esperanças de uma onda de contratações no segundo trimestre e o início de uma recuperação econômica modesta agora estão frustradas." 

Na terça-feira (4), dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostraram que a produção industrial brasileira fechou abril com alta de 0,3%. Apesar do leve avanço, nos quatro primeiros meses do ano, o setor ainda acumula queda de 2,7%.

Pesquisa da consultoria IHS Markit indica que a situação do setor industrial em maio foi ruim. O Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês), calculado pela consultoria, caiu a 50,2 no mês, ante 51,5 registrados em abril.

Os primeiros três meses do governo do presidente Jair Bolsonaro foram marcados pela economia estagnada.

O IBGE informou na semana passada que o PIB contraiu 0,2% de janeiro a março, ante o 4º trimestre de 2018, confirmando o quadro de letargia que vem sendo descrito por economistas.

Foi o primeiro resultado no vermelho após dois anos (oito trimestres) seguidos de recuperação da atividade, ainda que com desempenho fraco. 

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