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Experiência pessoal e dores do dia a dia ajudam a desenvolver startups

Chances de sucesso aumentam quando empresa é da área do empreendedor, dizem especialistas

Filipe Oliveira
São Paulo

De uma noite com fome e poucas opções para comer até a observação do trabalho dos pais ou da falta de eficiência em atividades da empresa em que se trabalha podem nascer ideias para startups.

Um dos principais caminhos para criar uma empresa de tecnologia é observar dores do dia a dia e do mercado, diz Romero Rodrigues, sócio do fundo Redpoint eVentures (que investe no setor).

Mas ter a ideia é só o começo. Rodrigues, que também fundou o Buscapé no fim dos anos 1990, lembra que é preciso também estudar o tamanho do mercado, a concorrência e a tecnologia que será necessária usar para avaliar se o investimento compensa.

Cláudio Carvajal, coordenador do curso de administração da Fiap (Faculdade de Informática e Administração Paulista), recomenda que, ao se deparar com uma ideia, negócio, o empreendedor comece o trabalho entrevistando potenciais clientes, para entender se eles também acham a proposta interessante e possam ajudar no refinamento do plano.

Só depois disso vale a pena lançar algo no mercado, ainda em caráter experimental para fazer testes e aprimoramentos, e, de preferência, gastando pouco, no modelo que o setor de startups conhece como Mínimo Produto Viável.

Luís Gustavo Lima, sócio da aceleradora de negócios ACE, diz que só ideias têm pouco valor, o mais importante é a capacidade de realizar o planejado.

“O que mais acontece na seleção da aceleradora é alguém chegar e dizer que pensou na ideia da Uber há dez anos. Ideias interessantes acontecem o tempo todo em todo lugar.”

Lima diz acreditar que, quando as ideias nascem dentro do segmento de atuação no qual o empreendedor já trabalha, as chances de sucesso aumentam, pois ele terá mais conhecimento sobre os desafios e oportunidades do mercado. “Quando o empreendedor viveu aquilo, ele sabe do que está falando”, diz.

No caso de Mariana Vasconcelos, 27, nascida em Itajubá (MG), sua vivência na fazenda durante a infância somada ao incentivo para empreender que teve na faculdade a fizeram notar que poderia unir tecnologia e agricultura em um novo negócio.


Inspiração com método

Início
Pense primeiro no problema que seu negócio pode resolver antes de tentar entender que tecnologia usar

Estude
Avalie o tamanho do mercado, se já há concorrentes fazendo coisas parecidas e se uma empresa poderia copiar sua ideia com muita facilidade

Confirme
Antes de começar a colocar a ideia em prática, converse com possíveis consumidores para entender se sua ideia é mesmo boa e se pagariam por seu produto

Comece pequeno
Crie versões experimentais de seu produto gastando o mínimo possível para aprender e melhorá-lo sem perder muito tempo e antes de fazer grandes investimentos

Fontes: Luís Gustavo Lima (sócio da ACE), Cláudio Carvajal (professor da Fiap) e Romero Rodrigues (sócio da Redpoint)


Em 2014, ela criou a startup Agrosmart, que leva sensores para o campo com o objetivo de captar informações como umidade, temperatura e desenvolvimento de pragas.

Os dados são combinados com informações de parceiros (imagens de drones e satélites, por exemplo) para que o sistema da empresa possa dar orientações para o produtor aumentar o rendimento da plantação a partir de sistema baseado em inteligência artificial.

Com isso, diz Vasconcelos, cai o uso de intuição na tomada de decisões do produtor rural.

“Somos da roça, aprendi observando o dia a dia, vendo que muitas decisões eram tomadas olhando o que o vizinho fazia, batendo a bota no chão para saber como estava a terra.”

Além de atuar no Brasil, sua companhia, com 50 funcionários, possui clientes nos demais países da América Latina, dos EUA e de Israel.

Por sua inovação, Vasconcelos foi incluída em lista das cem pessoas mais criativas do mundo dos negócios de 2019, divulgada em maio pela revista americana Fast Company.

Veja como startups surgiram a partir da vivência de fundadores

Deixa pro robô
O advogado Gabriel Senra, 31, se incomodava com o tempo gasto por colega experiente do departamento jurídico com a elaboração de documentos que só exigiam trabalho repetitivo.

Ele contratou dois programadores e, para uma empresa de pagamentos eletrônicos, criou sistema que automatizava respostas a queixas de consumidores, reduzindo os gastos jurídicos da companhia.

Senra levou sua ideia para a aceleradora de negócios 500 Startups, onde conseguiu investimento. Hoje, sua startup, a Linte, desenvolve sistema de inteligência artificial que acelera a elaboração de documentos jurídicos para empresas.

Gabriel Senra, sócio da startup Linte, de inteligência artificial para elaboração de documentos jurídicos
Gabriel Senra, sócio da startup Linte, de inteligência artificial para elaboração de documentos jurídicos - Divulgação
 


Vem pra rua

A arquiteta Marcia Milanez, 39, ficou impressionada com o contraste entre o grande movimento na rua de comércio popular 25 de Março e seu escritório, com poucos clientes em meio à crise econômica.

Em uma conversa com o estagiário e hoje sócio Daniel Alves, 27, imaginou que seria possível democratizar o serviço de arquitetura e criou um trailer para levar serviços de arquitetura para bairros de renda mais baixa.

A experiência mostrou que havia público. O próximo passo foi transformar a ideia numa startup, a Arquiteto de Bolso, que conecta arquitetos e clientes por chat online.

Marcia Milanez e Daniel Alves, sócios da startup Arquiteto de Bolso
Marcia Milanez e Daniel Alves, sócios da startup Arquiteto de Bolso - Divulgação

Saúde da família

A perda do emprego e uma doença na família levaram a engenheira Tatiana Pimenta, 37, a imaginar a startup a Vittude.

Em 2015, após ser demitida, ela se dedicou a cuidar do pai, indo morar em Corumbá (MS).  Lá, percebeu a dificuldade de conseguir atendimento com especialistas e passou a pensar em desenvolver um serviço de consultas à distância.

Orientada por executivos do Albert Einstein e do Sírio Libanês, concluiu que consultas médicas online ainda demorariam a ser permitidas no Brasil, mas já seria possível oferecer uma plataforma para atendimento psicológico online e para gestão de consultórios.

A engenheira Tatiana Pimenta, fundadora da startup Vitude, de atendimento psicológico e gestão de consultórios online
A engenheira Tatiana Pimenta, fundadora da startup Vitude, de atendimento psicológico e gestão de consultórios online - Divulgação

Negócio do campo

De família de fazendeiros, Mariana Vasconcelos, 27, comandou um negócio pela primeira vez aos 16, quando começou a tocar a padaria da família.

Mais tarde, no curso de administração na Unifei (Universidade Federal de Itajubá), passou a ter contato com o empreendedorismo tecnológico.

Com colegas, pensou em negócios ligados à computação em nuvem e ao setor de óleo e gás, mas a ideia que foi para a frente aproveitou suas raízes. Sua empresa tem sistema que combina informações de sensores na plantação para dar orientações para o produtor rural elevar produtividade.

Mariana Vasconcelos, fundadora da Agrosmart
Mariana Vasconcelos, fundadora da Agrosmart - Danilo Verpa/Folhapress

Esfomeado
O americano Will Shu, 39, que era executivo do Morgan Stanley, sentiu falta de restaurantes onde poderia comprar comida à noite quando trabalhava em escritório em Londres. Começou a tentar desenvolver um delivery online já em 2007. A ideia não decolou e ficou de lado até 2013, após o empresário fazer curso de empreendedorismo e o smartphone dominar o mercado.

Shu trabalhou por meses como entregador do aplicativo que construía para entender o funcionamento do negócio.

Sua companhia recebeu investimento de US$ 575 milhões da Amazon em maio. Está em 14 países e agora investe na criação de espaços compartilhados para restaurantes que queiram trabalhar só com delivery.

Will Shu, fundador da Deliveroo
Will Shu, fundador da Deliveroo - Charles Platiau/Reuters

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