Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Emails podem revelar que Zuckerberg sabia de práticas questionáveis de privacidade

Descoberta despertou a preocupação de que as mensagens sejam prejudiciais ao Facebook

John D. McKinnon, Emily Glazer, Deepa Seetharaman e Jeff Horwitz
Nova York | The Wall Street Journal

O Facebook localizou emails que parecem mostrar que seu presidente-executivo, Mark Zuckerberg, estava informado sobre práticas de privacidade potencialmente problemáticas em sua companhia, disseram pessoas informadas sobre o assunto.

Dentro da empresa, a descoberta dos emails, que aconteceu como parte da resposta a investigações federais sobre privacidade, despertou a preocupação de que as mensagens sejam prejudiciais ao Facebook—pelo menos do ponto de vista de relações públicas—caso venham a ser divulgadas, disse uma das pessoas. 

Mark Zuckerberg, presidente-executivo do Facebook
Mark Zuckerberg, presidente-executivo do Facebook, durante evento na Califórnia, no ano passado - Josh Edelson - 1°.mai.18/AFP

O impacto potencial dos emails internos vem sendo um fator no desejo da gigante da tecnologia de chegar rapidamente a um acordo sobre a investigação conduzida pela Comissão Federal do Comércio (FTC), disse uma das pessoas. 

O Facebook vem operando sob um acordo assinado em 2012 com a agência sobre questões de privacidade, e emails enviados naquele momento indicam que Zuckerberg e outros executivos importantes não deram prioridade ao cumprimento da ordem da FTC, disseram as pessoas.

Não foi possível determinar exatamente que emails a FTC solicitou, e quantos dele se relacionam a Zuckerberg.

A investigação da FTC começou mais de um ano atrás, depois que surgiram informações de que dados pessoais sobre dezenas de milhões de usuários do Facebook haviam chegado indevidamente à Cambridge Analytica, uma consultoria política que trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump em 2016.

A FTC está investigando se o lapso representou violação do acordo assinado em 2012 entre ela e o Facebook, sob o qual a empresa assumiu o compromisso de proteger melhor a privacidade de seus usuários. Desde o caso da Cambridge Analytica, outros equívocos em termos de privacidade foram revelados, agravando os problemas do Facebook.

O Facebook está ansioso por chegar a um acordo com a FTC e deixar para trás o escândalo da Cambridge Analytica. A empresa anunciou em abril que antecipava pagar até US$ 5 bilhões como parte de um novo acordo com a agência.

"Cooperamos plenamente com a investigação da FTC, até o momento, e fornecemos dezenas de milhares de documentos, emails e arquivos. Vamos continuar o trabalho com eles e esperamos levar a questão a uma resolução apropriada", disse um porta-voz do Facebook na terça-feira. "O Facebook e seus executivos, entre os quais Mark, se esforçam a cada momento para cumprir as leis aplicáveis, e em momento algum Mark ou qualquer outro empregado do Facebook violou conscientemente as obrigações da empresa nos termos do acordo com a FTC".

Não foi possível determinar se qualquer dos emails—que foram descritos por pessoas informadas sobre seu conteúdo mas não vistos diretamente pelo The Wall Street Journal—revela práticas que violam o acordo de 2012. Qualquer prova de que Zuckerberg tenha se envolvido diretamente em um possível descumprimento do acordo com a FTC pelo Facebook poderia complicar os esforços das duas partes para resolver a questão.

Pelo menos alguns dos emails internos já encaminhados à FTC mostram o Facebook lidando com áreas cinzentas sobre como lidar com as questões de privacidade nos termos do acordo; Zuckerberg esteve envolvido de perto nas discussões, de acordo com pessoas informadas sobre as mensagens.

Em uma troca de emails acontecida em abril de 2012 que atraiu a atenção das autoridades regulatórias, de acordo com uma pessoa informada sobre o assunto, Zuckerberg perguntou ao pessoal da companhia sobre um app que afirmava ter construído um banco de dados formado por informações sobre dezenas de milhões de usuários do Facebook.

O desenvolvedor tinha a capacidade de exibir essas informações de usuários a terceiros em seu site, não importa quais fossem as opções de privacidade em uso pelo usuário do Facebook, disse a pessoa.

Zuckerberg queria saber se uma coleta de dados assim extensa era possível e se o Facebook deveria fazer alguma coisa para impedir que desenvolvedores exibissem os dados, disse a pessoa.

Um empregado do Facebook respondeu a Zuckerberg, dizendo que era possível recolher dados daquela maneira mas acrescentando que a questão era complicada, disse a fonte.

A discussão foi adiante sem que Zuckerberg ou qualquer outra pessoa sugerisse, por email, que a companhia investigasse quantos outros apps estavam recolhendo dados sobre usuários, disse a pessoa.

O Facebook por fim suspendeu o app em questão, disse a pessoa, que acrescentou que a companhia não havia agido de maneira agressiva para lidar com o problema mais amplo.

Na época, executivos do Facebook estavam mais preocupados em ampliar a base de usuários da empresa e atrair anunciantes, e pareciam menos diligentes quanto a aplicar suas normas de uso de dados, disseram desenvolvedores e ex-empregados do Facebook.

A companhia declarou repetidas vezes que foi lenta ao reagir a questões de privacidade e segurança.

A troca de emails aconteceu depois que o acordo com a FTC foi anunciado mas antes que ele entrasse em vigor. Nos termos do acordo, o Facebook precisa respeitar as escolhas de privacidade do usuário e não  pode compartilhar dados sobre este sem sua permissão explícita.

Se o acordo estivesse em vigor na época, o acúmulo de informações sobre os usuários representaria uma potencial violação. A mensagem de Zuckerberg parece indicar que ele estava ciente do fato, de acordo com a pessoa informada sobre o diálogo.

A equipe da FTC vem estudando o episódio como parte de sua investigação.

Uma penalidade civil da ordem dos bilhões de dólares poderia estabelecer um novo recorde em termos de indenização punitiva pela FTC, mas a agência está sendo pressionada por alguns legisladores a impor indenização punitiva mais alta ou abrir um processo, porque mesmo uma indenização financeira de valor tão alto causaria pouco incômodo ao gigante da tecnologia.

Alguns funcionários da FTC debateram a possibilidade de citar Zuckerberg pessoalmente como acusado, na queixa que a agência pode apresentar à justiça como parte do acordo. Se existirem documentos que indiquem que o Facebook ou Zuckerberg desconsideraram propositadamente as ordens das autoridades regulatórias, essas discussões podem se complicar. Não há indicação de que qualquer dos documentos entregues pela companhia ao Facebook aponte para isso.

O Facebook se opôs vigorosamente a quaisquer esforços para responsabilizar Zuckerberg pessoalmente, como parte de um novo acordo, disseram pessoas informadas sobre o assunto.

A alternativa de abrir um processo judicial contra o Facebook acarreta riscos para a FTC, mas também para a empresa. Caso vencesse o processo, a FTC talvez obtivesse indenizações monetárias e mudanças operacionais menores no Facebook do que poderia obter por acordo, disseram observadores das questões legais.

Para o Facebook, disseram esses observadores, um processo aumentaria a probabilidade de que emails de Zuckerberg e outros executivos importantes circulem publicamente, o que colocaria em dúvida o compromisso renovado da empresa para com a proteção da privacidade.

Zuckerberg, que no ano passado admitiu ter cometido "um erro imenso" ao não priorizar mais cedo a proteção da privacidade dos usuários, vem falando sobre estabelecer um novo rumo para o Facebook.

​Ele anunciou alguns meses atrás que a empresa passaria a dar prioridade a produtos para mensagens cifradas e efêmeras, e que apoiaria a introdução pelo governo dos Estados Unidos de leis de proteção aos dados pessoas semelhantes às leis europeias vigentes.

Os esforços legais e políticos para averiguar as práticas passadas da empresa continuam firmes, em diversas jurisdições.

Documentos judiciais sigilosos de um processo americano, obtidos e divulgados pelo Parlamento britânico, mostram que o Facebook tentou expandir seu acesso a dados de usuários sem informá-los, e depois bisbilhotou as atividades dos usuários de seus serviços em outras plataformas móveis.

Nos Estados Unidos, Karl Racine, secretário da Justiça no governo de Washington, abriu um processo  contra o Facebook por conta do caso Cambridge Analytica, e recentemente as autoridades apresentaram provas de que o pessoal do Facebook estava ciente de que dados de usuários estavam sendo usados indevidamente para fins políticos já desde 2015.

O Facebook está se defendendo do processo em Washington, e contestou a afirmação de que a empresa estava ciente dos delitos da Cambridge Analytica já em 2015. A empresa caracterizou os documentos obtidos pelo Parlamento britânico como "escolhidos seletivamente" e enganosos.
 
The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

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