Funcionários do BNDES negam insatisfação com Levy e veem conflito em desestatização

Levy deixa presidência do BNDES em primeira baixa de Guedes; disputa política é travada em ministério

Alexa Salomão Bernardo Caram
São Paulo e Brasília

Joaquim Levy pediu demissão da presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) neste domingo (16). A decisão foi tomada após o presidente Jair Bolsonaro afirmar que ele estava "com a cabeça a prêmio".

"Solicitei ao ministro da Economia, Paulo Guedes, meu desligamento do BNDES. Minha expectativa é que ele aceda. Agradeço ao ministro o convite para servir ao país e desejo sucesso nas reformas", afirmou Levy, em nota.

O economista enviou uma carta a Guedes para comunicar sua decisão. É a primeira baixa na equipe econômica.

Na mensagem divulgada à imprensa, Levy agradeceu pela lealdade da diretoria e dos funcionários do banco.

Entre os nomes cotados para a presidência do BNDES estão os secretários especiais do ministério da Economia Carlos da Costa (Produtividade, Emprego e Competitividade) e Salim Mattar (Desestatização e Desinvestimento).

Nome de confiança de Guedes, a presidente da Susep (Superintendência de Seguros Privados), Solange Vieira, está entre as possibilidades.

No sábado (15), Bolsonaro ameaçou demitir Levy, mesmo sem a anuência de Guedes, que, posteriormente, endossou críticas ao subordinado.

O clima piorou, segundo Bolsonaro, após Levy nomear um executivo que já havia trabalhado no banco durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O advogado Marcos Barbosa Pinto ocuparia a partir desta segunda-feira (17) a diretoria de Mercado de Capitais.

"Essa pessoa, o Levy, já vem há algum tempo não sendo aquilo que foi combinado e aquilo que ele conhece a meu respeito", disse Bolsonaro.

A atuação de Levy no banco vinha gerando irritação também em Guedes. No BNDES, porém, a justificativa para a fritura de Levy apresenta incoerências e é vista como uma disputa de poder dentro do Ministério da Economia.

A primeira questão foi Bolsonaro se mostrar surpreso e indignado com a posse de Barbosa Pinto, uma vez que ele fora sondado por Levy para ocupar o posto antes da posse do novo governo.

A indicação oficial chegou à Casa Civil, e o nome recebeu sinal verde. Na sequência, foi avaliado por diferentes organismos do governo. Passou pelo conselho de administração do banco de fomento, aprovado por unanimidade.

Respeitado no mercado, ele foi sócio de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, na Gávea Investimentos. O nome de Barbosa Pinto foi aprovado, seguindo o Estatuto das Estatais, em assembleia do banco.

Membros da área econômica do governo afirmaram à Folha que Levy tinha dificuldade de atender algumas das principais determinações do governo à frente do banco. Eram três as principais reclamações de Guedes.

A primeira avaliação é que Levy não deu andamento a uma criteriosa revisão das grandes operações feitas pelo BNDES nos últimos anos, principalmente as efetuadas durante as gestões do PT.

Essa era uma das principais bandeiras de campanha de Bolsonaro e sua equipe.

O argumento, dizem fontes do banco e até do governo, não é plausível porque o BNDES é investigado há dois anos. Até agora, não foi aberto processo contra nenhum integrante da instituição.

Segundo relatos de integrantes da equipe de Guedes, Levy, que foi ministro da Fazenda de Dilma Rousseff e secretário do Tesouro de Lula, não empenhou velocidade suficiente na venda de ativos em poder do banco.

Desde o começo do ano, no entanto, já foram arrecadados cerca de R$ 13 bilhões com a venda de participações. Era essa área que ficaria sob comando de Barbosa Pinto.

Esse tipo de operação, alegam técnicos da instituição, deve seguir a lógica de mercado, para que se tenha o melhor resultado financeiro.

A carteira do BNDESPar —braço de participações— tem mais de cem investimentos, mas está concentrada em quatro empresas: Petrobras, Vale, Eletrobras e JBS. Diferentes circunstâncias impuseram ritmo mais lento na venda de ações desse quarteto de empresas.

No caso da Petrobras, por exemplo, havia interferência do STF (Supremo Tribunal Federal) na venda da TAG, transportadora de gás da estatal. O negócio já foi liberado.

A venda de ações da Vale vinha bem, até que ocorreu o rompimento da barragem em Brumadinho (MG), e o preço despencou, inviabilizando uma negociação racional por ora.

A equipe econômica reclama ainda de uma suposta resistência de Levy em devolver recursos do BNDES ao Tesouro no ritmo desejado pelo ministro da Economia.

Guedes já disse que espera receber R$ 126 bilhões do BNDES neste ano, mas Levy não se comprometia com a cifra. Os recursos são tratados como necessários para ajudar no ajuste fiscal do governo.

Fontes próximas a essa negociação contam, na condição de anonimato, que Levy de fato não estava totalmente de acordo em enviar neste ano o montante solicitado, mas discutia um cronograma dos repasses.

É forte no BNDES a leitura de que alguns integrantes da equipe econômica estavam desgostosos com a velocidade das mudanças e decidiram interferir de forma mais direta.

O desejo de parte da equipe é que elas fossem aceleradas. Entre os mais queixosos, contam, está Mattar. Internamente no banco a percepção é que sua interferência teria sido decisiva para colocar Bolsonaro contra Levy.

Integrantes do governo ainda não estão certos de que Mattar, apesar de cotado, tenha perfil para substituir Levy. Procurado pela Folha, Mattar não respondeu.

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