Montadoras veem Brasil menos atrativo para matrizes investirem

Carga tributária, defasagem tecnológica e incertezas aumentam risco-país, dizem executivos de Mercedes, GM e Fiat

Anaïs Fernandes
São Paulo

O isolamento do Brasil e sua indústria automobilística dos avanços e mudanças globais no setor automotivo está tornando o país pouco atrativo para as grandes matrizes do segmento. A avaliação é do presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Philipp Schiemer.

"Não estamos prestando atenção no que está acontecendo no mundo. Os últimos anos foram bons para muitas empresas no sentido global, mas os novos desafios que estão aparecendo, de veículos autônomos, eletrificados, compartilhados, requerem investimento forte das matrizes", afirma. 

"As empresas vão olhar com muito mais cuidado onde investir o dinheiro, que está escasso, e não vão investir em países que não são competitivos. O Brasil está perdendo o trem do futuro e isso me preocupa", acrescenta Schiemer, ao participar do Fórum Estadão Think nesta quarta-feira (12).

Funcionários montam carro em fábrica da March
Montadoras veem menos atrativos no Brasil para novos investimentos - Juca Varella/Folhapress

A falta de atratividade do Brasil passaria pelas incertezas econômicas e políticas que rondam o país, bem como por problemas estruturais, como o sistema tributário.

Segundo Antônio Filosa, presidente da FCA América Latina, dona da Fiat, o risco de investir em um país é aceitável para as matrizes quando os cenários político e econômico têm apoio em escala e há previsibilidade.

"No Brasil tem 'gap' [lacuna] de engenharia fiscal, de competitividade dos impostos não recuperáveis no momento da exportação e também de escala", afirma.

Schiemer diz que o Brasil precisa "se abrir para o mundo", não só na exportação, mas também na importação. "Não vamos ter todas as tecnologias aqui disponíveis em um primeiro momento. Se não temos acesso a essa tecnologia, a indústria aqui vai morrer."

A exportação do setor automotivo brasileiro vem sofrendo com a crise na Argentina, principal destino dos carros produzidos no país.

De janeiro a maio, as exportações acumulam queda de 42%, na comparação com igual período de 2018, segundo dados da Anfavea (associação das montadoras). A fatia da Argentina nas vendas ao exterior caiu de 76% para 59%.

A indústria reconhece que não pode depender tanto das exportações ao vizinho. "As oportunidades lá fora são maiores do que a Argentina", diz Filosa, citando como mercados potenciais para o país China, Colômbia e Peru.

"Mas, quando vamos competir nesses campos de batalha que têm nível de abertura elevado dos mercados, pagamos o problema da carga [tributária", disse.

Carlos Zarlenga, presidente da GM América do Sul, afirma que a tecnologia para fabricação de veículos é a mesma nas fábricas de uma empresa espalhadas pelos países. Ainda assim, segundo ele, a GM produz cerca de 600 mil unidades no Brasil e 900 mil no México.

"Quando vemos a decisão de acordo de livre comércio entre Brasil e México, nossa reação é: 'Vou fazer no México e exportar para o Brasil'. Vários investimentos, de fato, têm que ser rediscutidos, mas a razão para isso é 100% tributária, porque do ponto de vista competitivo, é bem similar", afirma.

Os executivos reconhecem a situação fiscal delicada do governo brasileiro e dizem que a ideia com mudanças no sistema tributário, por exemplo, não é reduzir arrecadação.

"Eu aceito um trade off [troca] de imposto interno à venda no Brasil para pagar pela redução de imposto na exportação. Se você tem uma carga altíssima, deixe o consumidor brasileiro pagar por isso, mas não coloque o consumidor chileno e colombiano para pagar a carga brasileira porque ele não vai pagar, ele pode pagar a coreana, que é menor. Estamos evitando capacidade de gerar emprego e fazer mais investimentos no Brasil", diz Zarlenga.

Neste ano, a GM colocou em xeque a continuidade da produção em suas fábricas em São Paulo. Da mesa de negociação com o governo estadual, saiu um programa que oferece benefício fiscal para empresas que realizarem novos investimentos em São Paulo.

GUERRA FISCAL

Representantes dos estados presentes no evento também reforçaram a necessidade de uma reforma tributária, que, segundo eles, deveria caminhar no Congresso logo após a aprovação do projeto da Previdência.

"Tem que ser agenda tão logo a da Previdência seja encerrada, porque é tão complexa, mas tem que ser enfrentada", disse Paulo Câmara (PSB), governador de Pernambuco.

O deputado Baleia Rossi (MDB-SP) já apresentou à Câmara dos Deputados uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) em que a ideia central é reunir cinco impostos (IPI, PIS/Cofins, ICMS e ISS) em um único. 

"O ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] é um imposto moribundo. Precisamos só decidir de que forma vamos matá-lo e em quanto tempo, para termos um sistema mais simples compatível com a nova economia que se impõe", disse Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul.

Leite diz que é preciso reduzir o custo dos impostos nas vendas do setor automobilístico ao exterior –algo na casa de 20% do valor exportado, considerando toda a cadeia, segundo ele. 

A proposta em tramitação na Câmara, cuja base foi elaborada pelo CCiF (Centro de Cidadania Fiscal), também prevê a desoneração de investimentos e exportações, na tentativa de aliviar o peso tributário sobre a produção brasileira. O economista Bernard Appy, diretor do CCiF, costuma dizer que essas são características essenciais de bons IVA (imposto sobre valor agregado), tipo do tributo que a reforma quer instituir no Brasil.

A reforma prevê ainda o fim de benefícios e isenções fiscais, o que, segundo especialistas, têm levado a distorções nas estratégias de produção das empresas, além de incentivar a guerra fiscal entre estados.

"A indústria automotiva precisa de constante renovação, mas isso [o atual sistema tributário] tira competitividade da nossa produção. Aí, os estados ficam pressionados a fornecer os incentivos que temos à nossa mão para permitir que a indústria faça os investimentos necessários", diz Leite.

Henrique Meirelles, secretário da Fazenda de São Paulo, negou que o programa do estado IncentivAuto (ao qual a GM aderiu) estimule a guerra fiscal entre entes federativos.

O IncentivAuto concede desconto de até 25% no ICMS para montadoras que investirem no mínimo R$ 1 bilhão e gerarem 400 empregos.

"Não muda a alíquota do que está sendo produzido. [O desconto] incide sobre as vendas resultantes de novos investimentos, portanto, recursos que não seriam arrecadados porque, de outra maneira, o investimento não seria feito", afirma.

"São Paulo estava com a alíquota um pouco defasada e agora trazemos para um patamar equivalente a outros estados no topo. Estamos equalizando todo o processo."

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