Pastores do Quênia trocam sinais do céu por SMS em busca de pasto com chuva

Atividade de pastores responde por 12% do PIB no país africano

Nick Perry
Merille (Quênia) | AFP

Já faz gerações que membros do clã de Kaltuma Hassan, 42, escutam o céu em busca de sinais de chuva, antes de levar seus rebanhos para pastar; o vento, a formação de uma nuvem —toda informação vale. 

Agora, eles confiam nas previsões meteorológicas que recebem em seus celulares via mensagem de texto.

Seus conhecimentos celestiais de pouco serviram nos últimos anos diante de secas cada vez mais frequentes e intensas. Os membros do clã às vezes caminham dias a fio com os animais sem encontrar uma gota de água, apenas rios secos e terra árida.

Mercado de animais no Quênia, país em que atividade de pastores responde por 12% do PIB
Mercado de animais no Quênia, país em que atividade de pastores responde por 12% do PIB - Tony Karumba/AFP

“Você percorre uma grande distância, e os animais vão morrendo pelo caminho. É uma vida muito difícil”, diz Hassan em Marsabit, uma das principais cidades do norte do Quênia, onde milhões de pastores e famílias dependem do gado para sobreviver.

Hassan passa menos tempo contemplando o céu e mais tempo consultando o celular, mais especificamente as mensagens de texto contendo previsões meteorológicas. 

Elas indicam as áreas em que a probabilidade de precipitação é maior.

O Quênia sofre secas em intervalos de três a cinco anos, afirma o Banco Mundial. Esse intervalo vem se estreitando, com ciclos mais agudos.

Neste ano, as previsões são desfavoráveis. Teme-se que as chuvas que se abatem de março a junho sobre o norte do país e nações vizinhas como a Somália e Etiópia serão muito insuficientes.

Agências assistenciais e o Programa Mundial de Alimentos da ONU já disseram que o número de pessoas em necessidade de ajuda humanitária urgente crescerá nos próximos meses, no leste da África.

“Já não chove como no passado”, diz Nandura Pokodo, 55, que vende cabras esqueléticas no mercado de gado de Merille, no norte do Quênia.

“Ano após ano, encontrar pastagens se torna cada vez mais difícil”, afirma o pastor.

Em março e abril, ele caminhou por muitos dias sem encontrar grama para seus animais. A chuva era insuficiente, ou inexistente. Pokodo perdeu 20 cabras e ovelhas, cerca de 20% de seu rebanho.

Durante muito tempo, para evitar esses deslocamentos inúteis, Hassan apelou aos guerreiros do clã, que enviava em missões de exploração, em busca de pastagens.

“Eles acordam bem cedinho pela manhã e observam as nuvens, a Lua, para decidir aonde ir. Mas agora uso isso”, diz ele, lendo no celular as últimas previsões meteorológicas, enviadas por SMS em rendille, a língua de seu clã.

O serviço se baseia em previsões da companhia americana de inteligência agrícola aWhere, fundada em 1999. Os relatórios podem ser consultados mesmo em modelos muito simples e básicos de telefone celular.

As previsões meteorológicas semanais permitiram que Samuel Lkiangis Lekorima, 22, preservasse seu rebanho e aumentasse a segurança de sua comunidade.

A escassez de fontes de água e de pastagens resultou em rivalidade. Em alguns lugares houve incidentes de violência, e muitos pastores passaram a caminhar armados com fuzis de assalto Kalashnikov.

Uma disputa entre grupos por uma fonte de água causou 11 mortes perto da fronteira da Etiópia, no começo de maio, segundo a imprensa local.

Lekorima, que trabalha como pastor em Marsabit, aproveitou o serviço de SMS para reduzir tensões com outros clãs.

“Quando recebo uma mensagem que indica [a chegada de chuva], telefono a outros membros do clã e lhes recomendo que não saiam com o rebanho e esperem porque a chuva está para chegar”, diz.

Assim, os pastores do clã de Lekorima não invadem terras de outros clãs.

A Amfratech, uma empresa de novas tecnologias, desenvolveu um aplicativo para smartphones e espera convencer dezenas de milhares de pastores a usá-lo. O projeto é financiado parcialmente pela União Europeia.

Outras iniciativas buscam proteger os pastores, que respondem por uma atividade econômica que gera 12% do PIB (Produto Interno Bruto) do Quênia, de acordo com o Banco Mundial.

O Instituto Internacional de Pesquisa sobre o Gado (ILRI, na sigla em inglês), com sede em Nairóbi, usa imagens obtidas por satélites para localizar os lugares em que pastos e água estão disponíveis.

Existem seguros vinculados aos dados obtidos pelo ILRI, que preveem pagamento de dinheiro aos pastores antes da seca, para que possam comprar forragem para os animais.

Tradução de Paulo Migliacci

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