Queda do investimento é alerta, diz economista Marcelle Chauvet

Economista é a única mulher a integrar grupo que diagnostica recessões no Brasil

São Paulo

A acadêmica Marcelle Chauvet, única mulher a integrar o Codace, grupo que determina o início e o fim de recessões no Brasil, é categórica sobre o significado do colapso dos investimentos no país: “Deveria servir como um alarme para que governo e Congresso entrem em um acordo sobre o ajuste fiscal”.

A economista Marcelle Chauvet - 14-08-2017
A economista Marcelle Chauvet - 14-08-2017 - Pedro Ladeira/Folhapress

A frustração crescente com o desempenho da economia —que recuou 0,2% no primeiro trimestre em relação ao último de 2018— é alimentada, segundo ela, pela percepção da “grande perda de oportunidade de mudança”.

Cortes de juros e liberação do FGTS seriam úteis para ajudar a manter o consumo, único motor de expansão, segundo ela. Mas, diz Chauvet, uma recuperação vigorosa só virá via investimento, que depende da aprovação de medidas como a reforma da Previdência.

Embora a situação seja preocupante, para Chauvet, que pesquisa ciclos econômicos, é cedo para falar em recessão.

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Os resultados recentes da atividade econômica surpreenderam? Eles eram esperados, já que a economia estava se recuperando muito lentamente. Estamos em um momento de grande incerteza. Havia um certo otimismo de que, com o novo governo, as reformas seriam implementadas, o que levaria ao processo de reajuste estrutural necessário para o crescimento futuro. Porém, nesses últimos meses, não houve o avanço esperado.

O que explica as frustrações recentes? A frustração vem da grande perda de oportunidade de mudança. Há ainda uma grande esperança de que o novo governo seja capaz de implementá-la. Há também uma grande desconfiança de que as reformas podem ser prejudiciais a alguns grupos. Com isso, há um impasse político que não permite o avanço das reformas. A prioridade é controlar o aumento da dívida pública, mas minimizando impactos com gastos sociais. As reformas da Previdência e da folha de pagamentos do governo são fundamentais. Não há ajuste estrutural sem perdas. Tem de apertar o cinto para abrir caminho para o crescimento sustentado de longo prazo. Isso tem de ser comunicado de forma mais eficaz para o público que quer mudanças, mas que deve entender que há um custo.

Por que os juros baixos e a inflação sob controle não têm sido capazes de estimular a economia? Um dos alicerces de crescimento é o investimento privado. Na última recessão, que começou em 2014 e terminou em 2016, houve uma grande queda do investimento privado, que tem se recuperado lentamente desde 2017. Juros baixos e inflação sob controle não são suficientes para tornar as expectativas do setor privado otimistas o suficiente para que desembolse grandes somas de investimentos de longo prazo. Decisões de investimento requerem expectativa de que haja um retorno positivo. Por exemplo, compras de máquinas e equipamentos para aumento de produção vão ocorrer mais aceleradamente quando investidores sentirem que haverá demanda crescente e sustentável por seus produtos, além do uso das máquinas e equipamentos já existentes, que estão ociosos. Outro pilar é o consumo das famílias, que mostrou um crescimento melhor desde o fim da recessão e que evitou uma queda maior do PIB. De certa forma, juros baixos e inflação sob controle podem ter causado esse estímulo —ainda que pequeno— no consumo.

As condições atuais —desemprego ainda alto, confiança em queda, indústria com resultados fracos— se assemelham às de um ciclo recessivo? Ainda é cedo para dizer que os resultados são fracos o suficiente para caracterizar recessão. Porém, certamente o resultado é de estagnação.

Algo na composição do PIB do primeiro trimestre deste ano chamou a atenção? A persistência na queda dos investimentos. A queda era esperada, mas os números deveriam servir como um alarme para que o governo e o Congresso entrem em um acordo o quanto antes com relação ao ajuste fiscal necessário do governo, dissolvendo esse impasse que gera muita incerteza.

Há economistas que defendem que o Banco Central retome a política de afrouxamento monetário. Concorda com esse diagnóstico? Neste momento, uma queda de juros pode causar um pouco mais de estímulo ao consumo. Porém, deve ter um efeito muito menor, se tiver algum, sobre o investimento. O problema é o lado fiscal, a falência dos estados, a incapacidade de gerar receitas suficientes para cobrir despesas. Há incerteza sobre as reformas, sobre os cortes necessários, sobre os setores que serão afetados. O planejamento de investimento começará só quando essas incertezas diminuírem.

Cortes de juros deveriam já ocorrer agora ou só após a aprovação da reforma da Previdência? Neste momento, qualquer estímulo, ainda que pequeno, pode ser muito importante para impulsionar os setores que ainda estão respirando, os gastos com consumo. O corte de juros e outros incentivos ao consumo como a liberação do FGTS só podem ajudar diante do cenário atual.

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