Concessionários veem vendas de carros mais fracas e reduzem projeção para 2019

Vendas diretas de montadoras a locadoras avançam com crise na Argentina

São Paulo

Na esteira de previsões gerais mais fracas para a economia brasileira em 2019, os concessionários revisaram para baixos suas projeções para as vendas de novos veículos neste ano, conforme cai a expectativa sobretudo de comercialização à pessoa física.

Em janeiro, a Fenabrave (associação do setor) previa um aumento de 11,2% no licenciamento de carros, comerciais leves, caminhões e ônibus, número que foi mantido praticamente igual em abril. Agora, porém, a projeção é de um avanço de 8,4%, somando 2,8 milhões de veículos, informou a entidade nesta terça-feira (2).

Veiculos do segmento popular expostos no Salao Internacional do Automovel, no Expo Imigrantes
Veiculos do segmento popular expostos no Salão Internacional do Automovel, no Expo Imigrantes - Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Em relação às vendas de carros de passeio, a alta estimada passou de 10,3% para 7,5%.

A projeção geral para 2019 representa uma desaceleração em relação ao ritmo do primeiro semestre. Nos seis primeiros meses do ano, foram licenciados 1,3 milhão de veículos, considerando os quatro segmentos, uma alta de 12% ante igual período de 2018. 

Alarico Assumpção Jr., presidente da Fenabrave, lembra que as vendas no primeiro semestre do ano passado foram impactadas negativamente pela greve de caminhoneiros e pela Copa do Mundo, o que afeta a base de comparação. Além disso, o segundo semestre de 2018 apresentou um bom desempenho, o que também tem efeito na relação interanual projetada.

No caso das vendas de carros e comerciais leves, que avançam 11% no acumulado do ano, Assumpção diz que o segmento é sustentado pelas vendas diretas a frotistas e locadoras. Segundo ele, a modalidade representou um recorde de quase 46% dos emplacamentos do semestre, ante 40,4% no mesmo período de 2018.

"Enquanto o varejo cresceu 2,15% no acumulado desse semestre, as vendas diretas vêm aumentando 23,59%, é uma evolução bem mais acelerada", afirma.

Segundo ele, com a crise na Argentina afetando as exportações das montadoras para o vizinho, fabricantes acabaram redirecionando produtos para o mercado interno, e frotistas e locadoras aproveitaram esse aumento da oferta doméstica para comprar com desconto direto das montadoras.

Para Assumpção, a fatia de vendas diretas --que, em geral, não passam pelas concessionárias-- não está em um patamar saudável. "Tem que ter um equilíbrio maior entre varejo e venda direta", diz.

A crise na Argentina não é, porém, a única explicação para o avanço da venda direta. Assumpção diz que o consumidor do varejo está receoso. 

"Observamos uma mudança no comportamento de compra dos consumidores, que estão em compasso de espera em função dos rumos da economia", disse Assumpção.

Ele cita como fatores que afetam a confiança do consumidor as instabilidades políticas e econômicas geradas enquanto as reformas, sobretudo a da Previdência, não são aprovadas, as consecutivas quedas nas projeções para o PIB (Produto Interno Bruto) de 2019, além do alto índice de desemprego no país.

Em junho, as vendas de veículos caíram 9% na comparação com maio, que teve três dias úteis a mais do que o mês passado. Carros e comerciai leves recuaram 8,9%.

Acordo Mercosul-UE

O setor automotivo será influenciado pelo acordo anunciado entre Mercosul e União Europeia, mas ainda não é possível entender ao certo como isso se dará, avalia Tereza Maria, da consultoria MB Associados.

"Haverá redução da alíquota de importação, mas isso demora pelo menos 15 anos. Eles [europeus] têm mais carros e nós, mais os produtos agrícolas", diz.

Para o setor automotivo, a tarifa de 35% cobrada sobre a importação dos carros europeus cairá para 17,5% em até dez anos, com uma cota de 50 mil carros para o Mercosul nos primeiros sete anos, sendo 32 mil para o Brasil. Em 15 anos, a taxa cairá a zero. 

"O que temos, por enquanto, é uma intenção que não está nem assinada. Está muito cru, temos que ver o que acontece quando o nosso Congresso receber o acordo, o que os europeus vão dizer que não querem comprar da gente por questões ambientais", afirma Maria.

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