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Crescimento a qualquer custo levará planeta à destruição, diz professora da Oxford

Kate Raworth rebate a lógica do consumo e propõe alternativas para garantir bem-estar sem degradação ambiental

Ivan Martínez-Vargas
São Paulo

Certa vez, em uma palestra dada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano e o cineasta argentino Fernando Birri em Cartagena de Indias, na Colômbia, um jovem universitário perguntou-lhes para que servia a utopia.

Birri teria respondido, segundo Galeano, que a utopia está sempre no horizonte, inalcançável. “Se dou dez passos, ela se afasta dez passos. E serve para isso, para caminhar.”

Esse parece ser o conceito subjacente no livro “Economia Donut: Uma Alternativa ao Crescimento a Qualquer Custo”, escrito por Kate Raworth, economista heterodoxa e professora da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

A professora da Universidade de Oxford Kate Raworth
Kate Raworth, autora de ‘Economia Donut: Uma Alternativa ao Crescimento a Qualquer Custo’  - Wikimedia Commons

Sobretudo, a obra busca propor um modelo econômico ambicioso que enterre de vez a lógica atual de busca primordial pelo crescimento econômico, que, de acordo com a autora, levará a humanidade à destruição do planeta.

Raworth critica enfaticamente as teorias econômicas ortodoxas. Segundo ela, “por mais de 70 anos a economia esteve fixada no PIB (...) como medida básica de progresso. Essa fixação tem sido usada para justificar desigualdades extremas de renda e riqueza conjugadas a uma destruição sem precedentes no mundo.”

Na visão de Kate Raworth, as teorias econômicas preponderantes na universidade, no mercado e na formulação de políticas públicas são divisivas e degenerativas.

Ela critica postulados como os da curva de Kuznets, segundo a qual à medida que os países enriquecem o comportamento da desigualdade sobe inicialmente e, a partir de certo ponto, passa a se retrair, em desenho análogo ao de uma parábola.

Citando Thomas Piketty, diz que o ocidente caminha para “perigosos níveis de desigualdade porque os retornos para o capital tendem a crescer mais rápido que a economia, levando a riqueza a ficar cada vez mais concentrada”.

Da mesma maneira, o postulado de que o crescimento econômico reduz níveis de poluição e problemas ambientais criados durante a fase de desenvolvimento dos países (a curva ambiental de Kuznets) é rejeitado.

Para o século 21, diz, o modelo deve buscar bem-estar social e, ao mesmo tempo, desenvolvimento sustentável. De maneira didática, ela usa a imagem do donut como símbolo de sua proposta.

Raworth defende a adoção de uma economia distributiva (que circula o valor gerado em vez de concentrá-lo) e regenerativa (todos têm responsabilidade para com o ambiente).

No esquema de Raworth, o limite interno do doce é o alicerce social, com direitos que devem ser garantidos a todo ser humano. Entre as 12 categorias de direitos listados por ela, estão desde acesso à água, renda e trabalho até igualdade de gênero e voz política.

A parede externa da rosquinha seria o que a escritora chama de teto ecológico da humanidade. A ideia é que o crescimento para além desses limites leva a problemas ambientais como o aquecimento global e perda da biodiversidade.

A área do doce em si, portanto, é o que a autora chama de “espaço seguro e justo” para a humanidade.
Os direitos do esquema da autora parecem bastante razoáveis, mas nada inovadores. 

A maior virtude do livro não reside na metáfora esquisita do donut, mas na discussão sobre como viabilizar o modelo.

De modo ambicioso, ela prega dezenas de alternativas. Destaca-se, por exemplo, a cobrança de um imposto global sobre a riqueza.

“Existem mais de 2.000 bilionários vivendo em 20 países (...). Um imposto anual sobre a riqueza de 1,5% sobre o patrimônio líquido renderia US$ 74 bilhões por ano: só isso bastaria para colocar todas as crianças na escola”, diz.

Também defende a adoção de políticas como a renda básica para mitigar efeitos do desemprego resultado da robotização, além da desoneração de folhas de pagamento.

Uma das mudanças mais necessárias, argumenta, deve ser protagonizada pelas empresas, que em vez de só “não provocar danos ao ambiente” deveriam adotar modelos de negócio mais generosos e sustentáveis. Nessa visão, buscariam o lucro, mas não necessariamente o crescimento.

Apesar do diagnóstico sensato sobre as falhas do modelo econômico vigente, a autora apenas pincela alternativas que, para o leitor mais cético, parecem surrealistas. Para os mais esperançosos, dão razões para caminhar.

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