Deputados verdes da Europa ameaçam obstruir tratado

Parlamentares ecologistas ganham força em novo Parlamento e buscam apoio

Lucas Neves
Paris

Deputados europeus prometem obstruir a tramitação do acordo Mercosul-União Europeia no Parlamento do bloco, enquanto o setor agrícola mostra apreensão com o pacto e a indústria automobilística do continente comemora sua conclusão.

Na ala dos descontentes, as políticas ambientais e sociais do governo Bolsonaro são os principais alvos de críticas.

“Que vexame a Comissão Europeia [braço executivo da UE] pactuar com Jair Bolsonaro, que ataca democratas, LGBTs, mulheres e a Amazônia, e homologou 239 pesticidas desde janeiro”, escreveu em uma rede social Yannick Jadot, chefe dos ecologistas franceses que inicia seu terceiro mandato no Parlamento Europeu. “Os Verdes europeus lutarão sem descanso para bloqueá-lo.”

Produtores rurais franceses fecham via durante protesto em 2018 contra o acordo com o Mercosul - Emmanuel Foudrot - 21.fev.18/Reuters

O bloco dos partidos ecologistas na legislatura que começa nesta terça-feira (2) está mais encorpado do que de costume, graças ao bom desempenho dos Verdes na Alemanha e na França, nas eleições de maio passado. A bancada passou de 50 para 75 assentos.

O ganho de musculatura, porém, ainda não permitirá que ela trave a apreciação do acordo pelo Legislativo da UE –o documento precisa ser aprovado pela maioria simples dos 751 integrantes da Casa.

Ocorre que vozes provenientes de outros grupos políticos também se ergueram nos últimos dias contra o acerto anunciado na sexta (28), ao fim de 20 anos de negociações. Na República em Marcha (REM), legenda do presidente francês, Emmanuel Macron, vários se opõem aos termos do pacto.

“Nada é garantido em termos de ratificação pelo Parlamento Europeu”, disse a uma rádio o eurodeputado Pascal Canfin, que no plenário integrará a coligação centrista Renovar a Europa. “No que diz respeito aos 23 eleitos [na França], vamos analisar, mas nosso voto a favor não está garantido.”

O tom de Pascal Durand, seu colega de partido, é ainda mais incisivo.

“Dia funesto para a UE, para o clima e para nossa alimentação”, escreveu na internet. “O acordo de livre-comércio #Mercosul, que [o presidente da Comissão Jean-Claude] Juncker tem tanto orgulho de haver negociado com Bolsonaro, destruirá o ambiente, a floresta amazônica e nossa agricultura tradicional. Que vergonha!”

O bloco liderado pela REM passou de 68 para 108 cadeiras na nova configuração parlamentar. Ou seja, se ganhar fôlego também nas fileiras centristas a aversão ao acordo, a tramitação do texto pelo Parlamento pode se complicar de verdade.

O rito, pelo lado da UE, é o seguinte: se aprovado pelos eurodeputados, o pacto pode entrar parcialmente em vigor –suas provisões comerciais (cotas, tarifas etc.) passam a valer. Os capítulos de teor político é que demandam sinal verde de cada um dos 28 (ou 27, se o Reino Unido sair mesmo do consórcio) Parlamentos nacionais do bloco para ser implantados.  

Fora da esfera política, organizações sindicais já articulam mobilizações contra a passagem do texto.

A Federação Nacional dos Sindicatos de Produtores Agrícolas, maior de sua categoria na França (200 mil filiados), questiona a legitimidade dos negociadores (“tinham em mãos um mandato de 20 anos atrás”) e o descompasso entre as exigências feitas a agricultores e criadores europeus e os padrões de produção dos artigos sul-americanos que cruzarão o Atlântico.

“Não podemos usar anabolizantes, hormônios, certos antibióticos, além de pesticidas. Além disso, as normas de bem-estar animal são mais severas aqui”, lista o porta-voz da federação, Nicolas Girod, à reportagem.

Ele fala em concorrência desleal e em discurso dúbio da parte dos líderes políticos. “Temos governantes que querem explicar a todo o planeta o que fazer em relação ao clima, mas que assinam acordos com gente que não respeita nada. Há uma incoerência surrealista aí.”    

No setor automobilístico europeu, hoje submetido a tarifas de importação de até 35% no Mercosul, a percepção é oposta.

A principal associação de construtores do continente celebra o potencial de crescimento no quadrilátero do sul, para onde a UE exportou em 2018 73 mil veículos (2,2% do total vendido). Acontece que a parcela de importados comercializados nesse mercado foi de 8% no mesmo período.


 

 
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