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Empresas incluem games na seleção de estagiários e ampliam foco na inclusão

Companhias dizem que jogos permitem entender comportamento de candidatos e diminuem efeito de preconceitos inconscientes

Filipe Oliveira
São Paulo

Para subir no ranking, Thalita Barros, 26, precisava descobrir coisas como o nome de um atleta ou de um filme a partir de uma frase que dava uma pequena pista. Se precisasse de mais dicas, teria de sacrificar parte de sua pontuação. Porém, se errasse, sua posição cairia.

A estudante de administração conta ser fã de games desde criança. Mas saber que participaria do jogo, com etapa individual e em grupo, deixou-a mais apreensiva, pois fazia parte da seleção para estagiários da multinacional do setor farmacêutico Sanofi.

“Foi uma experiência desafiadora e enriquecedora, que permitiu usar diversas habilidades, como comunicação, proatividade e senso analítico”, diz ela, que começará a estagiar na empresa em agosto.

Nicole Lins, 19, que participou de estágio de férias para estudantes negros  - Adriano Vizoni/Folhapress

A iniciativa da companhia faz parte de movimento de empresas para renovar suas seleções de jovens com o uso de tecnologia para conhecer mais sobre o candidato e adoção de estratégias que tornem o processo mais inclusivo.

No caso do jogo da Sanofi, o principal não é observar a pontuação de cada um na solução de desafios, mas sim compreender qual seu comportamento em diferentes contextos e entender quem deve se adaptar melhor à cultura da companhia, diz Ana Botelho, gerente de recursos humanos da empresa.

“Conseguimos avaliar se ele foi competitivo, colaborativo, individualista, o que, provavelmente, reflete o perfil dele em outras situações”, afirma.

A consultoria Cia de Talentos, especializada em programas de estágio e trainee, passou a oferecer para grandes empresas o uso de dois jogos trazidos a partir de parceria com desenvolvedoras estrangeiras.

Juliana Nascimento, diretora de novos produtos e parcerias da empresa, afirma que o primeiro game, o “Skyrise City”, mede habilidades cognitivas, seu modo de tomar decisão e aprendizado.

Para isso, são apresentadas atividades que exigem respostas rápidas do candidato.   

Pode ser pedido que ele olhe para uma tela repleta de ícones e na qual aparecem em destaque setas apontando para a direita e para a esquerda, com botões respectivos a serem apertados quando isso acontece. Em outro desafio, pode ter de direcionar de forma eficiente um fluxo de visitantes dentro de um prédio. 

A avaliação é feita a partir da combinação de inteligência artificial e neurociência, diz Nascimento.
No outro jogo que será oferecido pela consultoria, o “Owiwi”, o candidato é levado a um navio pirata que passa por oito ilhas diferentes, cada uma apresentando uma história que o obriga a tomar decisões. 

As escolhas geram informações sobre o comportamento dos candidatos que permitem entender seu perfil e como provavelmente agiriam no mercado de trabalho e adequação dele à empresa contratante, diz Nascimento.

Segundo ela, usar o jogo faz com que os candidatos tenham um comportamento mais próximo do real do que quando estão em um processo de avaliação convencional.

Thalita Barros, selecionada em game por farmacêutica  - Danilo Verpa/Folhapress

Além disso, segundo Nascimento, o uso da inteligência artificial diminui a influência de preconceitos inconscientes na seleção, pois permite identificar bons candidatos sem ter de observar informações como gênero, curso que fez e raça no início do processo.

Para tentar ampliar a diversidade, em especial a participação de negros, a Natura adotou, além da tecnologia, a realização de atividades opcionais para candidatos em que dá dicas de carreira e forneceu ônibus fretados para candidatos chegarem à sede da empresa, em Cajamar (SP).

Vivian Ronchi, gerente de recrutamento e seleção da empresa, diz que a companhia espera que as medidas permitam que 33% dos novos estagiários sejam negros na seleção deste semestre. No anterior, foram 27%. “Trabalhar dessa forma nos permite conseguir a inclusão”, diz.

A Natura também usa um jogo de enigmas para entender o perfil dos candidatos. O cadastro deles é feito por um chatbot (robô que conversa em um chat), que compartilha vídeos com informações sobre o trabalho na empresa. São escolhidos 110 estagiários por ano.

Já a empresa de tecnologia para recursos humanos 99Jobs criou um estágio de férias para estudantes negros em parceria com outras empresas. 

Neste mês, os sete estagiários trabalharão em projetos de Magazine Luiza, Suzano, Natura, Mercado Livre e Santander.

Nicole Lins, 19, que é bolsista de administração pública na Fundação Getulio Vargas, diz que, como estuda em tempo integral, o estágio nas férias lhe permitiu que tivesse uma primeira experiência em grandes empresas e contato com profissionais do mercado.

“O principal são as experiências. No futuro, quando chegarem projetos para eu participar, vou poder dizer que já trabalhei em algo assim.”

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