Governo quer reformular produção de combustível nuclear, diz ministro

Bento Albuquerque afirmou que energia nuclear terá participação maior na matriz energética brasileira

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse nesta sexta (5) que o governo estuda reformular o segmento de produção de combustível nuclear no país, com o objetivo de disputar o mercado internacional. Segundo ele, a energia nuclear terá participação maior na matriz energética brasileira nos próximos anos.

Além da abertura da mineração de urânio a empresas privadas, proposta que já vinha sendo estudada no governo Michel Temer, Albuquerque disse que o governo avalia mudar o status da INB (Indústrias Nucleares do Brasil), que é responsável pela produção do combustível.

"A INB está perdendo a capacidade de investir", afirmou o ministro, em evento para executivos no Rio. Segundo ele, por ser uma estatal dependente do Tesouro, a empresa vem tendo dificuldades para levantar recursos em meio à crise fiscal. 

Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita); os reatores, onde a energia nuclear é gerada, ficam dentro das estruturas brancas
Usinas Angra 2 (à esquerda) e Angra 1 (à direita); os reatores, onde a energia nuclear é gerada, ficam dentro das estruturas brancas - Divulgação/Eletronuclear

Ele lembrou que o Brasil é um dos três países, ao lado de Estados Unidos e Rússia, que tem reservas de urânio e tecnologia para produzir os combustíveis usados nas usinas nucleares. Por isso, defendeu, deve ter maior participação desse tipo de energia em sua matriz.

Atualmente, com duas usinas na central nuclear de Angra, a energia nuclear responde por 1,2% da capacidade de geração de energia no país - 1.990 megawatts (MW) de um total de 161,526 MW. O governo tenta destravar a usina de Angra 3, cujas obras foram paralisadas em 2015, e fala em mais quatro unidades até 2030.

Os planos do governo Bolsonaro contemplam a atração de sócios privados para concluir Angra 3, que já consumiu cerca de R$ 10 bilhões e precisa de outros R$ 15 bilhões. Os termos da parceria, que devem ser anunciados até o fim do mês, devem ser repetidos nas quatro novas usinas, que terão, somadas potência de 4.000 MW.

Albuquerque disse que é grande o interesse de grandes empresas internacionais do setor para disputar uma fatia de Angra 3, usina de 1405 MW. O governo espera lançar um edital até o fim do ano e assinar contrato com o novo sócio no segundo semestre de 2020, para início de operações em fase de testes no fim de 2025.

A busca de sócios privados para a mineração de urânio tem o objetivo, segundo o ministro, de destravar a produção nas minas já descobertas no país, em Caetité (BA) e Santa Quitéria (CE). A primeira teve as operações paralisadas por quatro anos, entre 2014 e 2018.

O ministro disse que ainda não há definição sobre o modelo de parceria na mineração de urânio. Ele espera que o novo modelo, após permitir a exploração das minas já descobertas, possa fomentar a busca por novas reservas.

O Brasil tem hoje a sétima maior reserva global de urânio. Para Albuquerque, com o potencial de reservas na região norte, o país poderia saltar para as três primeiras colocações. Ele defendeu, porém, que a exploração privada seria "controlada".

No caso da INB, que é responsável pela mineração e também ela fabricação dos elementos combustíveis, o ministro disse também que ainda não há uma proposta formal, mas que a dependência do Tesouro reduz sua capacidade de investimento, principalmente diante da situação econômica.

A empresa pleiteia dinheiro para concluir a primeira fase do projeto de enriquecimento de urânio, que prevê a instalação de dez cascatas, e para a segunda fase, com mais 33 cascatas. Ao todo, são necessários cerca de R$ 2,5 bilhões.

A capacidade atual da unidade de enriquecimento corresponde a metade das necessidades da usina de Angra 1, a menor das duas já em operação. O processo para abastecer a outra metade e Angra 2 é feito no exterior.

"Com o modelo atual, é impossível atingirmos [o patamar de exportadores de combustível nuclear]", afirmou ele na palestra. "Mas muito em breve vamos apresentar aquilo que entendemos que vai tornar o setor autossuficiente e permitirá sua entrada no mercado internacional." 

O Brasil já exporta pequenas quantidades para a Argentina, país com o qual o governo negocia parcerias neste setor, com o objetivo de usar combustível brasileiro no desenvolvimento de reatores multipropósito (usado para pesquisa e produção de radioisótopos, elementos para diagnóstico e tratamento de doenças) no país vizinho.
 

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