Livro contra donos da JBS foi discutido por editor e consultor de empresa rival

Conversas sobre detalhes do texto estão em troca de mensagens; autor da publicação estava copiado

São Paulo

Há cerca de três meses um livro de 87 páginas foi lançado com um plano de marketing barulhento. "Traidores da Pátria – As Maracutaias dos Irmãos Batista na JBS" foi anunciado em espaço publicitário de vários veículos de comunicação, incluindo esta Folha, e distribuído gratuitamente a congressistas e membros de cortes superiores do Judiciário.

Foram impressas versões em português e inglês e foi anunciada uma edição em mandarim. Um caminhão com as estátuas de dois bois, em tamanho real, pintados de verde e amarelo e com o título do livro estampado em seus corpos, circulou pelas ruas de Brasília.

"Traidores da Pátria" tem como personagens centrais os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do grupo J&F, controlador do frigorífico JBS. Como o próprio nome indica, a obra resume os dois empresários por suas histórias de corrupção e negócios enrolados.

O autor, o jornalista Claudio Julio Tognolli, diz que sua motivação para escrever sobre essa faceta dos irmãos Batista foi jornalística. Mas trocas de emails obtidas pela Folha indicam que um consultor de uma empresa que trava uma batalha jurídica bilionária contra os donos da JBS participou da edição do livro.

 

Há menção até de pagamento dessa empresa à editora que publica a obra.

As correspondências obtidas pela Folha mostram conversas entre o empresário Paulo Tadeu, dono da Matrix Editora, que edita "Traidores da Pátria", e Josmar Verillo, que trabalha como consultor para a multinacional Paper Excellence, empresa que pertence ao empresário Jackson Widjaja, da Indonésia.

A Paper é sócia da J&F na empresa Eldorado Brasil e briga na Justiça pelo controle da companhia.

Toda a conversa entre Tadeu e Verillo é acompanhada pelo autor, Claudio Tognolli, cujo email está copiado nas mensagens.

As trocas de mensagens acontecem entre os dias 18 e 22 de fevereiro deste ano. Eles falaram sobre alterações no texto do livro a ser lançado. Verillo aponta a necessidade de um "gran finale" que mostre por que os irmãos Batista seriam "traidores da pátria".

O editor Paulo Tadeu comunica o representante da Paper sobre a emissão de uma nota fiscal a ser paga para a publicação do livro.

No primeiro email, do dia 18 de fevereiro, o editor Paulo Tadeu pediu que Josmar Verillo e Claudio Tognolli fizessem as alterações que julgassem necessárias no "Traidores da Pátria".

"Oi, Josmar, Tudo bem? Aí está o texto final do livro. Por favor, avaliem se está tudo correto. Qualquer alteração deverá ser feita neste mesmo arquivo (ele já está no modo de alteração controlada, que me permitirá ver qualquer modificação. Isso vai agilizar o meu trabalho aqui, sem que eu e Claudio tenhamos que ler tudo novamente). Deixei um pequeno texto em amarelo no meio, para que seja verificada a informação. Para nós, está certa, mas, se vocês souberem de algo diferente, avisem. Fora isso, os detalhes que envolvem vocês diretamente: ninguém melhor para ver isso que vocês. Será que vocês conseguem olhar tudo e me dar uma resposta em até 3 dias?", diz.

No dia seguinte, Josmar Verillo, o consultor da Paper Excellence, enviou a resposta apenas para o editor.

"Tadeu, eu fiz algumas correções. Tem algumas coisas que precisam ser atualizadas. Alpargatas já foi vendida etc. Mas está faltando o gran finale. Eu escrevi algumas coisas no final. Precisa uma grande finalização que justifique o título. Porque tem toda a descrição de coisas que ocorreram, mas precisa um gran finale que diga por que são traidores da pátria", diz Josmar Verillo.

"Tem que dizer que pelo acordo de leniência a JBS vai ter que pagar R$ 10 bilhões em 25 anos. E que o acordo de leniência, rescindido pelo MPF (Ministério Público Federal), agora está em julgamento pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Se a decisão for mantida pelo STF, é provável que eles voltem para a prisão."

"Vamos verificar", respondeu Tadeu para Verillo, com cópia novamente para o email de Tognolli.

Em 20 de fevereiro, Tadeu mandou outro email para Verillo e Tognolli falando sobre alterações feitas pelo autor oficial do livro e consultando os dois sobre a nova fase do processo para a publicação.

"Seguem as alterações do Claudio. Espero que esteja tudo certo agora para iniciarmos a revisão e a diagramação. Da minha parte, parece que sim", diz Tadeu.

O consultor da Paper Excellence deu o sinal verde para que o editor avançasse.

"Olhei só o final. Acho que está bom. Corrigi apenas a questão do acordo de leniência e a delação premiada. Estava sendo tratada como uma coisa só. São duas coisas. A leniência é da empresa, que está válida e vão pagar R$ 10 bilhões em 25 anos. A outra é a delação premiada, que está nas mãos do Fachin para ser julgada, pois foi rescindida pelo MPF", diz Verillo em mensagem ao editor e ao autor do livro.

No dia 22 de fevereiro, Paulo Tadeu mandou mensagem com anexos da capa e o miolo do livro para o consultor da Paper Excellence e também para Claudio Tognolli.

"Encaminho anexos o miolo do livro diagramado e arquivo da capa aberta (frente, lombada, orelhas e 4ª capa). No miolo, falta ainda aplicar a ficha catalográfica, na página 4. E fazer uma revisão geral, antes do envio para a gráfica. Pretendo enviar até o fim da semana que vem, para que tenhamos o livro impresso por volta do dia 20 de março", diz, sobre aspectos técnicos da impressão.

O editor continuou a conversa mencionando a emissão de um documento fiscal que, quando fosse pago pela Paper Excellence, liberaria a parte seguinte do processo, a impressão do livro.

"Pretendo enviar até o fim da semana que vem, para que tenhamos o livro impresso por volta do dia 20 de março. Com isso, estamos na etapa 2 do nosso contrato. Vou providenciar o envio da nota fiscal dessa segunda etapa, ok? Qualquer eventual ajuste, por favor, me avise até segunda-feira pela manhã, impreterivelmente", diz Tadeu para Josmar Verillo com cópia para Tognolli.

A Folha ouviu Paulo Tadeu e Josmar Vercillo sobre a emissão da nota fiscal. Os dois negaram que o livro fosse uma encomenda da empresa asiática e disseram que a nota fiscal se referia a um contrato de compra antecipada de 2.000 exemplares do livro, metade em português e a outra metade em inglês.

"O pessoal que vem nos visitar nós damos o livro. Nós temos interesse que qualquer um saiba do outro lado, quem eles são", diz Verillo.

Ambos disseram que Tadeu procurou Verillo para que ele ajudasse o editor a compreender a compra da Eldorado pela Paper Excellence.

Sobre a frase em que Verillo disse que preparava um "gran finale" para o livro, o consultor da Paper disse que se tratava apenas de sugestão. Tadeu diz que Verillo se empolgou ao ler o livro e passou do limite na sugestão.

"Eu acho que ele se empolgou com o que estava vendo, acho que ele ficou empolgado com o material, é um livro que fala da JBS, e aí numa dessas ele falou. Foi sugestão. Ele estava colocando duas coisas que ele achava", diz Tadeu.

Apesar de estar copiado sempre nas conversas entre o dono da editora Matrix e o consultor da Paper Excellence, o jornalista Cláudio Julio Tognolli negou que tivesse conhecimento sobre a participação de Verillo na edição ou sobre qualquer pagamento feito pela Paper Excellence.

"Pelo que sei, meu texto foi editado pelo Paulo Tadeu (melhor vc falar com ele). Não sei nada sobre nota fiscal, apenas escrevo (falar com Paulo Tadeu). Aliás paguei do meu próprio bolso a feitura dos sites (www.amafiadosirmaos.com e www.abrothersmob.com)", disse por meio do mesmo endereço de email que aparece nas conversas a que a Folha teve acesso.

A relação da Paper Excellence com o grupo dos irmãos Batista começou em 2017, quando os asiáticos fecharam negócio para comprar a Eldorado Brasil por R$ 15 bilhões.

A empresa da família Widjaja adquiriu de início 49% da companhia e tinha um ano para pagar o restante aos Batista. Se não o fizesse, a J&F continuaria com os 51% da Eldorado, como controladora.

O prazo venceu em setembro do ano passado sem o pagamento pelos asiáticos. A família Batista, então, permaneceu com o controle da Eldorado, com 51%. A Paper Excellence alega que não concluiu o pagamento do restante porque, para isso, era necessário que os Batista liberassem as garantias da dívida da Eldorado, o que não foi feito.

Em setembro de 2018, a Paper abriu um processo de arbitragem contra a J&F, que deve durar até o segundo semestre de 2020. Hoje, as duas empresas travam uma guerra de narrativas sobre o negócio para convencer os juízes do caso.

A versão dos donos da J&F é de que "Traidores da Pátria" faz parte da estratégia dos asiáticos para atingir a reputação dos empresários brasileiros com vistas no processo arbitral.

Após o lançamento do livro, em março, o site Consultor Jurídico, conhecido como Conjur, que faz cobertura de assuntos do Judiciário, publicou artigo em que classifica a estratégia de divulgação de "Traidores da Pátria" como uma campanha patrocinada pela Paper Excellence para atingir a reputação dos Batista com vistas na disputa pelo controle da Eldorado Celulose.

"Verillo mobilizou a Matrix, contratou assessores de imprensa e encomendou ao jornalista e escritor Claudio Tognolli os livros e os textos jornalísticos para os sites", diz a reportagem.

O Consultor Jurídico pertence ao jornalista Marcio Chaer, que também é dono da assessoria de imprensa Original 123, especializada no atendimento de advogados. Vários dos advogados que defendem a J&F, inclusive em casos contra a Paper Excellence, são clientes da Original 123.

Em 24 de junho, os advogados da J&F tiveram deferida uma interpelação judicial, assinada pelo juiz Mario Chuvite Junior, do Tribunal de Justiça de São Paulo, determinando a suspensão de informações que possam influenciar o processo de arbitragem. Os alvos da interpelação são a Editora Matrix e o escritor Claudio Julio Tognolli. O despacho diz que a publicação de "Traidores da Pátria" traz informações falsas e tem relação direta com a venda da Eldorado para a Paper Excellence.

"Traidores da Pátria" é uma edição resumida e atualizada de "Nome aos Bois", de 382 páginas, lançado em 2017, também escrito por Tognolli e que igualmente se concentra nos problemas dos empresários da JBS. Em 2017 ainda não havia o litígio dos Batista com a Paper. A disputa é a novidade do livro lançado em março.

Empresa nega que tenha encomendado obra contra os irmãos Batista.

OUTRO LADO

A Paper Excellence nega, em nota, ter patrocinado o lançamento de "Traidores da Pátria".

"A Paper Excellence esclarece que informações obtidas através de terceiros referentes à sua participação no livro foram deturpadas e não correspondem à realidade", diz a nota.

A empresa diz que teve um porta-voz entrevistado pela editora e pelo autor do livro e adquiriu vários exemplares na intenção de demonstrar a diversos interlocutores, com a máxima transparência, quem são seus adversários na disputa pela Eldorado. A Paper também comenta a citação em interpelação judicial.

"A Paper Excellence repudia a menção do nome da empresa em uma interpelação judicial da qual não é parte, pois foi dirigida à Editora Matrix e ao jornalista Claudio Tognolli, autor do livro "Traidores da Pátria". Essa desinformação é parte da abominável estratégia da J&F", diz a nota.

O autor do livro, Claudio Julio Tognolli, diz não ter conhecimento sobre pagamentos de notas fiscais e nem sobre a participação de um consultor da Paper Excellence na edição de seu livro. "Para mim, era o editor que estava mexendo", disse Tognolli.

"Eu fui contratado para resumir um livro de 570 páginas para 87 páginas."

O dono da Editora Matrix, Paulo Tadeu, negou que tenha publicado "Traidores da Pátria" por encomenda da Paper Excellence.

"A Paper foi uma das diversas fontes consultadas para a finalização do livro. Um trecho da obra foi encaminhado a essa empresa para análise de detalhes que eu queria, para atualização do texto, e posterior verificação final do autor e minha como editor", diz Tadeu.

"Quem editou e finalizou o livro fui eu", diz Paulo Tadeu. "Acho estranho apenas a Paper aparecer nesses emails hackeados que você tem. Se forem apenas emails da Paper que você tem em mãos, me parece haver claramente um interesse escuso por trás desse hackeamento criminoso, pois ele é seletivo em relação à Paper Excellence", diz o editor.

Sobre a nota fiscal emitida, Tadeu diz que "a Paper adquiriu diversos lotes de livros da Matrix Editora, tanto do ‘Nome aos Bois’ como do ‘Traidores da Pátria’".

O dono da Matrix também diz que as mensagens podem ter sido adulteradas. "Vendo a minha troca de emails com a Paper, me deparei com algumas inconsistências. Parece que minha correspondência foi alvo de alguma alteração em relação aos emails hackeados que vocês têm em mãos. Isso pode levar a Folha a ser instrumento de manobra da J&F, caso seja ela, J&F, a responsável por esse hackeamento. Não tenho ideia de quem preparou esses documentos e enviou ao jornal", diz Tadeu.

A Folha em nenhum momento disse aos citados na reportagem que o material obtido pela reportagem teve origem no trabalho de hackers. Paulo Tadeu não apontou quais seriam as inconsistências nas trocas de mensagens apresentadas a ele pela Folha.

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