Descrição de chapéu Financial Times

Modelo da Netflix é colocado em dúvida após perda de clientes

Ações da Netflix caíram 10% depois que empresa revelou ter perdido 130 mil assinantes nos EUA no segundo trimestre

Anna Nicolaou
Nova York | Financial Times

A Netflix tomou bilhões de dólares emprestados para crescer de uma startup que alugava DVDs entregues pelo correio a uma gigante do streaming que investe pesadamente em conteúdo a fim de atrair cada vez mais espectadores para sua plataforma e que vem registrando crescimento acelerado e uma imensa alta nos preços de suas ações.

Agora, a estratégia que a levou aos píncaros de Hollywood começa a parecer menos firme. A empresa registrou sua primeira perda de assinantes no mercado dos EUA desde 2011, quando promoveu a cisão de suas operações de locação de DVDs e preparou a transição para o vídeo online. 

Logo da Netflix em televisão - Mike Blake/Reuters


As ações da Netflix caíram 10% nesta quinta-feira (18), depois que revelou ter perdido 130 mil assinantes nos EUA no segundo trimestre, o que reduziu seu valor de mercado em US$ 15 bilhões.

Os números não poderiam vir em momento pior para a empresa, e isso despertou temores de que a Netflix esteja perdendo ímpeto no momento em que Disney, Apple, HBO e NBCUniversal estão prontos a lançar seus streamings.

“Isso nos deixa mais nervosos? Claro, especialmente levando em conta o momento do lançamento da Disney+”, disse Todd Juenger, analista da corretora Bernstein. 

“Se a Netflix descumprir metas de assinaturas depois do lançamento da Disney+..., o efeito negativo sobre as ações da Netflix será diversas vezes pior do que o usual.”

Os resultados também colocam em questão o modelo de negócios da Netflix. A empresa deliciou os investidores apesar de queimar mais de US$ 3 bilhões em caixa ao ano, prometendo margens melhores depois que fisgasse mais usuários e pudesse aumentar os preços de assinatura, o que significaria que não precisaria continuar lançando títulos de dívida a fim de bancar suas produções. Os resultado desta semana colocaram essa tese em xeque.

A Netflix aumentou seus preços nos EUA em até 18% neste ano, ação aplaudida pelos investidores. Mas a perda de assinantes sugere que a demanda é mais elástica do que imaginavam os executivos. 

Embora a Netflix tenha um forte domínio sobre seu país de origem, com mais de 60 milhões de assinantes nos EUA, analistas previram que esse número pode continuar a crescer e atingir 90 milhões.

Em junho, o grupo de pesquisa de mídia MoffettNathanson estimou que a empresa atingiria 88,4 milhões de assinantes nos EUA em 2025. Mas, nesta quinta, a empresa disse que “esse cenário está parecendo completamente psicodélico agora”.

“O trimestre em pauta coloca em questão muitas das previsões para 2025”, disse Michael Nathanson, um dos sócios da MoffettNathanson, acrescentando que os resultados colocam em dúvida “o poder de formação de preços da Netflix”.

A gigante do streaming de vídeo atribuiu a queda ao conteúdo fraco oferecido no trimestre, sem entrar em detalhes. Red Hastings, presidente-executivo, não tinha muita explicação a oferecer. 

“Não foi só uma coisa. É fácil exagerar na interpretação dos números trimestrais [de assinantes] adicionados, porque eles são ruidosos.”

A Netflix afirma que o quadro vai melhorar com o retorno de suas séries mais populares em novas temporadas. O segundo trimestre costuma ser o mais fraco da Netflix, e o terceiro traz o retorno dos  sucessos “Orange is The New Black” e “Stranger Things”. Mais tarde, “The Crown” estreará nova temporada.

Mas o negócio deve se tornar mais complicado, com a chegada iminente de diversos serviços rivais. A partir de novembro, o serviço de streaming da Disney oferecerá milhares de séries e filmes de franquias populares como Star Wars e Marvel.

Nos dois anos seguintes, a Netflix também perderá duas das séries mais queridas dos fãs, “Friends” e “The Office”, para a WarnerMedia e a NBCUniversal, respectivamente. Elas são as mais assistidas da plataforma, segundo a Nielsen. A Netflix minimizou a questão, argumentando que a saída “liberaria orçamento para mais conteúdo original”.

Tradução de Paulo Migliacci

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