Área de defesa aposta na Boeing para vender seu novo avião de transporte

Embraer fica mais ágil e forte após a cisão da aviação comercial, afirma Jackson Schneider

Igor Gielow
São Paulo

A associação com a Boeing para a venda da principal aposta militar da Embraer, o avião de transporte KC-390, poderá ajudar a abrir o enorme mercado militar norte-americano para o modelo.

Esta é avaliação de Jackson Schneider, o presidente da Embraer Defesa e Segurança, unidade que em 2018 respondeu por 12% da receita líquida da empresa brasileira.

O primeiro dos 28 KC-390 encomendados por R$ 7,2 bilhões pela FAB (Força Aérea Brasileira) será entregue no mês que vem, após atrasos devidos a problemas orçamentários do governo e a um incidente no qual um dos protótipos sofreu avarias graves ao sair da pista.

Presidente da Embraer Defesa e Segurança, Jackson Schneider, com uma maquete do KC-390 à frente
Presidente da Embraer Defesa e Segurança, Jackson Schneider, com uma maquete do KC-390 à frente - Eduardo Knapp/Folhapress

O modelo já tem um primeiro contrato de exportação para Portugal, ainda fechado pela atual Embraer, e outras três conversas em curso com países da Europa. A partir da consumação do negócio com a Boeing, o avião será vendido por uma joint-venture entre as empresa, na qual os brasileiros têm 51% de controle.

Seu alvo é o C-130 Hércules, que voa há seis décadas, fabricado pela Lockheed, rival americana da Boeing.

“Por isso você tem um equilíbrio, com a Boeing do nosso lado”, afirma.

“Se o KC-390 for visto inicialmente como um produto para missões especiais e complementares [ao Hércules na Força Aérea dos EUA], nas quais ele não é só melhor, mas excepcionalmente melhor, estamos falando em dezenas de unidades [a serem vendidas]”, disse. Os EUA operam cerca de 500 C-130.

O cargueiro poderá ter uma linha nos EUA, caso isso facilite sua venda para o mercado local ou a outros países sob as regras facilitadas de exportação militar americanas.

Schneider se diz ciente de que será preciso um trabalho de imagem à frente. “A empresa que fica é forte. Por uma coincidência feliz, ela se redesenha num momento em que muitos projetos chegam à sua maturidade e ficam aqui”, diz.

Além do KC-390 e do caça leve Super Tucano, ele elenca a família de aviação executiva, sistemas de radar e controle aéreo já exportados para Índia e Mauritânia, a versão de vigilância do jatinho Praetor e a participação no consórcio alemão que ganhou R$ 6,4 bilhões para fazer quatro novos navios para Marinha.

Aqui, a Embraer entra como integradora de sistemas, sua vocação, e poderá abrir um flanco de atuação bem diverso do atual.

“Isso sem falar na área de serviços e uma área nova, que é a EmbraerX e seus produtos de tecnologia disruptiva [como o demonstrador de carro voador com a Uber]”, afirma, lembrando que a associação para produzir o caça sueco Gripen com a Saab poderia levar à fabricação local de aviões para exportação, na hipótese de haver interessados.

No mundo todo, os contratos militares, que terão destaque maior nos anos a seguir, são sujeitos a ingerências políticas e corrupção.

Por causa de vendas do Super Tucano e outros aviões, a Embraer foi investigada no mais rumoroso caso de sua história, quando teve de pagar US$ 206 milhões (cerca de R$ 800 milhões hoje) em multas nos EUA para encerrar a questão, em 2016.

“Assumimos os equívocos e respondemos a eles de forma contundente, redesenhando nossos procedimentos. Se eu tiver de abrir mão de mercado, como já fiz, vou abrir. Se a Embraer Defesa tiver de perder mercado, nós vamos perder. Sabemos que há interferências e que o mercado é muito sensível por diversos motivos”, disse.

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