Argentina vive descontrole de preço; comércio recusa cartão de crédito

Apenas as grandes redes, como Carrefour e Coto, respeitam o congelamento de preços

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O assunto mais recorrente nas ruas, mercados e cafés de Buenos Aires é como o país chegará até 10 de dezembro, quando assume o novo presidente, vitorioso nas eleições do próximo dia 27 de outubro. Com a vitória acachapante do kirchnerismo (47% a 32%) contra o governo nas últimas primárias, o atual presidente, Mauricio Macri, encontra-se desmoralizado.

"Era melhor ele ir embora logo, só o que pode fazer agora é tomar essas medidas que estão sendo devoradas pela inflação", diz Lazaro Ezcurra, 62, que comprava seus cigarros num típico quiosque portenho nesta quinta-feira (29) pela manhã.

Ele referia-se à redução de impostos e um pacote de benefícios anunciados depois da derrota, para aplacar a inflação, que já é de 55% acumulada nos últimos 12 meses.

O taxista que levou a reportagem até o centro pensava diferente.

“Não, ele tem que terminar o mandato e passar o bastão para o sucessor, como quase nunca fizemos nesse país em transições de um partido para outro, sem golpes de Estado, sem saídas antecipadas. Só assim vamos parecer ser um país sério para o mundo. A última coisa que pode fazer Macri agora é não deixar o país desabar até dezembro e sair com dignidade", afirmou Jose Manzano, 37.

Na quarta-feira (28), horas antes e durante o discurso do ministro da Economia, Hernán Lacunza, sindicatos e movimentos sociais fizeram uma marcha antigoverno do Obelisco até a Praça de Maio. Elas têm sido frequentes nos últimos meses, com forte participação dos militantes kirchneristas.

A ideia era mostrar descontentamento com a política econômica e a situação de suspense que o governo vive nesses longos meses até o novo mandato.

A Folha visitou, nos últimos dias, alguns supermercados para ver a diferença de preços. Apenas as grandes redes, como Carrefour e Coto, respeitam o congelamento e a retirada do IVA.

Os produtos que são vendidos a menor preço estão em geral em estantes separadas, num canto dos mercados.

Já nos supermercados chineses ou pequenos mercados, onde a maioria da população de classe média faz suas compras, não há controle. A mesma garrafa de água de um litro comprada na semana passada por 80 pesos, estava 125 pesos na manhã desta quinta-feira.

"Não vem ninguém fiscalizar, então não vou obedecer", disse, sem querer se identificar, um gerente de supermercado de bairro, em Chacarita.

O mesmo ocorre em bares e restaurantes sobre os quais não há regras estipuladas de congelamento de preço. Uma refeição para duas pessoas num restaurante de Palermo, sem bebida alcoolica, não sai por menos de 1.800 pesos. Há poucas semanas atrás, por 1.200 pesos era possível comer bem e tomar uma garrafa de vinho entre duas pessoas.

As coisas complicam se o cliente quiser pagar com cartão de crédito. Cada vez mais estabelecimentos comerciais dizem que não aceitam porque perdem muito até o dia em que irão receber.

Os que são obrigados a aceitar, por atenderem a muitos turistas, ainda assim tentam demovê-los da ideia até o último minuto, e oferecem descontos de até 20% se a pessoa pagar em dinheiro vivo.

Com a inflação, porém, isso vai se tornando mais difícil, pois é preciso carregar muitas notas de dinheiro para fazer compras, jantar fora ou até para pagar um transporte. Isso ocorre mesmo depois que o governo introduziu, nos últimos anos, as novas notas, antes inexistentes, de 200, 500 e mil pesos. Antes a nota de maior valor era a de 100 pesos.

Outras medidas, como redução de impostos, agradaram, porém a maioria dos ouvidos pela Folha fez questão de dizer que irá gastar o dinheiro muito rápido. Ou comprando dólar ou algo que precisam muito.

A escritora Mariana Enríquez, que deu entrevista à Folha há duas semanas, contou que ganharia uma grana extra com as reduções de impostos, “o suficiente para comprar um sofá até o fim do ano. E vou comprar correndo, porque estou precisando e porque, se não comprar logo, o dinheiro não vai alcançar, vai ser comido pela inflação."

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