Descrição de chapéu The Wall Street Journal

As novas formas dos chefes espionarem os funcionários

Empregadores mineram os dados que os funcionários geram com intenção de entender o que eles estão fazendo

Londres | The Wall Street Journal

Seu empregador pode saber muito mais sobre você do que você imagina.

O tom de sua voz em uma reunião. O tempo que você passa fora de sua mesa. Seu tempo de resposta a emails. Os lugares que você vai no escritório. O que está na tela de seu computador.

Ser empregado de uma grande companhia nos Estados Unidos hoje significa ser um gerador de dados na força de trabalho —do primeiro email enviado de seu quarto pela manhã ao novo contato de negócios que adiciona antes de sair do escritório, passando pelo ponto de acesso Wi-Fi usado durante o almoço.


Os empregadores avaliam essas interações para determinar quem é influente, que equipes são mais produtivas e quem representa risco de fuga. As companhias, que têm amplo poder legal para monitorar trabalhadores nos Estados Unidos, nem sempre revelam o que estão rastreando.

Quando executivos da McKesson queriam saber porque algumas equipes tinham giro de pessoal maior, a empresa recorreu a uma startup de análise de dados para examinar informações sobre remetentes, destinatários e horário de mais de 130 milhões de emails —mas não o conteúdo das mensagens—, de mais de 20 mil de seus funcionários nos Estados Unidos no ano passado. A intenção era saber que pontos seriam possíveis conectar sobre os relacionamentos entre eles.

A empresa de análise TrustSphere constatou que as equipes com menor giro de pessoal apresentavam uma mistura diversificada de conexões internas nos escalões mais altos e mais baixos da empresa e a contatos externos. Já as equipes com maior giro tinham relacionamentos mais fortes fora da empresa e relacionamentos mais fracos com colegas de seu nível ou níveis inferiores dentro da companhia.

A McKesson diz ter estudado apenas grupos de trabalhadores, não empregados individuais, por respeito à privacidade de seu pessoal. Na época, a empresa optou por não revelar a análise aos trabalhadores porque não leu o conteúdo dos emails.

"A beleza do que extraímos disso são informações que fazem nossas equipes funcionar melhor", disse R.J. Milnor, vice-presidente de planejamento de pessoal e análise da McKesson.

A empresa ainda não determinou que mudanças realizará como resultado do que constatou, mas pensou em adotar um escritório mais integrado para encorajar o diálogo entre os trabalhadores. Também está estudando maneiras de prever que equipes estão em risco de perder membros, com base em seus padrões de relacionamento.

Não são apenas emails que são computados e analisados. As companhias estão, cada vez mais, avaliando mensagens de texto, chats na Slack e, em certos casos, conversas telefônicas gravadas e transcritas.

A Microsoft recolhe dados sobre a frequência de chats, emails e reuniões entre seus empregados e clientes usando os serviços do Office 365 a fim de medir a produtividade dos empregados, a eficiência do gestores e o balanço vida/trabalho.

Rastrear emails, chats e compromissos em agendas pode fornecer um retrato de como os empregados passam cerca de 20 horas de sua jornada semanal de trabalho, disse Natalie McCollough, gerente geral da Microsoft que se concentra em análise do trabalho. A empresa só autoriza os executivos a estudar grupos de pelo menos cinco trabalhadores.

Alguns meses atrás, membros de equipes de vendas da Microsoft receberam painéis de controle personalizados que mostram como usam seu tempo, com dados que os executivos não podem ver. O portal oferece sugestões sobre como criar redes de contatos e passar mais tempo com os clientes, e não em reuniões internas.

A Microsoft também vende esse tipo de software analítico de práticas de trabalho a outras empresas, como as lojas Macy's, que avaliam dados sobre o balanço vida/trabalho de seu pessoal medindo o número de horas que os empregados passam conectados à sua rede fora do expediente, enviando emails.

A gigante das hipotecas Freddie Mac usou a análise da Microsoft para avaliar quanto tempo seu pessoal passava em reuniões, e para tentar determinar se alguns desses encontros eram redundantes.

Os que propõem o uso da tecnologia de vigilância no local de trabalho dizem que as percepções obtidas permitem que as empresas distribuam melhor seus recursos, identifiquem funcionários problemáticos mais cedo e determinem o pessoal de melhor desempenho.

Os críticos advertem que a proliferação dessas ferramentas pode dificultar na obtenção de avaliações justas e equilibradas.

"Temos o que é correto legalmente e o que você precisa fazer para manter relações de confiança com seu pessoal, e as duas coisas nem sempre coincidem", disse Stacia Garr, cofundadora da consultoria de pesquisa do trabalho RedThread Research, que conduz pesquisas e assessora empresas sobre questões relacionadas aos recursos humanos.

Diana Hubbard, 41, designer e pesquisadora especializada em experiência de uso em Fort Worth, Texas, não se comunica sobre sua vida pessoal nos equipamentos que usa para o trabalho. Ela tem um smartphone e dois laptops pessoais —um só para jogos—, além do computador e telefone que a empresa  fornece. Quando viaja a trabalho, Hubbard às vezes leva dois celulares e dois laptops, e evita conectar seu celular pessoal às redes de Wi-Fi da empresa, a menos que ela use uma conexão VPN.

"Não sou paranoica ou coisa parecida", ela diz, apontando que tenta evitar divulgar informações pessoais online. "Os dados são tão valiosos que não os forneço de graça, não importa quem esteja tentando obtê-los ou acessá-los. A coisa se resume  isso. São meus. Eu sou a dona."

Há anos as empresas forçam seus funcionários a assinar acordos de uso de tecnologia que detalham que qualquer transmissão que flua por um celular ou computador que seja fornecido pela empresa pertence a ela.

Os empregadores dos Estados Unidos têm direito legal para acessar quaisquer comunicações ou propriedades intelectuais criadas no local de trabalho ou com aparelhos pelos quais eles pagam o uso no trabalho, dizem advogados trabalhistas.

Agora, as empresas estão ficando mais inteligentes na análise da riqueza de dados sobre seus empregados. Uma das mais novas fronteiras é dissecar telefonemas e conversas em salas de reuniões. Em determinados casos, análise tonal pode ajudar a diagnosticar questões culturais em uma equipe, demonstrando quem domina as conversas, quem hesita em falar e quem resiste a esforços para promover discussões emocionais.

A Life Time, que opera uma rede de academias de ginástica, usa processamento de linguagem desenvolvido pela Ambit Analytics a fim de avaliar como os gerentes contratados recentemente resolvem problemas em pequenos grupos. O exercício de treinamento revela informações sobre o quanto uma pessoa fala sem ouvir os demais, e avalia a qualidade e volume da fala.

De cinco a oito participantes e um mediador baixam um app para seus smartphones e apertam um botão para iniciar a gravação. Eles, em geral, recebem um problema hipotético a resolver. A Life Time então aconselha os novos contratados sobre as competências em que precisam trabalhar —tornarem-se ouvintes melhores ou falarem mais, diz David Pettrone Swalve, vice-presidente de educação da Life Time. Ele diz que algumas pessoas encontram mais facilidade em ouvir feedback baseado em dados do que na opinião de terceiros, que pode parecer subjetiva.

"O Black Mirror chegou", disse Swalve, em referência à série futurista da Netflix.

Tradução de Paulo Migliacci

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.