Caminhoneiros criticam proposta da indústria para frete e prometem pressionar STF

Empresas defendem transformação de tabela que define o piso em referencial, sem obrigatoriedade de cumprimento

Filipe Oliveira
São Paulo

Líderes dos caminhoneiros criticaram a proposta apresentada pela indústria ao governo de transformar a tabela que define o piso mínimo para o frete em uma referência, sem obrigatoriedade de uso.

Parte do grupo também aponta irritação em relação às negociações travadas entre categoria, as empresas e o governo para reformulação do sistema e defende o abandono das tratativas e uma maior pressão sobre o STF, que deve discutir o tema no próximo mês.

Marcelo da Paz, caminhoneiro do Porto de Santos e que está em Brasília para participar das reuniões, diz que a proposta não foi bem recebida e defende que a categoria deixe as negociações.

Uma ameaça de paralisação no mês passado levou o governo a suspender a atualização dos valores praticados com base na tabela, definidos a partir de estudos da Esalq-Log, da USP. 

A nova tabela (suspensa), segundo caminhoneiros, contemplava apenas os custos do frete, sem levar em conta uma margem de ganhos para os trabalhadores. Nas reuniões, governo e categoria discutiam ajustes para tratar da remuneração da categoria.

Marcelo da Paz defende que a categoria se mobilize até o dia 4 de setembro, quando a constitucionalidade da tabela será julgada pelo STF (Supremo Tribunal Federal). "Se der que a tabela é inconstitucional, o país para outra vez", afirma.

A ação tem entre seus autores as confederações da indústria e da agricultura.

Marconi França, líder de caminhoneiros de Recife, também afirma ter deixado as negociações e que a categoria deverá se concentrar no julgamento do Supremo. "Não vamos dar mais crédito para esse governo, que só faz empurrar com a barriga".

França foi um dos caminhoneiros que receberam contato direto do ministro Tarcísio de Freitas para confirmar a suspensão da atualização da tabela em julho.

Entre as demandas de França está a implantação obrigatória do Ciot (Código Identificador da Operação de Transporte), sistema eletrônico para controle do frete que, segundo os caminhoneiros, garantiria o cumprimento da tabela, outra das promessas do ministro no telefonema que fez ao caminhoneiro.

Ele afirma que um julgamento da tabela como inconstitucional pelo Supremo seria uma irresponsabilidade do tribunal.

"Vamos invadir Brasília no dia 4 de setembro, mostrar que não vamos desistir de nossa lei, única garantia que caminhoneiros conseguiram com muita luta."

A tabela do frete foi criada pelo governo Michel Temer (MDB), como resposta à paralisação ocorrida em maio de 2018.

Nelson Junior, o Carioca, de Barra Mansa, também critica a proposta de tornar a tabela referencial e afirma ainda aguardar definição de data para reunião com o governo.

Ele diz que o encontro deveria acontecer até esta quarta, mas não houve confirmação da agenda. O líder caminhoneiro diz que, caso a reunião não aconteça até sexta-feira (9), irá deixar a capital federal.    

"Nós estamos tentando não fazer paralisação, levar as coisas no diálogo, mas está ficando difícil."

Questionado, o ministério da Infraestrutura afirma que uma nova reunião com os caminhoneiros está mantida e acontecerá até quinta-feira (8).

Wanderlei Alves, o Dedéco, um dos líderes da paralisação de 2018, diz que a proposta da indústria não será aceita, mas defende a manutenção do diálogo com o governo. "Não vamos aceitar, claro, mas está na mesa de negociação enquanto o governo estiver de portas abertas."

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