Campanha de picape exalta agronegócio e é festejada por Salles

Ministro é primeiro a divulgar comercial que soa como ataque a ambientalistas; GM diz que objetivo foi dar voz a produtores

Nelson de Sá
São Paulo

Uma nova campanha publicitária da GM, para a picape Chevrolet S10, vem sendo questionada desde o fim de semana em mídia social por soar como um ataque a ambientalistas no país.

Entre imagens do veículo, um texto em off afirma que "tem gente que adora reclamar", por exemplo, "reclama que o pasto só aumenta" e "reclama dos transgênicos".

No final: "Mas, enquanto eles reclamam, a gente segue em frente. Porque a gente sabe que não dá para ficar chorando leite derramado. Tem é que produzir mais leite, criar mais gado, para continuar botando comida na mesa. E mesmo assim tem aqueles que sempre vão reclamar".

No sábado (27), horas antes de a campanha entrar no ar, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, postou e festejou o vídeo, via Twitter: "Recebi essa propaganda, que enaltece o Brasil e espanta o mau humor. Chega de sandália de couro e sunga de crochê... daqui para a frente, só de Chevrolet... kkk".

Entre representantes do agronegócio, o vídeo também foi bem recebido. Procurado pela Folha, Tiago Stefanelli, presidente do Sindicato Rural de Sorriso (MT), considerada a capital da soja no país, afirmou que "a propaganda [da S10] é a mais pura verdade".

"Muitos reclamam do agronegócio, mas somos os que produzimos os alimentos e contribuímos com os impostos, que na maioria das vezes não retornam para nós", diz o produtor rural. "Só mostram os louros do setor e não o nosso endividamento e as dificuldades por que passamos, mas mesmo assim levantamos todo dia para trabalhar e produzir."

A assessoria de imprensa da GM confirmou que o ministro foi o primeiro a divulgar o comercial, mas falou não saber como o vídeo chegou até ele.

Em janeiro, a GM divulgou comunicado a funcionários no Brasil com frases do presidente mundial, Mary Barra, sobre a possibilidade de fechar fábricas na América do Sul porque não conseguiria justificar os prejuízos na região. As declarações geraram estresse entre a montadora e o recém-empossado governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Na ocasião, era imprevisível o destino de programas de incentivo ao setor, já que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é contrário a subsídios. Carlos da Costa, secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do ministério, reagiu as declarações da GM dizendo: "Se precisar fechar, fecha".

Por telefone, o diretor-executivo de marketing da GM, Hermann Mahnke, defendeu a campanha. "O que a gente fez foi tentar dar voz ao produtor que representa quase um quarto do PIB nacional."

Disse que "a repercussão toda foi por um tuíte, só que isso foi totalmente alheio à estratégia" da GM. "A gente não articulou nada disso, foi por livre e espontânea iniciativa do ministro, porque ele gostou da campanha", acrescentou.

Entre os especialistas, porém, a abordagem foi considerada arriscada. Eugênio Bucci, professor de ética na ECA-USP, comentou que "seria bom que as marcas que querem ter opinião se lembrassem de que as opiniões têm marcas —e a marca dessa posição que a Chevrolet encampou é antiecológica e intolerante".

Acrescentou Bucci, que é também do programa de comunicação do Insper: "Não sei se esse tipo de comercial será bom para a Chevrolet. Sei é que, seguramente, ruim para o ambiente e para o ambiente político no Brasil".

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