Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Empresa aérea usa sensores para medir jet lag de passageiros em voo de 19 horas

Rota proposta pela Qantas Airways cruzará meio-planeta; pesquisadores vão monitorar o sono da tripulação antes, durante e depois do voo

The Wall Street Journal

A barreira das 18 horas de voo foi superada. Agora, um jato carregando passageiros e tripulação equipados com sensores tentará superar a marca das 19 horas.

Os pilotos, em duas viagens da Qantas Airways entre Nova York e Sydney planejadas para este ano, vão usar um aparelho que registra ondas cerebrais e seu grau de atenção, preservando dados que ajudarão a definir o futuro das viagens aéreas.Pesquisadores da Universidade Monash, em Melbourne, vão trabalhar com os pilotos com o intuito de registrar os níveis de melatonina —um hormônio associado ao sono—da tripulação, antes, durante e depois do voo.

Aviões da Qantas Airlines, no aeroporto internacional de Adelaide, na Austrália - David Gray-19.ago.2018/Reuters

Cientistas e especialistas médicos da Universidade de Sydney vão monitorar os padrões de sono, consumo de alimentos e bebidas, iluminação, e movimento de passageiros durante os voos de teste. As pessoas na cabine de passageiros —em sua maioria empregados da Qantas— estarão usando dispositivos vestíveis com o objetivo de recolher os dados. Não haverá passageiros pagantes a bordo.

As companhias mundiais de aviação estão competindo para operar voos de longa duração, tornados possíveis por novos modelos de aviões com baixo consumo de combustível.

 O que não está claro é por quanto tempo os passageiros estariam dispostos a ficar sentados no avião e o que as empresas poderiam fazer para melhorar a experiência dos passageiros e manter os pilotos e a tripulação alertas.

Os voos de teste, usando novos Boeing 787-9 Dreamliner, transportarão 40 pessoas, incluindo tripulantes, com um mínimo de bagagem e de serviços de bordo, a fim de dar ao avião o alcance requerido. Em lugar de os aviões voarem da fábrica da Boeing em Seattle diretamente para a Austrália, a Qantas os levará a Nova York, para que possam realizar de lá os voos de teste.

A Qantas vai realizar um terceiro voo de teste de Londres a Sydney.

Teste de resistência

Os dois voos sem escala de Nova York a Sydney e o voo sem escalas de Londres a Sydney planejados pela Qantas Airways foram concebidos para experimentar aspectos como os padrões de iluminação.

Em voos de longa duração, a iluminação da cabine de passageiros tipicamente é enfraquecida cerca de duas horas depois da decolagem e volta a aumentar duas horas antes do pouso, disse Sveta Postnova, professora sênior de neurofísica e dinâmica do cérebro na Universidade de Sydney. A depender do destino, isso pode agravar o "jet lag".

Um dos voos de Nova  York seguirá o padrão normal. Mas no segundo as luzes ficarão acesas por seis ou sete horas depois da decolagem. Os pesquisadores vão comparar dados sobre os passageiros entre os dois voos para determinar se a mudança na iluminação afetou o "jet lag". Os horários de refeição serão alinhados à iluminação, disse Postnova.

A luz desempenha papel chave em regular o sono, mas "recentemente descobrimos que refeições, exercício e outros fatores ambientais também afetam nosso relógio biológico", disse Postnova. A maior incógnita é como programar a iluminação, refeições e períodos de exercício a fim de minimizar o jet lag.

A Qantas disse que decidirá até dezembro se levará adiante a criação de novas rotas. Caso o faça, a companhia está considerando usar modelos Boeing 777X ou Airbus A350 de maior alcance para essas viagens. Ela antecipa que o tempo de voo será de 20 horas, em serviço regular.

Quando a Qantas lançou um voo sem escalas de cerca de 17 horas entre Perth e Londres, no ano passado, a companhia disse que os cardápios foram concebidos para manter a hidratação, ajudar no sono e reduzir o "jet lag". Um estúdio de ioga foi construído no novo "lounge" da companhia em Perth, para ajudar os passageiros a relaxar. Depois de um ano em operação, o voo tem o maior índice de satisfação de usuários da empresa, a despeito de ser a mais longa de todas as rotas da Qantas.

Outras companhias de aviação estão tentando voos ainda mais longos. A Singapore Airline voa de Cingapura a Newark, Nova Jersey, com um tempo de voo de cerca de 18 horas.

Alan Joyce, presidente-executivo da Qantas, disse que a empresa precisa obter aprovação das autoridades regulatórias da aviação, porque as regras atuais não permitem voos de mais de 20 horas. A Qantas também precisa de "ganhos de produtividade" de seus pilotos a fim de tornar os voos viáveis economicamente, ele disse, mas não quis detalhar o que os pilotos teriam de oferecer.

"Essa é em última análise uma decisão de negócios, e o lado econômico precisa funcionar", disse Joyce. "Caso não funcione, não faremos".

A Associação de Pilotos Australianos e Internacionais, sindicato que representa os pilotos da Qantas, disse que está buscando mais detalhes sobre o que a companhia precisaria de seus pilotos.

"Os pilotos há muito tempo estão na vanguarda do espírito pioneiro da Qantas, e aguardamos a oportunidade de enfrentar os desafios dos voos ultralongos, com a segurança sendo sempre nossa maior prioridade", disse Mark Sedgwick, o presidente do sindicato,

William Brougham, 42, que voou na classe econômica de Londres a Perth na semana passada, disse que sentiu que tinha mais espaço que o normal. Ele disse que refeições como um caldo de carne foram servidas nos horários apropriados, ajudando a minimizar o "jet lag". Sua única reclamação foi a falta de opções atraentes no sistema de entretenimento,

"Se você consegue sobreviver a 16 horas, provavelmente conseguirá sobreviver a 18 ou 19 horas", disse Brougham, que vive em Sydney mas é de Londres, e estaria interessado em voos sem escalas entre as duas cidades. "Eu provavelmente gostaria de enfrentar esse desafio. Com certeza faria o voo pelo menos uma vez".

The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

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