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Crescimento anual acumulado de 1% reforça falta de vigor da recuperação

Antes, quatro trimestres tinham alta de 1,5%; economia opera em nível menor que há quatro anos

Eduardo Cucolo Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

A economia segue se recuperando em ritmo lento em relação à recessão verificada nos anos de 2015 e 2016, indicam os dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta quinta-feira (29) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A taxa de crescimento acumulada em quatro trimestres reforça que ainda há falta de vigor na recuperação.

Depois de a economia rodar em um ritmo próximo de 1,5% nos três primeiros trimestres de 2018, houve queda na taxa de crescimento para 1,1%, 0,9% e 1,0%, nos três trimestres seguintes.

Isso é explicado por conta dos dois principais componentes do PIB. Pelo lado da produção, o setor de serviços perdeu fôlego desde o último trimestre do ano passado. O mesmo ocorreu, pelo lado das despesas, com o consumo das famílias.

André Diz, professor de macroeconomia do Ibmec, afirma que o setor de serviços e o consumo das famílias estão praticamente estáveis e que não há espaço para mudança desse cenário até o final deste ano.

“Eu interpretaria isso mais como uma estagnação mesmo. Se consumo e Serviço estão estáveis, estamos estagnado sim”, afirma o economista, que projeta crescimento de 0,8% para 2019.

“Tivemos uma mini retomada. A gente foge desse carimbo de recessão, mas estamos andando de lado há praticamente três anos. É difícil ver reversão desses cenário neste semestre. E isso pode piorar a depender desse cenário internacional.”

O pesquisador Leonardo Mello de Carvalho, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), não avalia o cenário como de estagnação, apesar de também projetar um crescimento de 0,8% para este ano.

A instituição previa expansão de 0,5% para o PIB do segundo trimestre, pouco acima do 0,4% registrados pelo IBGE.

Carvalho destaca que houve melhora na composição do PIB, com recuperação dos investimentos e da indústria, em especial, a da construção. Esses são fatores que podem contribuir para uma recuperação mais efetiva do mercado de trabalho.

“A gente está vendo um ritmo de crescimento da atividade lento e gradual. Vem crescendo pouco, mas vem crescendo. Até pelo fato dessa composição ter melhorado, eu não usaria o termo estagnação”, afirma o pesquisador do IPEA.

“Nossa expectativa é que, ao longo do segundo semestre, a gente veja um efeito positivo em termos de confiança, e isso pode encadear o início de um ritmo mais forte de crescimento. Talvez não tenha efeito os números deste ano, mas no ano que vem podemos crescer em um ritmo melhor”, diz Carvalho. A instituição projeto expansão de 2,5% em 2020.

O economista Thiago Xavier, da Tendências Consultoria Integrada, afirma que o cenário não pode ser descrito nem como de recuperação nem como estagnação, mas de uma retomada muito lenta e baseada ainda no consumo das famílias.

Os dados do segundo trimestre, no entanto, mostraram uma retomada da construção civil e dos investimentos. “Não é possível ter um ciclo longo e sustentável só baseado no consumo das famílias”, afirma o economista.

A consultoria projeta crescimento de 0,9% neste ano e 2% para o próximo, previsões que podem ser revistas para baixo em razão da piora no cenário internacional.

 

O professor Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da Escola de Economia da FGV, afirma que ainda não está claro que a economia tenha começado a acelerar.

“Precisa ver se os próximos trimestres vão confirmar isso. De qualquer jeito, 2019 dificilmente vai ser diferente de 0,5% a 1%. Precisaria ter um crescimento brutal para passar disso”, afirma.

“Depende também do que vai acontecer lá fora. A economia mundial parece estar entrando em um momento ruim. E, se entrar, dificilmente a gente vai conseguir recuperar.”

Os dados do IBGE mostram ainda que, no terceiro ano após o fim da recessão, a economia está 3,7% acima do verificado no quarto trimestre de 2016, quando chegou ao patamar mais baixo da crise recente.

No entanto, ainda se encontra 4,8% abaixo do ponto mais alto, que foi registrado no primeiro trimestre de 2014, antes da crise.

“Já tínhamos voltado ao patamar de 2010, de 2011 e, agora, estamos no mesmo [patamar] do segundo trimestre de 2012. Então [a economia] vem se recuperando, mas ainda não recuperou tudo. É gradual”, afirmou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Trimestrais do IBGE.

“A gente só está vendo um trimestre que foi melhor que o trimestre anterior. Teria de ter um período maior para falar isso [que houve aceleração da recuperação]”, afirmou Claudia Dionísio, gerente de Contas Trimestrais do IBGE.

Segundo a gerente do IBGE, o resultado do trimestre foi puxado pela demanda interna. As exportações recuaram (-1,6%) pelo segundo trimestre seguido, na esteira da crise argentina e da queda no preço de algumas commodities (matérias primas).

As importações, por outro lado, cresceram 1%. “Isso também tem relação com o crescimento da indústria de transformação. Os itens que mais puxaram estão relacionados com investimentos, bens de capital”, afirmou a gerente do IBGE.

 

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