Guerra comercial se intensifica, dólar sobe para R$ 4,12 e Bolsas despencam

China impõe novas sobretaxas aos EUA, e Trump retalia; moeda tem maior cotação em quase um ano

Júlia Moura
São Paulo

​Um novo capítulo da guerra comercial entre Estados Unidos e China fez as Bolsas de Nova York e de São Paulo despencarem nesta sexta-feira (23). O dólar subiu 1,1% e foi ao maior patamar do ano, a R$ 4,124, valor mais alto desde 19 de setembro, antes das eleições presidenciais de 2018. ​

Nesta sexta, a China anunciou novas tarifas sobre US$ 75 bilhões (R$ 303, 2 bi) de mercadorias americanas, adicionando mais 10% de tarifas sobre as já existentes, em retaliação às recentes taxas promovidas pelo governo dos EUA.

No início de agosto, o presidente americano Donald Trump pôs fim à trégua comercial e anunciou tarifas sobre US$ 300 bilhões (R$ 1, 1 trilhão) em produtos da China, incluindo eletrônicos, programadas para entrarem em vigor em duas etapas, em 1º de setembro e 15 de dezembro.

O Ministério do Comércio da China adotará o mesmo calendário para as novas taxas, que incluem produtos agrícolas, como a soja, petróleo, aviões de pequeno porte e carros.

A ofensiva chinesa teve resposta por parte de Trump. Via Twitter, o presidente ordenou que companhias americanas encontrem alternativas à China e prometeu uma resposta às novas tarifas chinesas nesta sexta.

“Há um padrão de piora dos mercados com a escalada da guerra guerra comercial e posterior resposta dos Bancos Centrais. Acho que teremos o mesmo ciclo, de piora e corte de juros, e é algo que deve continuar até uma solução mais definitiva para o conflito”, afirma Carlos de Freitas, economista-chefe da Ativa Investimentos. ​

Na última reunião do Fed, em 31 de julho, a instituição cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, frente aos efeitos da guerra comercial na desaceleração da economia americana.

 Para Freitas, a imposição de novas tarifas à China é a forma indireta de Trump cortar juros americanos, o que tende a beneficiar a economia. 

A preocupação de investidores, no entanto, é se uma política de monetária de estímulos pode ser suficiente para conter os impactos das escaladas da guerra comercial.

Trump também reagiu de forma negativa ao discurso do presidente do Fed, banco central americano, desta sexta. No simpósio de Jackson Hole, no estado americano de Wyoming, Powell disse que a instituição vai agir de forma apropriada para estimular a economia americana, em uma sinalização de novos cortes na taxa básica de juros.

Entretanto, ele alertou mas que os efeitos da política monetária são limitados em face da guerra comercial.

O discurso de Powell deu um certo alívio ao mercado financeiro, que chegou a reverter as perdas da manhã resultantes das tarifas chinesas. No Brasil, o dólar chegou a recuar para R$ 4,052. 

A rápida resposta de Trump, no entanto, fez os índices do mercado financeiro refletirem os temores de investidores com a consequência dessa escalada na guerra comercial.

O dólar subiu 0,54% em relação a moeda chinesa e foi para 7,13 yuans. A moeda mais desvalorizada é favorável às exportações da China.

O petróleo teve queda de 1,2% nesta sexta, a US$ 59,21 o barril de Brent. Na semana, no entanto, a matéria-prima acumula alta de 1%.

Em Nova York, os índices foram para o menor patamar desde maio.Dow Jones encerrou em queda de 2,37%. S&P 500 caiu 2,6% e Nasdaq, 3%.

No Brasil, há o agravante de que o acordo entre Mercosul e União Europeia pode ser revisto, caso o governo brasileiro não atue para combater os incêndios na Amazônia e para proteger a floresta. 

governo francês disse que o presidente Jair Bolsonaro mentiu ao assumir compromissos em defesa do ambiente na cúpula do G20, em junho, e que isso inviabiliza a ratificação do acordo, concluído no mesmo mês.

Na Finlândia, o ministro da Economia, Mika Lintila, sugeriu que a UE considerasse urgentemente a possibilidade de banir importações de carne bovina do Brasil.

Com agravantes externos e domésticos, o Ibovespa caiu 2,35%, a 97.656 pontos, pior patamar desde junho. O giro financeiro foi de R$ 19,3 bilhões, acima da média diária para o ano.

Na semana, o índice acumula queda de 2%. Em agosto, pior mês para a Bolsa brasileira desde junho de 2018, a perda é de 4%.

Dentre as moedas emergentes, o real foi a que mais se desvalorizou. No pior momento do dia, o dólar chegou a valer R$ 4,132. Segundo Freitas, da Ativa, o Brasil segue contaminado pela crise Argentina, o que melhora a perspectiva do país dentre os demais emergentes perante estrangeiros.

Além disso, o Brasil é um dos países mais líquidos dentre o bloco, o que favorece a venda de ativos.

Nesta semana, a sexta seguida de alta do dólar, a moeda americana acumula alta de 3% frente ao real.

"Nossa preocupação é que o Itamaraty não parece estar preparado para criar uma contra ofensiva diplomática uma vez que o chanceler [Ernesto Araújo] já se manifestou contra a tese de aquecimento global e assim torna mais difícil encontrar pontes", afirma André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos"

"Com a perspectiva de queda de juros no Brasil e a elevação da volatilidade o Real pode se fragilizar ainda mais. Graficamente a próxima resistência se encontra em R$ 4,15 e devemos monitorar este patamar", completa.

Nesta sexta, o CDS (Credit Defaut Swap), espécie de seguro contra calote, de 5 anos do Brasil subiu 2,35%.

O índice de volatilidade VIX, que mede o receio ao risco global, subiu 21,34%.

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