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Cifras & Letras

Economistas sugerem cutucões para aumentar poupança e salvar o planeta

Livro coescrito por Nobel e que propõe 3ª via para papel do Estado, o 'paternalismo libertário', ganha edição brasileira 11 anos depois

Ana Estela de Sousa Pinto

Nudge

  • Preço R$ 59,90 (327 págs.)
  • Autor Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein
  • Editora Objetiva

Um grupo de universitários americanos recebeu uma aula sobre a importância de se vacinar contra o tétano. A maioria se diz convencida, mas apenas 3% tomaram a injeção.

Em outra turma, a aula incluiu um mapa de onde ficava o posto médico, o pedido de que os alunos escolham em suas agendas uma data apropriada e planejem o trajeto até o local de vacinação.

A intervenção adicional, de custo zero, elevou para 28% o comparecimento.

O experimento realizado na Universidade Yale (EUA) é um dos exemplos elencados em “Nudge” (cutucão, em inglês), obra que propõe um novo olhar sobre a responsabilidade do poder público.

Os autores propõem esse exercício para explicar por que os nudges são relevantes: calcule visualmente a proporção dessas duas mesas e escolha qual ficaria melhor na sua sala de estar (resposta no final do texto) - Reprodução

Escrita por dois pesos-pesados da academia global —o Nobel de Economia Richard Thaler e o professor de direito de Harvard Cass Sunstein, um dos principais conselheiros do ex-presidente Barack Obama—, o livro defende uma via alternativa à clássica polarização americana: liberalismo x presença do Estado.

Não por acaso, o movimento se autoentitula “paternalismo libertário”.

Libertário pela “convicção de que as pessoas devem ter liberdade para fazer o que quiserem, inclusive recusar acordos desvantajosos”.

Paternalista porque defende que os “arquitetos da escolha” (ou seja, os governos, que desenham as políticas públicas) têm “toda a legitimidade para tentar influenciar o comportamento das pessoas, desde que seja para tornar a vida delas mais longa, mais saudável e melhor”.

Na origem da proposta está um campo que vem ganhando espaço na literatura acadêmica: a economia comportamental, que mescla teoria econômica, psicologia, neurociência e ciências sociais.

Ela têm demonstrado que, diferentemente do que propunha a economia clássica, as pessoas nem sempre tomam as melhores decisões, porque suas escolhas não são puramente racionais.

Casos evidentes são os que exigem sacrifício no presente para obter um ganho futuro: deixar de gastar agora para ter renda na velhice, trocar a pizza por salada para emagrecer, reduzir o banho para preservar o ambiente.

Para esses momentos, Thaler e Sunstein defendem os cutucões: intervenções na arquitetura das políticas públicas que mudem o comportamento das pessoas de forma previsível, sem vetar qualquer escolha nem alterar de forma significativa os incentivos econômicos.

Cutucão, por exemplo, é a forma de adesão à previdência complementar dos servidores paulistas: inscrição automática. Há liberdade para sair, mas o empurrão aumenta significativamente a taxa de participação.

De eficácia já demonstrada em muitos experimentos, a medida também faz parte dos planos de previdência corporativa dos EUA e é um dos exemplos de “Nudge”, assim como as questões ambientais e o dilema da dieta.

A posição dos alimentos na cafeteria das escolas públicas e a ordem em que eles aparecem na fila altera de forma significativa o consumo, mostram estudos.

Se basta colocar as frutas ao alcance dos olhos e os doces no fim da fila para incentivar a alimentação saudável, não é um direito do governo organizar os alimentos para que os estudantes sejam beneficiados?, questionam os autores —e, claro, respondem que sim.

Defender esse direito dos governantes era o foco em 2008, quando o livro foi lançado nos EUA.

Onze anos depois, o debate já deu outros passos: há quem pergunte se não é dever do Estado cutucar seus cidadãos. A questão é proposta pelo economista sênior da Vice-Presidência de Desenvolvimento Econômico do Banco Mundial, Varun Gauri, em texto publicado em junho.

O acesso aos serviços públicos, argumenta ele, é afetado por questões psicológicas, como inércia, preconceitos, desinformação. “São gargalos importantes no usufruto dos direitos socioeconômicos, mas quase nunca são alvo de decisões judiciais que procuram garantir esses direitos”, escreve.

Para Gauri, o desenvolvimento da economia comportamental deveria levar a mudanças na doutrina jurídica sobre direitos humanos e ao “direito de ser cutucado”.

O tempo transcorrido desde o lançamento de “Nudge” faz com que a tradução brasileira chegue desatualizada (é o caso, por exemplo, da discussão sobre o Medicare, sistema de seguro-saúde proposto por Obama).

Além do atraso, é difícil de entender a escolha do subtítulo incluído na edição brasileira: “Como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade”. Este não é nem de longe um livro de autoajuda.

Não chega a ser uma compensação, mas a edição brasileira traz um “capítulo bônus”, com 20 sugestões adicionais de cutucões recolhidas após a primeira edição, e um posfácio escrito após a crise global de 2008.

Resposta

Pegue a régua e comprove: as duas são idênticas! A ideia é mostrar como nosso julgamento nem sempre está correto

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