Ibovespa perde os 100 mil pontos em mais um dia de temor com recessão

Dólar cede para R$ 3,99 com ação do BC; título americano de 30 anos rende menos de 2% pela 1ª vez

São Paulo e Nova York

A aversão global a risco, com temores de uma nova recessão econômica, levou o Ibovespa a perder o patamar de 100 mil pontos. A marca histórica havia sido conquistada em 19 de junho, na esteira do otimismo com a aprovação da reforma da Previdência.

Nesta quinta-feira (15), o Ibovespa teve nova sessão de perdas e caiu 1,2%, para 99.056 pontos, menor patamar desde 17 de junho. O volume negociado foi de R$ 21 bilhões e superou novamente a média diária para o ano.

Já o dólar, depois de superar os R$ 4 na véspera, cedeu 1,26% ante real e foi para R$ 3,99 com a interferência do Banco Central.

Pela primeira vez desde a crise de 2009, a instituição irá vender dólares à vista para controlar a alta da moeda americana. Também serão oferecidos contratos de swap cambial. O BC decidiu conter o câmbio com a disparada de quase 2% da quarta (14), quando o dólar chegou a R$ 4,04. 

Apesar de a ação ter início apenas na próxima quarta (21), o anúncio foi o suficiente para travar a trajetória de alta. Dentre uma cesta de moedas emergentes, o real foi a segunda que mais se recuperou, atrás do peso argentino. 

Após sofrer uma depreciação de 30% entre segunda (12) e quarta (14), o peso se valorizou diante do dólar nesta quinta. A moeda americana foi para 57,25 pesos, uma queda de 4,7% em relação à véspera, quando US$ 1 chegou a 60 pesos.

O temor de uma nova recessão leva investidores a migrar de ativos de risco, como as ações em Bolsa, especialmente de emergentes, para a renda fixa, dólar e ouro. 

A falta de segurança na economia se reflete também na queda do rendimento dos contratos do Tesouro americano de longo prazo, que estabeleceu novo recordes negativo.

O rendimento do título de 30 anos do Tesouro americano caiu pela primeira vez abaixo dos 2%, à medida que os investidores buscam segurança.

Os operadores abriram mão de ativos de maior risco, como ações e petróleo, e transferiram fundos a ativos percebidos como portos seguros, entre os quais títulos, estimulados por uma lista cada vez mais longa de medos interconectados. 

"Não existe dúvida de que o risco de recessão vem crescendo em meio a uma nova escalada dos conflitos comerciais", disseram os estrategistas do banco BNP Paribas.

Em um novo sinal de fuga rumo aos títulos, o papel de 30 anos do Tesouro dos Estados Unidos teve uma queda de rendimento para apenas 1,96%, sua mais baixa marca em uma série histórica iniciada na década de 1970, e a primeira vez que ele caiu abaixo dos 2%. 

O título de 30 anos do Reino Unido também estabeleceu um novo recorde, caindo abaixo de 1% pela primeira vez.

Em Wall Street, as ações dos Estados Unidos subiram depois do anúncio de números superiores aos esperados quanto às vendas do varejo americano e de uma perspectiva melhor que a esperada para o gigante setorial Walmart, que ofereceram algum alívio a investidores preocupados com a saúde da maior economia do mundo. 

O índice S&P 500, a referência do mercado americano, subiu 0,2%, porque o otimismo quanto ao varejo trouxe alta às ações de bens de consumo e compensou a fraqueza do setor de energia. 

 

O índice composto Nasdaq, no qual a tecnologia tem peso maior, registrou leve queda, e o Dow Jones subiu 0,3% depois de sofrer seu pior dia do ano na quarta-feira.

O gatilho para os movimentos desta semana no mercado de títulos foram os números fracos de duas economias expostas ao comércio internacional, Alemanha e China, o que despertou medo de uma desaceleração mundial.

Isso levou os rendimentos dos títulos americanos e britânicos de dez anos a cair abaixo do rendimento de títulos de vencimento mais curto pela primeira vez desde a crise financeira —a inversão de seu relacionamento normal historicamente parece prenunciar recessões e restringe a lucratividade dos bancos. 

A curva de rendimentos continuava invertida na noite desta quinta, em Londres.

"Há muitos sinais no mercado sugerindo que há diversos motivos para preocupação", disse Matt Cairns, estrategista de juros do Rabobank.

Tipicamente, os títulos de dívida com vencimento mais longo são negociados com rendimentos mais altos, para compensar os investidores pelo risco de deter a dívida. 

A inversão da curva em geral é vista como forte sinal de que os investidores estão antecipando uma desaceleração econômica.

"As grandes economias do planeta estão rangendo ao peso das preocupações comerciais cada vez mais graves, com cada novo dado se aproximando de uma desaceleração mundial que as autoridades monetárias em geral não terão como compensar", disse Cairns.

Pra agravar os temores dos investidores, Pequim acusou os Estados Unidos de "severa violação" de acordos comerciais anteriores, em razão dos planos de Washington de impor tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses. 

 

O Ministério das Finanças chinês anunciou que "a China terá de tomar as contramedidas necessárias".
Os títulos de dívida de países com classificação positiva de crédito como Alemanha, Estados Unidos e Suíça subiram de forma especialmente forte, um sinal de seu status como portos seguros em momentos de incerteza. 

O índice Barclays que acompanha esses países mostra retornos de cerca de 7% neste ano, incluindo altas de preços e pagamentos de juros, o que os deixa a caminho do segundo melhor desempenho registrado nos dez anos transcorridos desde a crise financeira.

O rendimento dos papéis do índice agora caiu a 0,71%, ante mais de 1,6% no fim do ano passado, em um sinal de que os administradores de fundos agora precisam pagar pela segurança dos título soberanos.

A continuação da alta nos títulos de dívida elevou o estoque mundial de dívidas com juros negativos a mais de US$ 16 trilhões na quarta-feira, pela primeira vez; a marca dos US$ 15 trilhões havia sido excedida pela primeira vez há apenas dez dias. 

No fim do ano passado, o valor de mercado dos títulos com rendimento abaixo de zero —ou seja, que garantem prejuízo aos investidores caso estes os detenham até o vencimento— era de cerca de US$ 8 trilhões.

Os mercados de ações asiáticos caíram, acompanhando o recuo de Wall Street na véspera, de 3%. O índice japonês Topix recuou em 1%.

Julia Moura, Philip Georgiadis, Adam Samson, Matthew Rocco e Alice Woodhouse

Com o Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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