Lista de financiamento de jatos pelo BNDES gera crítica

Funcionários do banco e tomadores de crédito veem uso político em divulgação

Nicola Pamplona
Rio de Janeiro

A divulgação, pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), de lista com 134 contratos de financiamentos a jatos executivos gerou críticas sobre uso político pelo governo de informações do banco de fomento.

Em redes sociais, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), classificou como “oportunismo” a associação de empréstimo tomado por sua empresa a “algo errado”. 

A AFBNDES (Associação dos Funcionários do BNDES) reclama do uso dos dados de financiamentos para atacar adversários políticos do presidente Jair Bolsonaro.

A empresa Doria Administração de Bens, do governador paulista, é uma das 134 citadas na lista divulgada na segunda-feira (19) pelo banco, com um empréstimo de R$ 44 milhões. Ao todo, elas tomaram R$ 1,9 bilhão em juros subsidiados ara a compra de jatos executivos.

Jato Embraer Phenom, semelhante ao utilizado por Luciano Huck - 9.out.17/Reuters

Os empréstimos foram concedidos pelo PSI (Programa de Sustentação do Investimento), criado sob Lula para tentar manter a economia aquecida após a crise de 2008.

Segundo o BNDES, o custo com os subsídios a financiamentos de aeronaves executivas chega a R$ 693 milhões, em valores corrigidos. O banco reconhece, porém, que os contratos seguiram o arcabouço legal vigente.

Além de Doria, o governo ressaltou a presença na lista de empresa do apresentador Luciano Huck, que na semana passada disse que Bolsonaro não representa um novo ciclo, mas é “parte do caos”.

“Se ele comprou jatinho, ele faz parte do caos”, disse Bolsonaro após as críticas do apresentador, que recebeu empréstimo de R$ 17,7 milhões para a compra de um jato executivo por meio da empresa Brisair.

A possibilidade de divulgação dos financiamentos para jatos executivos foi anunciada na quinta-feira (15) pelo presidente Jair Bolsonaro, como uma das medidas para “abrir a caixa-preta” do banco estatal, uma de suas promessas de campanha.

A lista inclui diversos tipos de empresa, desde companhias de táxi aéreo a grupos com atuação na construção, no agronegócio e no varejo —como o grupo Riachuelo, de Flávio Rocha, que apoiou Bolsonaro na campanha.

Os contratos foram assinados entre 2009 e 2014, com juros variando de 2,5% a 8,7%, enquanto a taxa Selic oscilou de 8,2% a 10,9% no período. A diferença era bancada pelo Tesouro Nacional.

“Alguns oportunistas tentam associar um financiamento que realizei junto ao BNDES para a compra de uma aeronave, totalmente dentro das regras que o banco estabelece, como se tivesse feito algo errado”, escreveu Doria.

O governador criticou a divulgação da lista e recomendou que o BNDES “focasse os bilhões emprestados pelo BNDES para obras de desenvolvimento em países ‘companheiros’ durante a gestão do PT no governo federal e que nunca foram pagas”.

Em nota, Huck também defendeu que o empréstimo tomado por sua empresa seguiu as regras estabelecidas. “Fizemos um empréstimo transparente, pago até o fim, sem atraso. Tudo como manda a lei”, afirmou. 

“Milhares de operações financeiras como essa foram realizadas, com único objetivo de estimular a produção, a aquisição e a comercialização de bens, máquinas e equipamentos produzidos no Brasil”, segue o apresentador.

O vice-presidente da AFBNDES, Arthut Koblitz, defende que a inclusão de jatos no PSI teve o objetivo de incentivar a compra de aeronaves da Embraer, num momento em que a empresa entrava nesse mercado.

“Não é que [a gestão do banco] está contando mentiras, mas está contando as coisas sem contexto, o que não contribui para informar o público”, afirmou. 

“Pode-se discutir a política, mas não faz sentido dizer que é para ‘amigos do rei’.”

A abertura da “caixa-preta” do BNDES foi uma das promessas de campanha de Bolsonaro e um dos motivos para a saída do primeiro presidente do banco sob sua gestão, Joaquim Levy.

Ele pediu demissão em 16 de junho, um dia depois de Bolsonaro dizer em entrevista que estava “por aqui” com o executivo, que havia nomeado Marcos Barbosa Pinto, ex-colaborador de gestões petistas no BNDES, para uma diretoria no banco de fomento.

Foi substituído por Gustavo Montezano, amigo da família Bolsonaro que ocupava um cargo no Ministério da Economia. Ao anunciar a indicação, Bolsonaro frisou que uma de suas prioridades seria abrir a caixa-preta —referindo-se especificamente a empréstimos concedidos a países como Cuba e Venezuela. 

“[Vamos] explicar tudo o que tiver, abrir toda a informação que o brasileiro quiser ver. E aí vamos virar essa página”, disse Montezano em sua posse.

Para a AFBNDES, porém, a iniciativa vem sendo usada de forma política pelo governo. “Estão usando os mitos do BNDES para combater adversários políticos do presidente”, disse Koblitz.

Colaborou Mônica Bergamo, de São Paulo
 

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