Macri eleva salário mínimo e pede desculpas por ataque a oponente

Pacote visa aliviar efeitos da disparada do dólar após vitória de kirchenrista em eleição primária

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, anunciou nesta quarta-feira (14) um pacote de novas medidas que buscam aliviar os efeitos da turbulência financeira deflagrada após a sua derrota nas prévias eleitorais no domingo (11).

Em uma delas, o congelamento do preços dos combustíveis, voltou atrás horas depois do anúncio, após queixas das empresas petrolíferas. As outras medidas, como bônus para trabalhadores, contrariam o receituário liberal de Macri e foram mal recebidas pelos investidores. 

Num dia de instabilidade nos mercados globais, o peso foi duramente afetado. Recuou 6,86% diante do dólar --a moeda dos Estados Unidos terminou o dia a 59,01 pesos. A Bolsa viveu mais um dia de retração e fechou com queda 1,4%.

A ideia com os anúncios é minimizar a inflação.

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, anunciou nesta quarta-feira(14) uma série de medidas econômicas com as quais busca trazer " alívio para 17 milhões de pessoas " - Reprodução

Entre as medidas divulgadas, estão um aumento de 25% do salário mínimo (atualmente é de US$ 225, ou cerca de R$ 902) e de 40% para os que recebem a bolsa "progresar" (progredir), voltada a estudantes, e para os que recebem a Asignación Universal por Hijo (uma espécie de bolsa-família criada durante o kirchnerismo).

À noite, porém, apenas 11 horas depois do anúncio, Macri voltou atrás no congelamento de combustíveis por 90 dias.

Macri disse que, nos próximos dias, haverá anúncios de quanto será a redução de impostos para a população de baixa renda e sobre um plano para ajudar as pequenas e médias empresas que consistiria em reduzir suas obrigações na Afip (Receita Federal).

Por enquanto, o presidente afirmou que aumentará o piso do Imposto de Renda em 20%, abrindo caminho para um corte de impostos para 2 milhões de trabalhadores. 

"São medidas que trarão alívio para 17 milhões de trabalhadores e suas famílias", disse Macri em uma mensagem gravada antes da abertura dos mercados. As mudanças custarão cerca de R$ 2,7 bilhões ao país, segundo o governo.

Macri e seu oponente, o candidato Alberto Fernández, conversaram por telefone nesta quarta. O clima tenso entre os dois foi aliviado e, em seguida, Macri publicou em rede social: "Fernández prometeu colaborar em tudo o que for possível para que o processo eleitoral e a incerteza política gerada afetem a economia o mínimo possível". 

Pouco antes, o candidato havia dito que Macri deveria permanecer no governo "até o último dia" e que o presidente teria a sua ajuda para assegurar que seu mandato não fosse questionado. 

O anúncio das medidas foi feito pelo presidente após fazer uma mea-culpa do tom adotado na segunda-feira (12), um dia depois da derrota nas primárias.

Com outro semblante e sem mostrar a irritação daquele dia, disse com firmeza e tranquilidade que queria "pedir desculpas pelas expressões" que usou na ocasião.

Macri foi muito criticado por analistas e nas redes sociais por tentar assustar as pessoas com a ameaça kirchnerista e por sugerir que a culpa de que o dólar e as ações argentinas se descontrolassem era dos eleitores que votaram em Fernández.

Medidas tomadas por Macri para conter crise na Argentina

  1. Congelamento do preço do combustível por 90 dias

  2. Aumento de 25% do salário mínimo (atualmente é cerca de R$ 902)

  3. Aumento de 40% de bolsa "progresar" (progredir), voltada a estudantes

  4. Aumento de 40% de Asignación Universal por Hijo (espécie de bolsa-família criada durante o kirchnerismo)

  5. Aumento de piso do imposto de renda em 20%, o que pode cortar impostos para 2 milhões de trabalhadores

  6. Plano para ajudar pequenas e médias empresas, como redução de obrigações junto à receita federal (mais detalhes ainda serão anunciados)

"Quero que saibam que respeito profundamente a decisão dos argentinos". E acrescentou: "Tive dúvidas de convocar a coletiva de segunda porque ainda estava muito impactado pelo resultado da eleição, estava sem dormir e estava triste. Mas volto aqui hoje para que tenham certeza de que eu os entendi."

A vitória da oposição nas primárias fez a Bolsa de Buenos Aires despencar 37% na segunda e o peso argentino se desvalorizar 17%. Na terça-feira (13) a Bolsa se recuperou um pouco e subiu 10,76%, mas o peso voltou a cair

Fernández, negou que avalie colaborar com o governo daqui até outubro.

"Eu sou apenas um candidato, o presidente é Macri, ele que se encarregue de resolver essa crise econômica que seu governo criou."

E acrescentou: "Não vou dialogar com ele, com Wall Street, com a CGT [central sindical] nem com os bancos. Quem tem de governar é Macri, que criou essa situação toda. Não sou nem mesmo o presidente eleito."

Esta quarta foi o terceiro dia consecutivo de grandes perdas no peso, devido às preocupações sobre a capacidade dos políticos de tirar a Argentina de outra rodada de recessão e inflação alta.

As vendas de mercadorias, que vão de carros a alimentos e produtos de beleza, diminuíram devido ao declínio do peso, já que os fornecedores têm retido os embarques enquanto tentam calcular como a moeda mais fraca afetará os preços ao consumidor.

 
 
 
 

Com agência Reuters e AFP

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