Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Marcas como Timberland, Vans e Kipling avaliam suspender compra de couro brasileiro

Entidade do setor enviou carta ao ministério do Meio Ambiente pedindo atenção ao tema

Arthur Cagliari
São Paulo

Mais de 18 marcas internacionais, como Timberland, Vans e Kipling, avaliam suspender a compra de couro brasileiro devido às notícias relacionando as queimadas na região amazônica com o agronegócio no país, segundo informações do CICB (Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil).

“Recentemente, recebemos com muita preocupação o comunicado de suspensão novas de compras de couros a partir do Brasil de alguns dos principais importadores mundiais. Este cancelamento foi justificado em função de notícias relacionando queimadas na região amazônica ao agronegócio do país”, disse o presidente da CICB, José Fernando Bello, em documento enviado ao ministério da Agricultura na noite de terça-feira (27).

Entre as marcas que já teriam solicitado a suspensão de compra, segundo a carta enviada ao governo pelo CICB, estão Timberland, Dickies, Kipling, Vans, Kodiak, Terra, Walls, Workrite, Eagle Creek, Eastpack, JanSport, The North Face, Napapijri, Bulwark, Altra, Icebreaker, Smartwoll e Horace Small.

No conjunto, as marcas integram o portfólio da VF Corporation, grupo com sede nos Estados Unidos que atua há mais de cem anos no setor de vestuário e tem forte presença no mercado de calçados.

“Entendemos com muita clareza o panorama que se dispõe nesta situação, com uma interpretação errônea do comércio e da política internacionais acerca do que realmente ocorre no Brasil”, afirmou Bello na carta.

No documento, ele também pede ao ministério uma atenção especial à situação a qual o setor enfrenta, afirmando que é “inegável a demanda de contenção de danos à imagem do país no mercado externo sobre as questões amazônicas”.

À Folha, Bello disse, na manhã desta quarta-feira (28), que as marcas não fizeram o cancelamento das remessas já acertadas, mas solicitaram aos curtumes uma garantia de rastreabilidade, e novos pedidos não devem ocorrer até que os esclarecimentos sejam prestados.

“Claro que enquanto isso não estiver esclarecido, eles não vão colocar novos pedidos”, afirmou.

A Folha conversou com a assessoria da VF Corporation, na Suiça, e acionou representantes das marcas no Brasil para obter um posicionamento. Até a conclusão desse texto não recebeu respostas. 

A reportagem ainda entrou em contato com o ministério do Meio Ambiente para saber se alguma medida foi ou deverá ser tomada e também não obteve resposta.

Nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro disse a tarde que as exportações seguem normais e que o CICB teria negado a suspensão.

Em nova entrevista à reportagem, o presidente do CICB reafirmou o posicionamento, disse que não voltou atrás e que novos pedidos ainda são incertos, mas minimizou o tom da mensagem enviada ao ministério.

“Não estou voltando atrás –até o pessoal escreveu dessa maneira, e eu fiquei chateado”, afirmou.

“Os pedidos que estão em andamento continuam. As negociações futuras vão depender de toda a continuidade do diálogo das marcas e dos curtumes. Talvez a gente tenha expressado de forma errada e muito forte que tenha havido suspensão e cancelamento. Na verdade, eles aventaram o pedido de suspensão.”

De acordo com Bello, esse questionamento é comum pelas marcas e os curtumes brasileiros têm certificações nacionais e internacionais que atendem tais demandas. Na sua avaliação, isso é uma medida só para controlar um tema que é muito discutido.

“Nada mais é do que uma preocupação deles porque esse assunto está muito quente. Então eles querem esclarecimento para dar continuidade aos pedidos”, afirmou.

O presidente da entidade disse ainda que a ideia da carta era mostrar ao ministério que há setores que estão tendo que responder internacionalmente sobre as questões relativas à Amazônia

“Para eles se sensibilizarem que tem uma cadeia toda envolvida nesse bioma. Uma cadeia organizada, não é uma cadeia clandestina. Nós exportamos 80% da produção de couro brasileiro.”

Para representantes do setor, que falaram na condição de anonimato, a percepção é que o CICB foi precipitado ao comunicar o problema para o governo. De fato, os curtumes ficaram assustados com a consulta dos clientes estrangeiros, que chegaram perguntar qual seria a posição da empresa em caso de suspensão das compras.

O setor de couro amarga um período de intensa queda nos preços e a possibilidade de perda de compradores deixou as empresas apreensivas.  

Segundo dados do ministério da Economia, as exportações de couros e peles referentes ao mês de julho de 2019 atingiram o valor de US$ 84,2 milhões (R$ 350 milhões).

Entre janeiro e julho, o principal destino do produto foi a China, com 23,7% do total das exportações, seguido pela Itália, com 17,3%, e Estados Unidos, com 16,6%. 

A compra de couro está caindo, e a baixa demanda vem derrubado o preço do produto no mercado internacional, segundo o presidente-executivo da AIC Sul (Associação de Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul), Moacir Berger. 

“Você vê hoje, por exemplo, calçados no Brasil e no exterior com produtos alternativos que não couro”, disse.

“Com a baixa demanda, os preços do couro no mercado internacional caíram 30% desde o começo do ano”.

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