Bolsa de Buenos Aires cai 37% e dólar supera R$ 4 com eleição na Argentina

Vitória de chapa kirchnerista em primárias assusta investidores; juro no país vizinho vai a 74%

Júlia Moura Sylvia Colombo
São Paulo e Buenos Aires

A ampla vitória da chapa kirchnerista, de esquerda, nas primárias argentinas para a eleição presidencial de outubro surpreendeu investidores, derrubou a Bolsa de Valores e fez o dólar disparar nesta segunda-feira (12) na Argentina, arrastando o mercado brasileiro.

Argentinos votaram no domingo (11) em uma prévia eleitoral, que funciona como uma nota de corte para definir candidatos com chances de vender a eleição.

Entre os líderes da disputa estavam o atual presidente, o liberal Mauricio Macri, e a chapa kirchnerista, liderada por Alberto Fernández e que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como vice.

O mercado financeiro já esperava uma derrota de Macri, mas com uma diferença menor entre as chapas, de 3 a 5 pontos percentuais. 

A distância de cerca de 15 pontos nas primárias sinalizou que a eleição de Fernández pode ocorrer no primeiro turno —o que desencadeou uma reação negativa instantânea. O índice Merval, o principal da Argentina, despencou 37,35%. O peso se desvalorizou 17%.

No Brasil, o Ibovespa recuou 2%, indo a 101.915 pontos no fechamento do pregão, mas no pior momento caiu 2,3%. A moeda brasileira sofreu contágio. Chegou a ser negociada acima dos R$ 4 pela manhã. O dólar acabou fechando com alta de 1%, a R$ 3,985, maior patamar desde maio. 

O governo argentino agiu para tentar conter danos sobre a economia. O banco central subiu a taxa básica do país em dez pontos percentuais, levando o juro a 74% ao ano. Também leiloou US$ 105 milhões (R$ 417,9 milhões) para suavizar a alta do dólar.

Conseguiu, com isso, segurar a desvalorização: do pico de 62 pesos por dólar caiu para 53 pesos por dólar, segundo a agência Bloomberg.

Foi a primeira vez que o banco central argentino usou suas próprias reservas para conter a desvalorização do peso desde setembro de 2018. Leilões de dólares nos últimos meses foram realizados usando fundos do Tesouro.

Já a Bolsa argentina não conseguiu amenizar a queda, indo de 44 mil pontos para 28 mil pontos. 
Na sexta (8), o índice teve alta de 8% com a expectativa de investidores de que as primárias mostrariam uma disputa mais equilibrada. 

Na avaliação dos analistas no Brasil, a eventual volta do grupo de Kirchner ao poder na Argentina teria efeitos negativos para a economia de toda a região.

"Kirchner adotou um modelo econômico que praticamente afundou a economia para a crise em que ainda se encontra, nacionalizando empresas, manipulando dados oficiais e provocando repulsa aos investidores. O atual presidente Macri não foi capaz de trazer para a população o sentimento de poderia tirar o país dessa situação, e o resultado disso veio nas eleições primárias. Diferentemente do que vimos no resto do mundo, onde o "shy voter" (eleitor envergonhado) elegeu governantes mais de direita (Trump nos EUA ou Bolsonaro no Brasil), na Argentina esse eleitor virou peronista", diz relatório da Rico Investimentos.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, e a crise econômica no país tem prejudicado as exportações brasileiras

O candidato à presidência Alberto Fernández junto a candidata a vice, Cristina Kirchner, em comício em Rosário, na Argentina - Agustin Marcarian/Reuters

Na percepção dos analistas, além da piora no vizinho ameaçar a balança comercial brasileira, investidores estrangeiros estendem transferem o risco argentino para o Brasil, o que pode prejudicar o fluxo de capital do exterior.

Até sexta (8), o saldo de estrangeiros na Bolsa brasileira era negativo em R$ 4,7 bilhões. No ano, em R$ 15 bilhões.

"A principal questão agora é se Fernández vai mandar algum sinal de moderação para prevenir o colapso da moeda argentina e uma corrida aos bancos, que pode acontecer com a sua vitória", diz relatório do banco BTG Pactual

Ainda contribuíram para um cenário de aversão ao risco, dois conflitos envolvendo a China: a guerra comercial com Estados Unidos e os protestos em Hong Kong contra o governo chinês. 

O aeroporto de Hong Kong foi ocupado, e 199 voos foram cancelados. Em resposta, Pequim disse que as manifestações no território nos últimos dois meses começaram a mostrar "sinais de terrorismo" e pediu às autoridades que exerçam "punho de ferro" ao abordar o que chamam de "crime violento".

As principais bolsas de valores dos Estados Unidos fecharam em queda de mais de 1% nesta segunda em resposta ao aumento das tensões.

O índice Dow Jones caiu 1,49%, a 25.896 pontos, enquanto o S&P 500 perdeu 1,23%, a 2.883 pontos. O índice de tecnologia Nasdaq recuou 1,2%, a 7.863 pontos.

Todos os 11 principais setores do S&P 500 terminaram a sessão em território negativo, com os índices para os setores financeiro, de materiais básicos, de energia e de consumo discricionário sofrendo as maiores quedas percentuais.

"O mercado de ações está sofrendo uma onda de vendas porque o mercado de títulos está tendo um rali expressivo", disse Brian Battle, diretor de operações da Performance Trust Capital Partners, em Chicago. 

"Há uma fuga para segurança e há vários focos de incerteza políticas. As pessoas estão começando a desistir e a comprar títulos do Tesouro dos EUA para esperar. O ouro se beneficia", disse Battle.

O metal subiu 1%, perto da máxima em mais de seis anos. 

O spread entre as taxas dos Treasuries de dois e dez anos caiu ao menor patamar desde pelo menos 2010, de acordo com dados da Refinitiv.

O Goldman Sachs disse no domingo que seus economistas veem maiores riscos de recessão à medida que a guerra comercial EUA-China se arrasta. Ao longo da semana, dados de inflação, construções e vendas no varejo serão decisivos para balizar cenários.

 

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