Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Na luta de tarifas, China perde lugar de maior parceiro comercial dos EUA

Comércio bilateral com a China foi menor que o do Canadá e o do México pela primeira vez em mais de uma década

Paul Kiernan Anthony Debarros
Washington | The Wall Street Journal

A escalada das disputas tarifárias entre Washington e Pequim custou à China sua posição de principal parceiro comercial dos Estados Unidos no primeiro semestre do ano, com as exportações e importações entre as duas maiores economias em queda drástica.

As importações americanas da China caíram 12% nos primeiros seis meses de 2019 em relação ao ano anterior, enquanto as exportações diminuíram 19%, disse o Departamento de Comércio na sexta-feira (2) em um relatório mensal.

O valor total do comércio bilateral de bens com a China, de US$ 271,04 bilhões (R$ 1,04 trilhão) no primeiro semestre do ano, ficou aquém do realizado com o Canadá e o México pela primeira vez desde 2005. O México é hoje o principal parceiro comercial dos EUA.

 

O declínio nos fluxos comerciais atingiu os lucros dos agricultores e multinacionais dos Estados Unidos e fez os importadores lutarem para reorganizar cadeias de fornecimento globais e complexas em eletrônicos, maquinário e matérias-primas.

O documento também destaca o impacto crescente do esforço do presidente Donald Trump para negociar melhores condições para as empresas americanas na China e reduzir o deficit comercial dos EUA.

Em meio a um lento progresso nas negociações com Pequim, Trump anunciou na quinta-feira (1º) tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses que —ao contrário das rodadas anteriores de tarifas— incluem produtos populares como roupas, brinquedos e celulares.

"Nos últimos 20 anos, a China tem tirado centenas de bilhões de dólares do nosso país", disse Trump a repórteres na quinta-feira (1º). "Até que haja um acordo, vamos tarifá-los."

As novas tarifas, que deverão vigorar a partir de 1º de setembro, vão além das impostas no ano passado pelo governo Trump sobre US$ 250 bilhões (R$ 968,3 bilhões) de produtos chineses. Essas tarifas, muitas das quais foram elevadas em junho, desencadearam medidas de retaliação por parte da China.

Pequim respondeu a rodadas anteriores de tarifas norte-americanas elevando seus impostos de importação, aumentando o escrutínio regulatório sobre as empresas americanas na China e diminuindo as compras de produtos americanos —especialmente os produzidos em áreas dos Estados Unidos que apoiaram Trump nas eleições de 2016.

Os Ministérios de Relações Exteriores e do Comércio da China afirmaram na sexta-feira que o governo tomará as contramedidas necessárias se o governo Trump avançar com sua mais recente ameaça tarifária, embora nenhum dos órgãos forneça detalhes. 

Executivos de empresas e analistas dizem que os alvos fáceis para a China podem incluir o cancelamento de encomendas de companhias aéreas à Boeing, ou sanções à empresa de entregas FedEx, que já está sendo investigada pelas autoridades chinesas.

A disputa tarifária, juntamente com o arrefecimento do crescimento econômico global, contribuiu para uma estagnação nas exportações totais dos EUA para o mundo e um aumento contínuo do deficit comercial.

O Departamento de Comércio informou nesta sexta-feira que o déficit comercial total dos EUA aumentou 7,9% no primeiro semestre de 2019 em relação ao ano anterior, para US$ 316,33 bilhões (R$ 1,22 trilhão).

 

Alguns funcionários do governo veem as tarifas como uma ferramenta de curto prazo para negociar melhores condições de comércio para as empresas americanas, embora muitos executivos de firmas estejam começando a se preparar para uma disputa prolongada. Trump e seus assessores dizem que o fato de a China vender mais para os EUA do que vice-versa lhes dá vantagem nas discussões.

"Se eles não quiserem mais negociar conosco, tudo bem para mim", disse Trump na quinta-feira. "Economizaremos muito dinheiro."

Muitos economistas contestam a visão de Trump de que os déficits comerciais são inerentemente ruins, já que eles geralmente refletem condições econômicas contrastantes nas economias abertas. No entanto, uma diferença crescente subtrai do crescimento econômico dos EUA, e o comércio exterior pesou no Produto Interno Bruto americano em três dos últimos quatro trimestres.

A economia dos EUA, no entanto, cresceu mais rapidamente do que outras grandes economias desenvolvidas neste ano e meio, enquanto a economia global arrefeceu. Isso impulsionou a demanda dos EUA por importações e a demanda dos estrangeiros deprimidos por exportações americanas.

 

As importações para os EUA aumentaram 1,5% no período de janeiro a junho em relação ao ano anterior, para US$ 1,568 trilhão.

As exportações, entretanto, ficaram praticamente estáveis no primeiro semestre do ano, em US$ 1,252 trilhão (R$ 4,84 trilhões). Excluindo os serviços, as remessas de mercadorias produzidas por agricultores e manufaturas americanos caíram, já que a China reduziu as compras dos EUA, enquanto o crescimento global desacelerou.

O declínio nas importações da China foi mais do que compensado pelo crescimento nas compras de outros países. As importações americanas do Vietnã, que capturou a produção com baixos salários da China mesmo antes das tarifas de Trump, aumentaram 33% no primeiro semestre do ano. As compras pelos EUA do Japão, Coreia do Sul, México e Europa também aumentaram no período.

Em consequência, a participação da China no mercado dos EUA está em ritmo de queda para o menor nível desde 2008. O país do Leste Asiático respondeu por 13,2% do comércio total de bens —importações mais exportações— no primeiro semestre de 2019, segundo mostram dados de sexta-feira, atrás do México, com 15%, e do Canadá, com 14,9%.

Tradução por Luis Roberto Mendes Gonçalvez

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