Promessa de privatização faz cotação de estatais disparar na Bolsa

Com leilão de BC e exterior positivo, dólar recua para R$ 4,03

Júlia Moura
São Paulo

A promessa do governo Bolsonaro de privatizar 17 estatais até o fim do ano fez as ações dessas empresas dispararam na Bolsa brasileira nesta quarta-feira (21). Além da lista que inclui Eletrobras e Telebras, a Petrobras também está nos planos de privatização.

Tal expectativa se somou a um dia positivo para o mercado financeiro e levou o Ibovespa aos 101 mil pontos, alta de 2%. O dólar também se beneficiou e recuou para R$ 4,03 no primeiro dia de leilões do Banco Central.

Logo da Petrobras na entrada da empresa em sua sede na avenida Paulista, região central de São Paulo.
Ações da Petrobras sobem mais de 5% nesta quarta (21) com expectativa de privatização - Fotoarena/Folhapress

Apesar de assessores no Palácio do Planalto indicarem que as vendas não devem ocorrer até o fim de 2019, porque os estudos não estão prontos, o ministro da Economia Paulo Guedes defende o prazo.

“Sabemos que mês que vem não teremos as estatais privatizadas, mas a sinalização de redução de dívidas do Estado já é muito positiva. O Guedes tem uma moral muito alta com o mercado, independente do que o presidente Bolsonaro faça ou fale. O que o ministro diz, se toma como verdade e gera reações muito positivas”, afirma Rodrigo Franchini, sócio e head de produtos da Monte Bravo.

Dentre as companhias, está a Eletrobras, que deve seguir o modelo de privatização proposto pelo governo de Michel Temer (MDB-SP). 

As ações da elétrica abriram o pregão em alta de 2,6% e dispararam após a declaração do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) de que vai tentar votar o mais rápido possível o projeto de lei sobre a venda da Eletrobras, mas ressaltou que o empenho depende de o governo enviar nova proposta.

Com a fala de Maia, os papéis chegaram a subir 14,4%. Ao fim do pregão, os ordinários, com direito a voto, fecharam em alta de 12,6%, a R$ 45. Os preferenciais, com prioridade na distribuição de dividendos, subiram 10,8%, a R$ 44,61. Ambos são a máxima histórica.

As ações preferenciais da Telebras, que também consta na lista do governo, saltaram 62%, a R$ 36,90, longe da máxima histórica de R$ 315,17 de 1997. As ordinárias dispararam 65%, a R$ 39,39, também distante do pico de R$ 399,80 de 2012.

Fora da lista, mas dentro das intenções do governo, a Petrobras e o Banco do Brasil tiveram fortes altas. As ações preferenciais da petroleira saltaram 5,95%, a R$ 25,45. As ordinárias, 5,7%, a R$ 27,90. Já os papéis do banco subiram 5,7%, a R$ 47,35.

Ainda nos destaques positivos, empresas do setor de construção tiveram altas expressivas  após anúncio de novo financiamento imobiliário da Caixa, indexado à inflação. Cyrela subiu 8%, Even, 6,5%, MRV, 6% e Eztec, 4,7%. 

Puxado pela Petrobras e Banco do Brasil, o Ibovespa teve alta de 2%, a 101.201 pontos, maior patamar em uma semana. O giro financeiro foi de R$ 18,2 bilhões, acima da média diária para o ano.

O bom desempenho do mercado de ações brasileiro foi impulsionado pelo dia positivo no exterior, que se recuperou das quedas da véspera. Londres subiu 1% e Frankfurt, 1,3%. Em Nova York, Dow Jones e Nasdaq subiram 0,9% cada um e S&P 500, 0,8%. 

Nesta quarta, foi divulgado a ata da última reunião de política monetária do Fed, banco central americano, quando a instituição cortou a taxa de juros em 0,25 ponto percentual. 

O documento mostra que os membros do colegiado debateram cortar os juros de forma mais agressiva em julho, embora tenham permanecido unidos no desejo de evitar parecerem estar em uma trajetória de mais cortes de juros.

A ata também indica uma ampla preocupação entre as autoridades sobre a desaceleração da economia global, tensões comerciais e inflação fraca.

Como a reunião foi antes da piora nas relações entre China e Estados Unidos e inversão da curvas de juros americanas, com um cenário bem mais ameno, o mercado financeiro não se atentou ao documento e ainda acredita em novos cortes de juros este ano.

Dessa forma, o mercado está com grandes expectativas para o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, no evento no simpósio econômico anual em Jackson Hole, no estado americano de Wyoming. A fala, marcada para 11 horas (horário de Brasília) desta sexta (23), pode sinalizar uma mudança de postura da instituição, de modo a reverter o panorama econômico de desaceleração. 

No Brasil, o Banco Central fez o primeiro leilão à vista de dólares em dez anos nesta quarta. Foram ofertados US$ 550 milhões, mas apenas US$ 200 foram vendidos. Nos swaps cambiais, foram arrematados 4 mil dos 11 mil contratos disponibilizados.

A sobra sugere que a demanda pela moeda pode ser menor que o especulado pela instituição. 

“É estranho porque geralmente é o contrário, com maior demanda que oferta. O mercado ficou surpreso, pois hoje tivermos a clara demonstração de que não há escassez de dólar. As pessoas não estão desesperadas pela moeda americana”, diz Franchini.

Segundo o analista, a diferença entre o montante disponibilizado e o comprado é muito grande para ter sido gerada por ofertas mais baratas do que o BC estava disposto a aceitar.

Já Mauriciano Cavalcante, gerente de câmbio da Ourominas, discorda.

Para ele, a baixa adesão se deve a alta cotação do dólar, com expectativa dos compradores que a moeda caia abaixo de R$ 4 nos próximos dias.

Segundo Cavalcanti, o efeito do leilão na cotação desta segunda foi reduzido.

“O real teve uma valorização de 0,7%, com impacto do leilão estimado em 0,1%. Os outros 0,6% vieram do otimismo externo e anúncio de privatização das estatais”, afirma.

No fechamento do pregão, o dólar caiu 0,5% em relação ao real, a R$ 4,031.

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