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Tensões comercias entre China e EUA escalam fortemente

Trump ignora as vicissitudes do sistema empresarial e jurídico da China

Roberto Dumas Damas
São Paulo

E a tensão comercial entre Estados Unidos e China não para de escalar.

Não adianta oferecer argumentos econômicos provados e evidências empíricas sobre a importância do comércio internacional para a maioria da população.

Parece ainda que alguns líderes não entenderam a importância da história e/ou negligenciam achando que a globalização não passa de um jogo ganha ou perde do tipo “O Aprendiz”.

Na sexta-feira (2) em um ímpeto equivocado, Donald Trump anunciou que aplicaria 10% de tarifas sobre US$ 300 bilhões (R$ 1,18 trilhão) de importações vindas da China, a partir de 1° de setembro, além dos 25% de tarifas sobre os remanescentes US$ 250 bilhões (R$ 985 bilhões) da quase totalidade das importações americanas vindas daquele país.

Já no fim de semana, Pequim respondeu permitindo que sua moeda depreciasse atingindo a maior cotação desde 2008, ou 7,0352 Yuans por dólar.

Comportando-se como um parceiro que acredita ganhar uma guerra comercial por ser deficitário, os EUA já alertaram que poderiam subir a alíquota de 10% sobre os US$ 200 bilhões (R$ 788 bilhões) importados da China para 25%.

Imaginem a expectativa dos agentes econômicos americanos que dependem das cadeias de suprimento para produzirem seus produtos finais nos EUA? Péssima notícia por duas razões:

1) Ao impor maiores tarifas sobre as importações chinesas, as empresas estrangeiras ou chinesas que estão localizadas na China mudarão suas plantas para outros países como Vietnã, Índia ou Camboja. 
No fim, Trump trocará um déficit com a China, por vários déficits em vários países.

2) Desenvolver um novo fornecedor ou cadeia de fornecedores, ainda por cima localizados em países diferentes, com regras trabalhistas e interpretações de qualidades diferentes não ocorre da noite para o dia. 

Sabemos que o processo é custoso, demorado e complexo até que os novos fornecedores compreendam o nível de qualidade exigido.

Sabendo dessa complexidade e demora em todo o processo de desenvolvimento de novas supply chains, aliado a perspectiva de que o presidente Trump possa voltar atrás em suas retóricas protecionistas ou intensificá-las, como deverá estar agora a confiança dos empresários em relação a possibilidade de novos investimentos em formação bruta de capital com essa espada de Dâmocles sobre suas cabeças?

Trump ainda erra por outra razão ao acreditar que países superavitários sempre perdem uma batalha comercial.

Ao entrar em uma escalada de tensão com a China, Trump ignora as vicissitudes do sistema empresarial e jurídico da China.

As leis existem, mas diferentemente do Ocidente, são absurdamente abertas a diversas interpretações, pois assim o PCChinês deseja.

O que no final poderia parecer uma jogada de mestre para favorecer as empresas americanas poderá se tornar a receita ideal para transformar a vida das empresas americanas localizadas na China cada vez mais difícil.

Mas por que os impactos nas Bolsas, nos preços de commodities e como o Brasil pode ser afetado positiva e negativamente com essa escalada de tensões?

Se as duas maiores economias do planeta apresentarem crescimentos menores do que esperado, a demanda por commodities metálicas e a performance das principais empresas certamente serão afetadas negativamente.

no caso do Brasil, ao retaliar os produtos agrícolas dos EUA, a China acaba de abrir mais uma vez uma enorme janela de oportunidade para os setores de agribusiness, como soja e proteína animal.

Por outro lado, em que pese o avanço das reformas impetradas pelo Brasil como a da Previdência, discussão da reforma tributária, lançamento do novo mercado de gás, dificilmente veremos o rabo abanando o cachorro, prova disso reflete-se na depreciação de nossa moeda que hoje atingiu R$ 3,96.

Roberto Dumas Damas, professor de economia chinesa no Insper

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