Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Advogados da Nissan indicam possíveis conflitos de interesses na investigação de Ghosn

Procurador-geral diz ao conselho da montadora que conflitos 'criam exposição e risco para a empresa'

The Wall Street Journal

Advogados da Nissan Motor Co. levantaram preocupações de que a investigação da empresa sobre o ex-presidente Carlos Ghosn seja marcada por conflitos de interesses envolvendo um executivo da Nissan e o escritório de advocacia externo da montadora, a gigante americana Latham & Watkins LLP, segundo pessoas familiarizadas com suas preocupações.

O procurador-geral Ravinder Passi alertou os diretores da Nissan entregando-lhes uma carta quando se reuniram em 9 de setembro para revisar os resultados da investigação, segundo pessoas que participaram da reunião em Yokohama, no Japão.

"Acredito que essas questões geram preocupações substanciais, e que essas questões virão à tona no devido tempo, criando exposição e risco para a empresa", escreveu Passi em sua carta, que foi lida para "The Wall Street Journal".

As preocupações destacadas por Passi se concentram em Hari Nada, vice-presidente sênior da Nissan que supervisiona seu departamento jurídico, e a Latham & Watkins, que conduziu a investigação interna da montadora japonesa sobre supostas irregularidades cometidas por Ghosn e outros.

Nada faz parte de um grupo de executivos da Nissan que apresentaram denúncias contra Ghosn no ano passado, segundo pessoas da Nissan inteiradas da investigação. Suas denúncias levaram no ano passado à prisão e indiciamento do ex-presidente da Nissan por acusações de desvios financeiros --o que Ghosn negou.

Nada ajudou Ghosn em algumas das ações analisadas pelos investigadores e, posteriormente, concordou em cooperar com os promotores em troca de não ser acusado, segundo pessoas familiarizadas com as investigações da Nissan e os promotores. Por causa do acordo de Nada com os promotores, alguns na Nissan acreditam que ele deveria ter sido afastado dos assuntos jurídicos da empresa, disseram pessoas informadas sobre as preocupações de Passi e outros advogados da Nissan.

"Os executivos e funcionários da Nissan, incluindo Passi, estavam atentos ao risco de possíveis conflitos de interesses ao longo do processo de investigação", afirmou a empresa em comunicado por e-mail na segunda-feira. "Acreditamos que a investigação foi conduzida de forma rigorosa e apropriada."
As objeções de Passi e outros revelam a constante turbulência na montadora sobre a governança corporativa quase um ano após a prisão de Ghosn e depois da renúncia neste mês do executivo-chefe, Hiroto Saikawa.

Na segunda-feira (23), a Nissan concordou em pagar US$ 15 milhões em um acordo com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA pelo fracasso da empresa em relatar mais de US$ 140 milhões em honorários que seriam pagos a Ghosn após a aposentadoria. Ghosn concordou em pagar US$ 1 milhão para resolver a disputa.

O escritório de advocacia Latham, dos EUA, que tem um antigo relacionamento com a Nissan, assessorou a empresa em algumas das questões de governança atualmente sob escrutínio, incluindo a divulgação de remuneração de executivos, disseram pessoas familiarizadas com as preocupações internas. Para sua própria investigação, a Nissan deveria ter contratado um escritório de advocacia sem relação anterior com a empresa, a fim de se proteger até mesmo contra um aparente conflito de interesses, disseram essas pessoas.

"Desde o início e durante todo o trabalho, a Latham discutia regularmente o envolvimento da empresa na investigação interna com vários executivos da Nissan, incluindo Passi, e a empresa optou por continuar com o trabalho", disse um porta-voz da Latham.

A carta do procurador-geral revive a questão da responsabilidade pelo que a Nissan descreveu como má governança e remuneração inadequada sob a liderança de Ghosn. A Nissan diz que Ghosn foi o culpado e fez seus subordinados obedecerem, enquanto a carta de Passi sugere que persistem os problemas de governança na montadora japonesa. Ghosn disse que outros membros da empresa aprovaram suas ações.

No início de julho, Passi pediu a dois outros escritórios de advocacia, um com sede nos EUA e outro no Japão, para revisar os riscos de conflitos de interesses relacionados a Nada e à Latham. Em sua carta de 9 de setembro, Passi disse que suas preocupações aumentaram depois que um memorando das duas empresas não foi apresentado ao conselho completo.

O memorando foi enviado a Motoo Nagai, diretor do conselho encarregado de assuntos de auditoria, em 25 de julho, e Passi solicitou que fosse compartilhado com outros membros do conselho, afirma a carta de 9 de setembro. "Procurei em várias ocasiões verificar se o memorando foi compartilhado, embora não tenha recebido nenhuma confirmação positiva", escreveu Passi. O memorando foi anexado à sua carta ao conselho.

O memorando de quatro páginas concluiu que a Nissan deveria tomar medidas adicionais para garantir que as pessoas com conhecimento do possível erro investigado sejam mantidas afastadas da discussão de assuntos legais relevantes. O memorando dizia que essa era a melhor maneira de garantir "o maior grau de credibilidade, objetividade, imparcialidade e independência no processo de tomada de decisões da empresa".

Uma pessoa da Nissan que viu a carta de Passi considerou as conclusões do memorando muito simplistas. "É certo que diz que precisamos estar atentos a conflitos de interesses, mas já estávamos", disse essa pessoa. Nada foi recusado na investigação a partir de abril e não está envolvido desde então, disse essa pessoa. A Latham não está examinando nenhum conselho que forneceu à Nissan, e a maioria dos advogados da Latham que conduziram a investigação não tinham conexão com a empresa, disse essa pessoa.

Outros afirmaram que Nada continuou a influenciar questões jurídicas após sua recusa. Isso inclui a capacidade de ver que a Nissan contratou advogados trabalhistas para revisar possíveis multas para os funcionários da Nissan que ajudaram na suposta irregularidade de Ghosn, disse uma das pessoas.

Os diretores da Nissan receberam cartas anônimas de funcionários da empresa que refletem muitas das preocupações levantadas por Passi, segundo pessoas que viram as cartas. Muitas dessas cartas se opõem à continuação do papel de Nada na Nissan, disseram essas pessoas.

Em uma carta enviada em 19 de setembro, um funcionário da empresa escreveu que o papel de Nada na investigação havia sido reduzido em abril, mas isso não reduziu sua influência na empresa. "Ele esteve diretamente envolvido nos processos e atividades da diretoria (embora atuando através de subordinados)", escreveu essa pessoa.

Alguns funcionários da Nissan se preocupam com o que consideram uma renovação da governança emperrada, de acordo com cartas de reclamação vistas pelo "Wall Street Journal". Os funcionários foram incentivados a falar sobre problemas internos após a prisão de Ghosn, mas alguns deles estão preocupados com o fato de que as queixas internas não estejam chegando à diretoria através do sistema de denúncias da empresa, segundo pessoas familiarizadas com as queixas.

Passi disse em sua carta ao conselho que cópias de uma queixa apresentada aos diretores por meio do processo de denúncia foram recolhidas pelo departamento de recursos humanos das mesas dos secretários antes que chegassem aos diretores. Quando Passi perguntou por que as cópias não foram entregues aos diretores, foi informado de que era para permitir que um executivo de recursos humanos preparasse uma resposta à denúncia antes que ela fosse transmitida, de acordo com a carta dele.

"Em 30 de agosto, quase dois meses depois que as cartas foram enviadas aos diretores, entendo que essa correspondência ainda não chegou aos diretores relevantes", escreveu Passi. Uma pessoa familiarizada com a denúncia disse que ela tratava de um executivo da Nissan cujos problemas jurídicos anteriores já haviam sido tratados pela empresa.

A questão final levantada por Passi em sua carta ao conselho tratou da saída repentina no final de agosto de Christina Murray, que liderou a investigação de Ghosn como chefe de auditoria e conformidade da Nissan. Murray estava entre os advogados da Nissan que expressaram preocupação sobre possíveis conflitos envolvendo Nada, dizem pessoas familiarizadas com as opiniões dela.

Murray, que havia sido promovida a vice-presidente em maio, deveria apresentar as conclusões da investigação aos executivos da empresa e ao conselho no início de setembro. "Na minha opinião, o momento é muito incomum", escreveu Passi.

Em entrevista coletiva após a reunião do conselho administrativo da Nissan em setembro, Nagai, diretor do conselho encarregado de assuntos de auditoria, disse que Murray lhe havia dito em julho que desejava renunciar.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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