Crise da Amazônia é isolada e não afasta investidor estrangeiro, diz executivo da S&P

Ewout Steenbergen afirma que estabilidade política é importante para retomada do crescimento

Tássia Kastner
São Paulo

O vice-presidente executivo da S&P Global, Ewout Steenbergen, afirma que compromissos com questões ambientais e sociais, disseminados sob a alcunha de investimentos ESG (meio ambiente, social e governança, em português) serão cruciais para futuras decisões investidores, mas avaliou que a crise da Amazônia é um caso isolado e não seria suficiente para afastar estrangeiros do país.

Para ele, o crucial para o Brasil seria a retomada do crescimento para acima do 1% previsto para este e o próximo ano. Ele afirma, porém, que os gatilhos para a expansão da economia são atrelados às reformas, como a da Previdência, mas também à estabilidade política.

“Eu acredito que a estabilidade política em si é muito importante”, afirmou em entrevista à Folha.

Quais são os impactos para os negócios e para o mercado financeiro de uma crise ambiental como a vivida pelo Brasil? Essa é uma pergunta difícil porque a crise ainda está em andamento. O que eu penso que está claro é que o mundo está muito atento aos incêndios florestais na Amazônia, e eu não sei o que é fato, o que não é fato, então não quero me aprofundar. 

Ewout Steenbergen, vice-presidente executivo e diretor financeiro da S&P Global
Ewout Steenbergen, vice-presidente executivo e diretor financeiro da S&P Global - Karime Xavier/Folhapress

A questão chave é como o país cria maior crescimento econômico e como isso se converte em confiança dos investidores e dos consumidores, para que eles queiram fazer investimentos, construir novas fábricas, criar novos empregos e elevar os gastos. Finalmente, esses gatilhos serão disparados por estabilidade política. Então eu acho que uma questão sozinha não vai impactar, e que no longo prazo a previsibilidade e a estabilidade terão impacto maior.

Eu acredito que um incidente, isoladamente, é o que é.

Por que o Brasil tem tanta dificuldade de crescer? Nós esperamos crescimento de 1% neste ano. E se você olha para o mundo, o crescimento deve ser de cerca de 3%. 

O potencial é muito maior, mas acho que isso é consequência da grande recessão brasileira entre 2015 e 2016. 

O que os mercados estão olhando são as medidas do atual governo, o que ele está tentando fazer sobre política fiscal. E eu acredito que se o mercado enxergar que essas medidas estão avançando, a expectativa é que o crescimento será superior a 1%, o que é ainda é bem baixo. 

A reforma da Previdência não é o bastante? Nós acreditamos que a reforma da Previdência é importante, porque olhando para a relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto), ela estava em 50% há cinco anos e já está em 80%. Esse é um crescimento muito grande. É importante tê-la sob controle e criar condições para que o país pareça economicamente viável.

Mas eu preciso dizer que reformas previdenciárias são uma questão no mundo todo, muitos países estão enfrentando isso agora. O Brasil não é único. Em muitos países, a população está envelhecendo e os planos de aposentadoria atuais estão se tornando insustentáveis com o ambiente de juros baixos.

Mas o país deu ao menos o primeiro passo na direção das reformas e não há sinais de que a economia esteja se recuperando. Se olho para a análise de risco soberano, feita pelos nossos analistas, eu acredito que existem sinais claro do que ajudaria o rating brasileiro —que é BB- com perspectiva estável. 
Eles dizem que nos próximos anos pode haver um potencial para upgrade, mas isso está ligado às condições fiscais, se houver uma melhora no déficit, que ficará sob controle com a reforma da Previdência. E eu acredito que a estabilidade política em si é importante. E a combinação desses elementos dele criar um caminho de crescimento.

Investidores estrangeiros têm manifestado um aumento de risco ligado ao presidente Bolsonaro e à forma como ele faz política. Eu não posso comentar isso. Nós, como empresa, somos politicamente neutros. [Nossa avaliação] É sobre as realizações e medidas que estão sendo adotadas.

O que os investidores estão perguntando sobre o Brasil? Quando falamos com investidores é sobre temas diferentes. É sobre assuntos como ESG [sigla para investimentos que seguem princípios de sustentabilidade ambiental, social e de governança], fintechs e novos modelos de negócio que surgem com novas tecnologias, como inteligência artificial, novos usos de dados. Acredito que investidores também sabem que países atravessam fases e políticas ambientais também têm fases. 

Quando o ambiente econômico fica mais complexo, questões ambientais ainda são predominantes? Do nosso ponto de vista, isso não é um hobby. ESG será central nas decisões de investimento, central em como as companhias tomarão decisões.


Ewout Steenbergen, 50
É vice-presidente executivo e diretor financeiro da S&P Global, grupo responsável pela atribuição de ratings e também pelos índices da Bolsa americana.
Tem mestrado em ciências atuariais pela Universidade de Amsterdã e em administração de empresas pelas universidades de  Rochester e Nyenrode

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