Dólar recua 6% na Argentina após governo anunciar controle cambial

População faz fila para sacar moeda dos EUA, mas primeiro dia após medida termina sem distúrbios

Sylvia Colombo Mariana Carneiro
Buenos Aires

Após medidas severas do governo, que decretou o controle do câmbio no domingo (1º), o dólar caiu 5,8% nesta segunda (2). Foi a primeira desvalorização da moeda desde meados de agosto, antes da declaração da moratória parcial.

A cotação oficial do dólar fechou em 58,41 pesos. Já o paralelo (chamado de blue), negociado em casas de câmbio, subiu 0,79%, negociado a 63,50 pesos, indicando que ainda há muita incerteza, apesar da  intervenção forte do governo para segurar as cotações.  

No domingo, o governo anunciou medidas restritivas ao acesso a dólares para pessoas físicas, mas com o teto elevado —o limite é de compra de até US$ 10 mil por mês.

“Ganho 18 mil pesos por mês [cerca de US$ 300], e 2.500 (US$ 41) gasto  em remédios, não junto US$ 10 mil para comprar nunca. Mas vim até aqui hoje para ver que rumo a coisa toma, se vale a pena comprar um pouco para guardar”, disse o aposentado Pietro Manizales, 77, que foi a uma casa de câmbio no centro.

Argentinos fazem fila para sacar moeda dos EUA, mas primeiro dia após medida termina sem distúrbios - Agustin Marcarian/Reuters

O maior temor do governo era que as pessoas sacassem pesos e comprassem dólares para se proteger, numa estratégia maciça de busca de proteção. Isso poderia desencadear uma pressão adicional nas cotações e empurrar o país para a hiperinflação. Com a alta de preços rodando 54% ao ano, a palavra voltou aos debates econômicos.

Em entrevista coletiva na manhã desta segunda, o ministro da Fazenda, Hernán Lacunza, afirmou que as medidas para restringir o acesso a dólares visam a estabilizar a cotação da moeda americana no processo eleitoral. As eleições argentinas ocorrem em 27 de outubro, e a oposição, liderada pelo peronista Alberto Fernández, é a favorita.

A vantagem dos peronistas, que evitam dizer como pretendem lidar com a crise econômica, vem alimentando a atual corrida cambial.

Quando lhe foi perguntado se as medidas foram acordadas com a oposição, Lacunza afirmou que houve comunicação, mas não há “cogoverno” neste momento no país, ou seja, cabe a Macri a decisão sobre o que fazer para acalmar os mercados. 

No exterior, os títulos da dívida argentina denominados em euro e dólar caíram para mínimas recordes nesta segunda-feira, enquanto as ações do setor financeiro cederam.

Nas ruas do centro de Buenos Aires, bancos e casas de câmbio tinham filas, mas não houve distúrbios, apenas confusão dos próprios argentinos sobre as novas medidas. Muitos buscavam as agências para se informar sobre o que poderia ocorrer com seus depósitos, que no país podem ser feitos em dólar ou em pesos.

O governo inundou os bancos com cédulas da moeda americana para atender à demanda de correntistas que buscaram agências de Buenos Aires, após o anúncio, neste domingo, de que o acesso a dólares seria mais restritivo. 

Carros-fortes circulavam pelo centro financeiro da capital. Também contribuiu para a moderação o feriado nos EUA, que reduz naturalmente os negócios em dólar.

Em 2001 as contas dos argentinos foram congeladas, porém não se tocaram nas caixas-fortes.

Assustados, porém, os clientes dos bancos tentavam entrar para retirar o que havia ali, com medo de que uma medida seguinte do governo fosse impedir o acesso a esses cofres. Isso causou, entre outras coisas, a violência contra os bancos, que tiveram portas arrombadas, vidraças quebradas.

Numa sucursal do Banco Macro, um funcionário disse que havia movimentação “acima do normal” com relação às caixas-fortes —na Argentina, é possível guardar dólares não apenas em contas-correntes mas também em caixas de segurança. 

Crise atual é diferente da de 2001, dizem economista

Apesar de estarem sendo feitas muitas comparações desta crise com a de 2001, há várias diferenças entre ambas. Naquela época, as medidas que puseram fim à convertibilidade dólar-peso e que levaram o governo a impor um “corralito” (limitando a retirada de pesos das contas bancárias) criaram uma severa crise social e política. 

Houve protestos violentos, que deixaram mais de 30 mortos e acabaram culminando com a renúncia do então presidente, Fernando de La Rúa (morto neste ano), que acabou deixando a Casa Rosada de helicóptero.

Desta vez, a reabertura dos mercados, nesta segunda-feira (2), depois do decreto do governo que limitou a compra de dólares para pessoas físicas (U$S 10 mil) e para empresas, que terão de cobrar seus recebimentos mais rápido, não causou tanta turbulência.

Apesar de o controle de câmbios anunciado ser considerado uma “medida muito agressiva”, para o economista Matías Rajnerman, da consultoria Ecolatina, ela foi responsável por “frear a corrida ao dólar”. 
Apesar de “não ser uma boa medida, não havia outra a tomar”, afirmou.

Para ele, no entanto, é difícil prever os efeitos sobre a economia no curto prazo.

De todo modo, de 2001 até hoje, outras medidas foram tomadas com relação aos dólares que também fazem com que este momento não seja parecido àquele.A mais importante, diz, foi a trava a empréstimos em dólares. Hoje, só empresas que tenham receitas na moeda, como exportadores, podem tomar crédito em dólar no país, o que fez com que os bancos mantenham em caixa quantia suficiente para devolver aos poupadores.

O economista Roberto Cortés Conde, que era amigo de De La Rúa, faz um paralelo com a atual gestão. Para ele, Macri errou ao adotar o gradualismo.

“Quando Fernando de La Rúa assumiu, eu o aconselhei a tomar todas as medidas necessárias para sair da crise nas primeiras semanas. Ele não fez isso, e acabou não terminando o mandato”, disse.

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