Economia brasileira mostra ritmo fraco de crescimento neste 3º trimestre

Dado positivo de comércio e serviços afasta risco de retração, mas crise externa impede retomada

Eduardo Cucolo
São Paulo

A economia brasileira tem mostrado neste 3º trimestre ritmo fraco de crescimento, similar ao verificado desde o final da recessão de 2015-2016, sem perspectivas de melhora significativa dos níveis de produção, investimentos e emprego.

Os dados de julho mostram que, por um lado, houve uma interrupção na tendência de recuperação do setor industrial vista no segundo trimestre. Por outro, os resultados vieram acima do previsto para os setores de comércio e serviços.

Os números preliminares de agosto desanimaram até o Ministério da Economia, que falou em “fundo do poço” e espera melhora na atividade a partir de setembro.

Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, afirma que a projeção da instituição é um crescimento de 0,2% no terceiro trimestre, abaixo do 0,4% do segundo trimestre, ambos na comparação com os trimestres anteriores. Antes da divulgação dos dados do comércio e dos serviços, a projeção era de ligeira retração.

“Esses dados foram bons e reduziram o risco de um trimestre negativo, mas não mostram uma aceleração”, afirma o economista. “Não temos uma reação que possa resultar numa queda mais forte do desemprego.”

Os números, segundo ele, afastam o risco de uma revisão para baixo na estimativa da instituição, de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 0,8% para 2019. Para 2020, a expectativa é uma expansão de 1,7%. O indicador de atividade do banco continua a mostrar um crescimento anual na faixa 1% até o momento, o mesmo que tem sido verificado desde 2017.

Luana Miranda, pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV IBRE, afirma que a instituição projeta para o PIB do trimestre atual uma expansão de 0,5% em relação ao trimestre anterior. Para o ano fechado, as estimativas são de crescimento de 1,1% em 2019 e 1,8% para 2020.

“Está muito claro novamente um descasamento entre a indústria e os serviços. Isso era algo que a gente já estava vendo no PIB nos últimos trimestres, exceto no segundo trimestre deste ano, quando a construção e a indústria de transformação mostraram algum crescimento”, afirma.

De acordo com os dois economistas, os dados já divulgados têm refletido os impactos da crise argentina e da desaceleração do crescimento mundial sobre o Brasil.

“Esse resultado de comércio e serviços é um bom indicativo. É só o primeiro mês do trimestre, mas começamos bem. A indústria está indo na direção oposta, bastante relacionado com a situação na Argentina”, afirma Luana.

De acordo com a economista, indicadores antecedentes do resultado da indústria, como produção de veículos e movimento de veículos pesados apontavam para um resultado positivo em julho, o que não se confirmou, principalmente, por conta do impacto do comércio de bens intermediários fabricados no Brasil e que servem de insumos para o setor na Argentina.

Ela diz que a instituição segue apostando na continuidade do crescimento da construção e em uma contribuição positiva dos serviços para o resultado do ano. Para os investimentos, por outro lado, espera uma desaceleração.

“Portanto, o consumo das famílias segue tendo participação importante da recuperação da economia”, diz Luana, citando o efeito dos saques do FGTS que começaram nesta sexta-feira.

Luka Barbosa, do Itaú Unibanco, diz que os principais fatores que estão prejudicando a atividade econômica são a desaceleração global da economia e a crise fiscal no Brasil, que reduziu o espaço do governo para investimentos.

Em relação ao cenário externo, o fator mais importante é o impacto no Brasil da desaceleração das economias dos EUA e da China. “A Argentina reforça esse quadro de atividade econômica ruim no mundo, mas não é o mais relevante”, afirma Barbosa.

Em relação à questão fiscal, o economista afirma que o Brasil deve aprofundar as reformas do lado da despesa obrigatória, para abrir espaço para o gasto discricionário, que inclui investimentos, crescer sem comprometer a dívida pública e o teto de gastos.

“São os dois fatores que tonam mais difícil a retomada do Brasil. O que está contribuindo positivamente é a queda na taxa de juros e o crescimento do crédito privado para pessoas físicas e jurídicas. Não fosse isso, o desempenho da economia estaria mais fraco.”

Os números de julho apresentados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nas duas últimas semanas mostram que a produção industrial recuou 0,3% em relação ao mês anterior. As vendas no comércio varejista cresceram 1% na mesma comparação, enquanto o setor de serviços registrou avanço de 0,8%, com resultados que surpreenderam positivamente.

Divulgado nesta sexta (13), o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) teve recuo de 0,16% no mês em comparação a junho, pior queda mensal de julho em três anos.

A projeção do mercado financeiro para o PIB de 2019 é de 0,87%, segundo o Boletim Focus do Banco Central. O governo prevê um crescimento ligeiramente menor, de 0,85%.

Economistas de importantes bancos e consultorias têm revisado suas projeções de crescimento para níveis inferiores a 2% em 2020.

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