Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Governo dos EUA ordena Google a deixar seus empregados falarem

Conselho decide sobre queixas quanto a posicionamento político de atuais e antigos empregados do Google

Rob Copeland
San Francisco | The Wall Street Journal

As autoridades regulatórias federais dos Estados Unidos ordenaram o Google a garantir que seus empregados sejam autorizados a se pronunciar sobre questões políticas e de trabalho, dizem pessoas informadas sobre o caso, como parte da solução de um caso envolvendo queixas formais de que o gigante das buscas pune os trabalhadores que o fazem.

A decisão do Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB, na sigla em inglês) oferece ao Google uma válvula de escape com relação a uma questão espinhosa que causou perturbações nos últimos anos.

Ainda que os executivos do Google há muito se vangloriem de ter uma cultura de trabalho criada para estimular o debate aberto, atuais e antigos empregados de variadas orientações políticas se queixaram de sofrer retaliações depois de expressar preocupações sobre igualdade e liberdade de expressão.

A solução foi aprovada pelo diretor do conselho esta semana, de acordo com um documento. Ela deve entrar em vigor depois de um período para recurso. 

A ação do NLRB é o segundo lembrete formal do Google nesta semana de que a empresa deve se manter dentro da lei.

Na semana passada, a subsidiária YouTube do Google aceitou um acordo para encerrar uma investigação sobre supostas violações da lei de proteção à privacidade infantil, com o pagamento de multas de US$ 170 milhões e uma ordem regulatória de que não rastreie as atividades de internet de crianças de menos de 13 anos. 

O Google, parte do grupo Alphabet, também está sendo investigado pelo Departamento da Justiça e por um grupo de secretários estaduais de justiça representando praticamente todos os estados americanos quanto à sua plataforma dominante de publicidade online. 

Os empregadores do setor privado estão autorizados a limitar certas formas de expressão nos locais de trabalho, e no final do mês passado o Google agiu para limitar o debate entre seus mais de 100 mil empregados de tempo integral, adotando novas limitações para a discussão de assuntos não relacionados ao trabalho e oferecendo incentivos que desencorajam conversações potencialmente perturbadoras.

Entre as novas regras: "discussões que fazem com que outros 'googlers' se sintam deslocados não devem acontecer aqui". 

A lei federal protege atividades como formar um sindicato ou dialogar sobre melhoras de salário, entre outras formas de conduta. 

Ainda assim, atuais e antigos empregados do Google dizem que a empresa se excedeu, ou ocasionalmente não fez o bastante para proteger a liberdade de expressão no local de trabalho.

O NLRB, em sua ordem, ordena que o Google notifique ativamente os empregados de que eliminou as regras que restringiam que eles trocassem informações confidenciais entre eles ou as compartilhassem com a mídia. 

Os empregados de inclinações direitistas dizem que expressar suas opiniões pode levá-los a encontrar rejeição por parte do pessoal de recursos humanos do Google, e trabalhadores de esquerda foram reprimidos em suas tentativas de protestar contra as regras de uso que o YouTube vem desenvolvendo sobre a retórica hostil, entre outras questões. 

Alguns dos empregados que se pronunciavam de forma mais aberta sobre suas posições políticas receberam ofertas de pagamento adicional de indenização se optassem por se demitir da empresa. 

A decisão do NLRB surge em resposta a um par de queixas sobre a reação do Google à dissensão no local de trabalho. 

Um dos queixosos, Kevin Cernekee, antigo engenheiro do Google, disse que foi demitido por exprimir opiniões políticas direitistas impopulares a colegas de trabalho, nos fóruns de mensagem internos da companhia.

O presidente Donald Trump tuitou apoio a Cernekee depois que o The Wall Street Journal noticiou as acusações do ex-empregado do Google quanto a parcialidade política por parte da empresa, no mês passado. 

O Google se recusou a comentar sobre a ação do NLRB ou o caso de Cernekee. 

O outro queixoso ainda é empregado do Google, e sua identidade não foi revelada. Ele se queixa de ter sido punido por postar opiniões nada elogiosas sobre um executivo de alto escalão do Google em uma página do Facebook. 

A decisão do NLRB representa uma vitória para o Google, no sentido de não ter determinado formalmente que a empresa estava errada.

Cernekee pediu para ser readmitido, e receber os salários que teria ganho durante o período de demissão; sob a decisão do NLRB, ele não conseguirá nenhuma das duas coisas. 

Em lugar disso, o NLRB ordenou que o Google informe os atuais empregados de que eles têm liberdade para falar com a mídia e outras pessoas sobre condições de trabalho, salários e coisas parecidas, independentemente de o Google considerar esses assuntos inapropriados para o local de trabalho. 

O NLRB também está ordenando que o Google retire a carta final de advertência enviada a Cernekee, que afirmava que ele havia violado a seção "respeitem uns aos outros" do código de conduta da empresa, em mensagens que postou nos fóruns internos de discussão. 

Advogados de Cernekee e do segundo queixoso objetaram por escrito à decisão, afirmando que merecem um audiência para expor suas posições.

The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

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