Itaú admite possibilidade de queda de rentabilidade com aumento da competição

Banco tenta mostrar a investidores que está pronto para competir com fintechs

São Paulo

Executivos do Itaú Unibanco passaram três horas de um evento com analistas e investidores tentando explicar a investidores o que estão fazendo para se reinventar, ressaltando diferenciais na comparação com fintechs (startups do setor financeiro) e também a apontar que o banco pretende melhorar sua relação com clientes.

Antes de imaginar que o banco acabará, o acionista quer saber o risco de ver o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido), a medida de rentabilidade do investidor, cair do patamar polpudo de 23% ao ano. E os executivos admitiram que isso pode acontecer.

Em um cenário hipotético, Roberto Setubal, copresidente do conselho de administração do banco, disse que o ROE pode, sim, ser menor, se o banco tiver mais dificuldades de se diferenciar dos concorrentes. Mas lembrou que não há uma meta de rentabilidade. O que há, disse Setubal, é o compromisso de fazer o melhor uso do dinheiro do acionista.

Diante de uma queda de custo de capital é admissível pensar que ao longo do tempo haverá uma redução do ROE”, acrescentou Candido Bracher a jornalistas após evento.

Itaú tenta mostrar a investidores que está pronto para competir com fintechs - Pilar Olivares/Reuters

Um dos investidores da plateia lembrou que startups têm uma licença para perder dinheiro durante a fase de expansão.

“Se nós nos permitíssemos a mesma licença, o regulador ficaria muito preocupado e o acionista, insatisfeito”, complementou Candido Bracher, presidente do banco. Ele disse ainda estar “muito contente com as armas que dispomos nessa competição”, citando a base de clientes e a ampla gama de produtos financeiros oferecidos.

Tradicionalmente, fintechs começam a prestar serviços com um único produto e depois expandem o portfólio.

Bracher afirmou ainda que o banco passará a se comparar não com outros bancos brasileiros, mas com grandes empresas privadas globais. No mercado local, porém, os clientes comparam o banco a empresas cujos serviços funcionam de forma mais simples. 

O executivo mesmo deu um exemplo em sua apresentação.

“Quantos cliques a pessoa tem que dar para cancelar uma tarifa que o Itaú cobrou erroneamente? Certamente mais de dois cliques”, disse Bracher, ao comparar o banco com uma experiência que teve com a Uber.

O executivo não respondeu se pesquisou quantos cliques ou minutos de ligação demandaria.

Durante a apresentação, os líderes do banco minimizaram mais de uma vez o risco de ascensão desses novatos. Bracher citou ainda uma frase que atribuiu ao J.P.Morgan.

“Os estabelecidos precisam encontrar a inovação antes que os inovadores sejam capazes de distribuir seus produtos”, repetiu o executivo.

Enquanto isso, o banco tenta reestruturar sua operação: fechou mais de 1.500 postos de trabalho entre junho de 2018 e junho de 2019. Lançou um PDV (Programa de Demissão Voluntária), que se encerrou no final de semana passada e tinha público-alvo de cerca de 7.000 funcionários. O banco não divulgou quantas pessoas aderiram ao programa.

Ainda que esteja se voltando ao digital, o Itaú segue reafirmando o valor de ser um banco completo.
“Não somos uma startup, não vamos virar um conjunto de startups. Também não sei, como o Roberto [Setubal], o que será uma instituição financeira daqui dez anos. Imagino que vá ser como é, mas com uma nova maneira e atender o mercado”, afirmou Pedro Moreira Salles, copresidente do Itaú Unibanco ao lado de Setubal.

Eles falaram sobre aos dez anos da fusão do Itaú com o Unibanco, em novembro do ano passado. 

Setubal se queixou do fraco crescimento da economia brasileira nos últimos dez anos e afirmou que o resultado da fusão dos dois bancos poderia ter sido ainda mais robusto no período.

“[O banco] Poderia ser mais do que está aqui hoje, mas infelizmente a economia não se desenvolveu. Se a economia tivesse crescido 3% ao ano, nada extraordinário, a gente poderia estar em outro patamar”, afirmou o executivo do maior banco privado do país a investidores. 

Essa foi citada como a única frustração do executivo após a fusão do Itaú com o Unibanco, que completou dez anos no final do ano passado. Após a recessão recente, a economia brasileira cresceu 1,1% em 2017 e 2018 —neste ano, deve ficar ao redor de 0,80%.

Setubal falou no tradicional evento anual ao mercado, em São Paulo.

Nesses dez anos, o lucro anual do Itaú Unibanco saltou de R$ 10 bilhões (em termos nominais, ou R$ 17,7 bilhões em valores corrigidos) a R$ 25 bilhões, o ganho acumulado de 2018. Considerada a correção pela inflação, o lucro cresceu no período 41,4%.

Salto ainda mais expressivo ocorreu com o patrimônio líquido do banco, que saiu de R$ 43,7 bilhões (ou R$ 77,7 com a correção pela inflação) para R$ 131,8 bilhões ao final do ano passado, um crescimento de 70%.

Nesses dez anos, o banco manteve relativamente estável a rentabilidade ao acionista, medida pelo ROE (retorno sobre o patrimônio líquido), o que explica parte do prestígio do banco no mercado financeiro. Na época da fusão, o ROE combinado das instituições era de 23,4% e esse indicador terminou o ano de 2018 a 21,9%.
 

Lançamentos digitais

O Itaú afirmou que a conta de pagamentos iti terá aceitação em 600 mil pontos de venda. O lançamento, que estará em operação plena em outubro, tenta fazer frente ao surgimento de novas formas de pagamento com leitura de QR-Codes, como adotado por startups inicialmente não financeiras, como a Rappi.

Segundo o banco, a conta digital terá rendimento automático, concessão de empréstimos e um cartão de crédito e débito a partir do primeiro trimestre do próximo ano. Na prática, a conta de pagamentos segue os passos dos principais concorrentes de mercado.

A conta de pagamentos iti também dá um primeiro passo rumo aos pagamentos instantâneos, cujo modelo está em desenvolvimento com base em regras fixadas pelo Banco Central.

O banco anunciou ainda que lançará uma nova plataforma de programa de fidelidade.

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