Descrição de chapéu Folhainvest

Títulos de longo prazo e Bolsa se valorizam com novo corte na taxa Selic

Ibovespa acumula em setembro 3ª maior alta do ano e se aproxima de recordes

Júlia Moura
São Paulo

Setembro caminha para ser o terceiro melhor mês de 2019 para a Bolsa, que, até sexta-feira (27) subiu 3,9%. São melhores apenas os meses de junho, com alta de 4%, e janeiro, com a disparada de 10,8% em meio ao otimismo com o início do governo de Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

O bom desempenho foi fomentado pelo corte de juros promovido pelo Banco Central no dia 18 e a adoção de um discurso de estímulos à economia, com espaço para novos cortes na Selic.

Foi o que levou o Ibovespa a flertar com máximas históricas, chegando a 106 mil pontos durante o pregão do dia 19. Na quinta-feira (26), o índice fechou pela primeira vez acima dos 105 mil pontos desde que bateu o recorde de 105.817 pontos em julho. 

O saldo de estrangeiros também voltou a ficar no azul. Segundo os últimos dados disponíveis da B3, estrangeiros aportaram R$ 808 milhões na Bolsa brasileira em setembro até a terça-feira (24). Em agosto, a saída havia sido de R$ 10,7 bilhões, a maior desde 2008.

“Há um risco de desaceleração mais forte da economia que leva à redução de ativos de riscos [por parte dos investidores], o que inclui a Bolsa brasileira. O estrangeiro parou de retirar recursos do país, mas o investimento não voltou”, diz Carlos Menezes, sócio da Gauss Capital.

Para Menezes, o otimismo é doméstico, impulsionado pela política monetária do BC e surpresas positivas, como a criação de 121,4 mil empregos formais em agosto, maior resultado para o mês em seis anos e acima das previsões de economistas.

Pedro Lula Mota, gestor da Vérios Investimentos, também vê a alta da Bolsa como fruto do investidor brasileiro. “O estrangeiro ainda está muito receoso e restringe a sua participação a follow-ons”.

O follow-on é uma nova oferta de ações, que ocorre quando a empresa já é listada na Bolsa e faz uma nova venda no mercado.

A B3 ainda não disponibilizou o balanço das emissões no mês, mas, segundo Menezes, da Gauss, elas foram significativas e explicam a alta do Ibovespa no mês. “O estrangeiro retirou muito dinheiro de papéis em circulação e entrou em follow-on e IPO [oferta inicial de ações], devido ao potencial de crescimento maior dessas ações”, diz.

Há ainda explicação sazonal para a melhora do índice, já que investidores voltam das férias do verão no hemisfério norte. 

Setembro também foi positivo para a Bolsa de Nova York, mas, por lá, a alta não chega a 2%. O mês foi conturbado no exterior, com escaladas na guerra comercial EUA-China, tensões entre Estados Unidos e Irã, impasses no Brexit e dados desanimadores sobre a economia global.

Logo no início de setembro, a crise Argentina e uma desaceleração na indústria americana fizeram o Ibovespa perder os 100 mil pontos e o dólar bater os R$ 4,18, maior patamar em um ano.

Com uma trégua na guerra comercial, incluindo a promessa do presidente americano Donald Trump de um acordo próximo, e cortes de juros nos Estados Unidos e no Brasil, a Bolsa se recuperou.

O dólar, no entanto, segue acima dos R$ 4,10 há mais de duas semanas —fechou a última sexta-feira (27) a R$ 4,16. Em setembro, a moeda acumula leve alta de 0,6%, depois de um salto de 8,5% em agosto.

O enfraquecimento do carry trade—prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros—, explica este movimento. 

Os cortes na Selic diminuíram a diferença entre juros brasileiros e os dos EUA, que estão no menor patamar da história. Assim, o investimento em juros no Brasil fica menos atrativo e há retirada de dólares, o que eleva a cotação.

Lula Mota pontua que essa diferença pode cair mais. “O Fed cortou juros em setembro, mas não sinalizou novos cortes. Já o BC cortou e falou que vai cortar mais. Isso explica a alta do dólar e a alta da Bolsa”.

Bolsa e dólar costumam ter o caminho inverso. Enquanto um sobe, o outro cai.

A redução na Selic também impulsionou a valorização de títulos de renda fixa de longo prazo, que se tornaram mais vantajosos com a queda da rentabilidade dos mais curtos.

O Ima-B —índice teórico da Anbima (entidade do mercado de capitais) que mede a performance do Tesouro IPCA+ com juros semestrais— teve o melhor desempenho dentre os títulos de renda fixa no mês, com 2,82% de rendimento em setembro, segundo dados da Economática da última quinta (26).

Ele reúne ativos que, em média, têm duração de sete anos (há alguns com vencimentos até 2055). Essa gama de ativos de longo prazo explica a alta volatilidade do índice, que conta com vencimentos em diferentes meses do ano.

Em seguida, vem o Irf-M, índice da Anbima que acompanha os títulos públicos prefixados, com rendimento de 1,34% em setembro.

Mota aponta que o Irf-M perde para o Ima-B por ter uma duração mais curta, com duração média dos títulos de 2,7 anos, o que o deixa relativamente menos rentável.

“O prefixado teve um mês espetacular pois o BC surpreendeu na comunicação, sinalizando mais cortes na Selic. Enquanto isso, o pós-fixado rende cada vez menos, com um movimento global de juros baixos e juros negativos”, afirma o gestor da Vérios.

CDI e poupança, que seguem juros, tiveram retornos menores CDI, poupança e Ima-S, que acompanham a taxa de juros, tiveram queda no rendimento mensal de cerca de 0,1 ponto percentual, reflexo do corte de 6% a 5,5% ao ano na Selic.

“A renda fixa tem dado menor retorno globalmente. Investidores que tinham renda fixa de um ano a um ano e meio de prazo têm alongado para dois a quatro anos de prazo para ter mais rendimento”, diz Carlos Menezes, sócio da Gauss Capital.

Ele aponta que, tradicionalmente, no Brasil, a maioria dos investimentos eram de curto prazo. “Hoje, bancos e fundos de investimento têm trocado posições, em busca do longo prazo”.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto afirmou incorretamente que ​follow-on é uma oferta secundária de ações. O follow-on ocorre quando a empresa já é listada na Bolsa e faz uma nova venda de ações no mercado. Essa oferta pode ser de novas ações (primária) ou de ações de atuais acionistas que pretendem reduzir participação na empresa (secundária). O texto foi corrigido.

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