Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

UE pressiona Bolsonaro e vincula pacto do Mercosul à defesa da Amazônia

Em enquete da Folha, países do bloco defendem acordo, mas exigem mais empenho do governo

Arthur Cagliari Fábio Zanini Lucas Neves
São Paulo e Paris

Os países-membros da União Europeia seguem dando crédito ao acordo comercial firmado com o Mercosul, mas já não têm meias palavras ao vincular sua implementação à agenda do governo para a Amazônia e o combate ao aquecimento global.

O sentimento europeu fica evidente em enquete feita pela Folha com as chancelarias dos 28 membros do bloco. Destes, 17 responderam, 8 se calaram e 3 disseram que não participariam. 

Dos que responderam à reportagem, somente Irlanda e França ameaçam claramente suspender a tramitação do acordo até que haja medidas concretas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) para proteger a Amazônia. 

Os outros 15, com maior ou menor grau de dureza, dizem estar comprometidos com o acordo comercial, mas usam a questão ambiental como instrumento de pressão.

Maior economia do bloco, a Alemanha afirmou à Folha que sua posição está expressa numa fala do ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas, do último dia 27. 

 

“As políticas ambiental e climática são centrais para a avaliação do acordo [com o Mercosul]. É especialmente importante reforçar esse ponto no atual momento”, declarou o ministro.

O mesmo tom de ameaça velada adota a Holanda. “A União Europeia deve estar preparada para usar suas relações comerciais de uma forma inteligente e estratégica, para exercer pressão caso necessário”, disse a ministra das Relações Exteriores, Sigrid Kaag, também via assessoria.

O acordo foi fechado em junho após 20 anos de negociação e reúne economias que, somadas, têm PIB de US$ 22 trilhões e população de 777 milhões de pessoas. 

Enquete com europeus sobre acordo comercial

  1. Países que responderam

    Alemanha, Bélgica, Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Portugal, Reino Unido e Suécia

  2. Países que se abstiveram

    Chipre, Dinamarca e Itália

  3. Países que não responderam

    Áustria, Croácia, Grécia, Hungria, Malta, Polônia, República Tcheca e Romênia

Mais de 90% das tarifas entre os dois blocos devem ser eliminadas quando o acordo comercial estiver implementado, o que ainda deve demorar ao menos dois anos.

Para entrar em vigor, contudo, é preciso que uma série de etapas sejam cumpridas, a primeira delas a aprovação pelo Conselho Europeu, que reúne os governos dos 28 países (em breve 27, com a iminente saída do Reino Unido do bloco).

Provavelmente o acordo precisará do apoio combinado de países que representem 65% da população, embora as regras para aprovação ainda não tenham sido detalhadas pelas partes.

Depois, a parte comercial do acordo tem de passar pelo Parlamento Europeu. 

"As políticas ambiental e climática são centrais para a avaliação do acordo. É importante reforçar esse ponto no atual momento"

Heiko Maas, ministro das Relações Exteriores da Alemanha
 

Outros temas, inclusive os de meio ambiente, precisam ainda ser aprovados pelos Legislativos nacionais.

Os quatro sócios sul-americanos (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) também devem chancelar o acordo.

Alguns dos menores Estados-membros da União Europeia estão entre os mais vocais na cobrança ao Brasil, talvez porque sabem que podem ser o fiel da balança para a aprovação do acordo.

Com 2 milhões de habitantes e uma área comparável à de Sergipe, a Eslovênia disse em nota que “o sucesso do acordo depende do respeito a normas e princípios comuns, particularmente na área do desenvolvimento sustentável e da luta contra a mudança climática”. 

Ainda menor, Luxemburgo, com 600 mil habitantes e um terço da área da Grande São Paulo, afirmou em nota que a agenda ambiental é uma “precondição” para o acordo comercial.

“Gostaríamos de ver um claro empenho político na implementação do Acordo de Paris [sobre o clima] e na luta contra o desmatamento antes de o acordo UE-Mercosul ser concluído”, afirmou a chancelaria do pequeno país.

Já a Suécia afirma que “ainda é” favorável ao acordo comercial. 

“Ao mesmo tempo, é essencial que nossos parceiros de comércio contribuam para a resposta global à ameaça de mudança climática”, declarou o Ministério das Relações Exteriores do país nórdico.

A desconfiança dos europeus sobre o empenho brasileiro no combate ao aquecimento global não é gratuita. 

Já colocaram em dúvida esse fenômeno, que tem amplo consenso entre cientistas, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, os filhos de Bolsonaro e o filósofo Olavo de Carvalho, entre outras pessoas próximas do presidente.

"Esperamos que o Brasil respeite seus engajamentos em acordos internacionais, como o de Paris, e aja de forma responsável dentro dos limites do multilateralismo no que se refere a clima e comércio" 

Nota da chancelaria da Bélgica
 

A Finlândia chega a elogiar o Brasil por ter “ao longo dos anos, realizado um bom trabalho na redução do 
desmatamento”. 

Mas, deixando de lado o tom elogioso, cita a adesão de Brasília ao Acordo de Paris e acrescenta que “a comunidade internacional conta com que o Brasil honre seus compromissos ambientais”.

Os belgas fazem chamamento parecido. 

“Esperamos mesmo que o Brasil respeite seus engajamentos em acordos internacionais, como o de Paris, e aja de forma responsável dentro dos limites do multilateralismo no que se refere a clima e comércio.” 

A chancelaria da França, país com quem Bolsonaro antagonizou de modo mais ríspido nos últimos dias, afirmou que a posição de Paris “foi expressa claramente pelo presidente da República [Emmanuel Macron] e pelo chanceler [Jean-Yves Le Drian]”. 

Macron acusa o presidente brasileiro de ter mentido sobre seu compromisso em defesa do meio ambiente na cúpula do G20 no Japão, em junho.​

Também procurada, a Irlanda apenas reiterou seu posicionamento expresso anteriormente pelo primeiro-ministro, Leo Varadkar, de que “não há nenhuma chance de votarmos a favor se o Brasil não honrar seus compromissos ambientais”.

Entre os que pegam leve com o governo brasileiro estão os britânicos, para quem a implementação do acordo não deverá ser uma questão real, dado que devem sair do bloco. 

"Nosso desejo é que o presidente Bolsonaro adote ação firme contra o desmatamento ilegal para proteger a Amazônia e o papel único que tem de resguardar um planeta biodiverso e sustentável para as gerações futuras"

Nota da chancelaria da Eslováquia
 

O país é governado por Boris Johnson, um populista conservador de estilo em muitos aspectos parecido com o do brasileiro, o que talvez explique o tom morno adotado.

“Certamente penso que é melhor conversar do que fazer intimidação com megafone. Temos de convencê-los [os brasileiros] a usar métodos sensatos para reduzir o problema”, afirmou Christopher Pincher, ministro do governo para as Américas, ao ser questionado por deputados no Parlamento.

Dos questionados pela reportagem, Itália, Chipre e Dinamarca declinaram da sondagem para participar do levantamento. 

Já os países que não responderam aos pedidos foram Grécia, Hungria, Malta, República Tcheca, Polônia, Romênia, Áustria e Croácia.

"Com a entrada em vigor do acordo, há mais disposição para pedirmos o cumprimento de cláusulas ambientais"

Nota da chancelaria da Espanha


28 é o total de países-membros da União Europeia

20 anos foi o tempo levado para o bloco europeu fechar o acordo comercial com o Mercosul
 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.