Assessor de Trump alimenta disputa comercial contra China

Peter Navarro, escolhido após pesquisa na Amazon, defende corte de juros

Marina Dias
Washington

Ao defender, nesta sexta-feira (4), que o banco central dos Estados Unidos reduza os juros do país mesmo, Peter Navarro, assessor de comércio internacional da Casa Branca, mostrou mais uma vez alinhamento com o presidente Donald Trump.

“Este número [o desemprego a 3,5%], mesmo sendo um bom número, não deveria impedir o Fed de reduzir agressivamente os juros por um motivo simples —não porque a economia está desacelerando— mas porque nosso está dólar está tão supervalorizado, está matando nossas exportações”, disse em entrevista à CNN, ecoando tuítes de Trump após cada reunião do Fed.

Navarro, um dos principais conselheiros econômicos da Casa Branca, foi escolhido após pesquisa na Amazon.

Ainda era 2016 e o então candidato Donald Trump decidiu que precisava falar mais sobre a China em seus discursos.

Peter Navarro, assessor de comércio internacional do governo dos EUA - Fabrice Coffrini - 24.set.19/AFP

Confiou ao assessor e genro, Jared Kushner, a missão de reunir subsídios para que a tarefa fosse cumprida nas cores nacionalistas de sua retórica. 

 

O marido de Ivanka Trump consultou a varejista online e ficou impressionado com o livro “Death by China” —em português, Morte pela China— de coautoria de Navarro.

Nas ideias do controverso economista —especialistas o veem como pouco ortodoxo—, Kushner encontrou o que precisava: os EUA têm que ser duros nas relações comerciais, reprimir o roubo de propriedade intelectual, taxar as exportações da China e combater o déficit comercial.

Animado pelas aparentes convergências com seu sogro, telefonou para Navarro e o convidou para se juntar ao time do republicano. 

O sim para a campanha veio rápido e, a partir de 2017, o economista tornou-se também assessor de comércio internacional da Casa Branca e a voz mais ouvida pelo presidente quando o assunto é a potência asiática.

Na defesa do isolamento e protecionismo como política externa, Navarro conquistou Trump e, recentemente, foi peça-chave para sua decisão de anunciar nova escalada de tarifas sobre a China.

O presidente ignorou outros conselheiros econômicos e, sob condução de Navarro, avançou mais uma casa na guerra comercial que já dura mais de um ano e desequilibra os mercados financeiros.

No início de setembro, entraram em vigor as tarifas adicionais de 15% impostas pelos EUA sobre importações chinesas, dessa vez, com mais impacto nos bens de consumo.

O anúncio causou derretimento dos mercados e a sensação de especialistas e investidores de que a recessão global pode ser inevitável.

Após Trump afirmar que aplicaria novas tarifas sobre itens chineses, o Wall Street Journal publicou em 11 de agosto um editorial questionando se a culpa pela possível recessão econômica não seria de Navarro.

O auxiliar da Casa Branca respondeu dizendo que o diário era comunista, assim como jornais chineses que traziam os prenúncios de uma crise sem espelho desde 2008.

Três dias depois, o Wall Street Journal fez novo editorial, esse sem questionamentos, assegurando que o culpado pela desaceleração era mesmo o assessor de Trump.

“Depois que avisamos na semana passada que a política comercial dos EUA estava atraindo a recessão, o assessor da Casa Branca Peter Navarro foi à Fox Business acusar a gente de soar como o ‘The People’s Daily’, o braço de propaganda comunista chinês”, escreveram os articulistas do jornal americano. 
“Isso foi uma novidade para as críticas dessa coluna, mas talvez Navarro queira comentar novamente depois do anúncio de recessão dado na quarta-feira [14 de agosto] pelos mercados de títulos e ações. Eles são comunistas também?”

Naquele dia, os três principais índices de ações americanos fecharam em queda de 3% e analistas começaram a apontar a possibilidade de recessão nos EUA e no mundo —contabilizando também as incertezas do Brexit e a queda na atividade industrial da própria China.

Ancorado por Navarro, Trump tentava jogar a culpa da turbulência na conta da política de juros do Fed.

Segundo o presidente, elevar a taxa de juros no país no ano passado deixou o mercado descontrolado e agora é preciso baixá-los o mais rápido possível —em julho, o Fed cortou pela primeira vez a taxa desde 2009 e voltou a fazê-lo na reunião de setembro.

O jogo de driblar críticas responsabilizando terceiros foi desenhado por Navarro, que aprendeu o xadrez político mais acirrado a partir de 1992.

Foi ali que ele se lançou candidato independente na disputa pela prefeitura de San Diego, na Califórnia, mas acabou derrotado pela republicana Susan Golding.

Nascido em Massachusetts e bacharel em artes —seu pai era músico e sua mãe, secretária-executiva de uma marca na Flórida— especializou-se em administração pública e economia em Harvard.

Desde então é voz ativa na defesa da redução do déficit comercial dos EUA. Para ele, quando um país importa mais do que exporta tem seu crescimento prejudicado, visão rejeitada por diversos especialistas.

Opõe-se a acordos de livre-comércio como o Nafta e o TPP (Parceria Transpacífico), do qual o presidente tirou os EUA logo que tomou posse, e foi responsável por desenvolver, junto com o hoje secretário de comércio, Wilbur Ross, o plano de infraestrutura.

A economia, porém, segue como o principal alicerce de Trump. Ao lado do discurso contra imigrantes, que seduz seu eleitorado conservador, este é o tema usado pelo republicano para tentar reeleição em 2020.

Os números nos EUA se mantiveram melhores do que os do resto do mundo nos últimos dois anos —com PIB crescendo e desemprego baixíssimo— em parte graças à política de desregulamentação e reforma tributária implementada por Trump.

Mas a sensação de bem-estar não deve durar muito, avisam economistas.

Na avaliação deles, o presidente precisa restaurar a sensação de calma nos mercados, o que implicaria uma trégua e não mais impulsos à guerra comercial com a China.

O receituário, porém, vai de encontro ao que prega o guru da Casa Branca.

Há quem diga que Navarro vai ter que deixar de lado suas crenças radicais sobre a China caso queira que boas notícias econômicas continuem sendo o estandarte de Trump para a eleição do ano que vem.

(Com Reuters)

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