Ciclo de juro baixo será longo, dizem economistas; entenda por quê

Para quem estuda o tema, queda das taxas afetará como o país poupa, toma empréstimos, investe e administra dívidas

Eduardo Cucolo Tássia Kastner
São Paulo

O Brasil está em meio a um processo de redução das taxas de juros que deverá se manter por muito tempo, com potencial para aumentar o nível de produtividade da economia e abrir espaço para alternativas de investimentos que atualmente são consideradas inviáveis.

Essa avaliação é compartilhada por uma série de economistas ouvidos pela Folha, que já enxergam os primeiros reflexos dessa mudança no setor imobiliário e na realocação de investimentos de pessoas físicas e empresas.

Para que isso se traduza em uma recuperação vigorosa da economia, sem que ocorra pressão sobre os juros, há, no entanto, alguns desafios. Entre eles, ampliar a agenda de reformas econômicas iniciada em 2016, com objetivo de aumentar a produtividade, equacionar o problema nas contas públicas e garantir que, efetivamente, o crédito mais barato chegue a consumidores e empresas por meio do aumento da competição no mercado financeiro.

José Márcio Camargo, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio e economista da Genial Investimentos, afirma que o país já fez um conjunto importante de reformas estruturais, como o teto de gastos e a revisão da lei trabalhista, e o governo está se propondo a manter esse processo, reformando a Previdência e enviando ao Congresso a proposta de reforma administrativa e o Pacto Federativo. 

Para quem estuda o tema, queda das taxas afetará como o país poupa, toma empréstimos, investe e administra dívidas - Gabriel Cabral/Folhapress

“O país está passando por um processo de reformas estruturais importantes, e todas vão na direção de resolver o problema fiscal e dar mais eficiência à economia do ponto de vista produtivo. Se essa trajetória persistir, e não tiver nenhum retrocesso, nossa expectativa é que vamos ter taxas de juros muito baixas durante muito tempo”, afirma o economista.

José Márcio estima que a taxa de juros real neutra ou de equilíbrio da economia (que permite crescimento robusto sem gerar inflação), esteja hoje em 2,1%, nível próximo à diferença atual entre juros e inflação, e que ela cairá mais ainda nos próximos meses.

“Dado o grau de ociosidade e que a economia está crescendo pouco, a nossa avaliação é que o Banco Central vai fazer com que a Selic fique abaixo da taxa neutra. Já está basicamente no nível da taxa neutra e acreditamos que vão reduzir ainda mais.”

José Márcio afirma que, quando a economia retomar o crescimento, o desemprego cair mais e houver redução da ociosidade, se o juro real ainda estiver abaixo da taxa neutra, o Banco Central deverá aumentar lentamente os juros, que não devem voltar aos níveis elevados que marcaram as últimas décadas.

Segundo ele, será um efeito do ciclo econômico, não de um problema estrutural, como era até três anos atrás.

Os juros baixos levarão a uma mudança profunda na economia. “Teremos uma economia completamente diferente do padrão que estávamos acostumados. Isso aumenta o potencial de crescimento, por um lado, e disponibiliza recursos para investimentos de maior risco.”

Para Bráulio Borges, economista sênior da consultoria LCA, o juro real brasileiro deve se consolidar ao redor dos 3,5% ao ano, o que levaria a Selic para uma faixa de 6% a 7% assim que a economia começar a apresentar crescimento mais robusto e sustentado.

“É bem mais que o zero que a gente vai ver agora, mas é praticamente metade da nossa taxa histórica”, afirma.

 
 

Atualmente o PIB (Produto Interno Bruto) cresce ao redor de 1% e as projeções para 2020 apontam para alta de 2%, ancorada em juros baixos.

Essa nova taxa de juro de equilíbrio estaria baseada na mudança mais sólida de política econômica do país, com um governo de gastos mais moderados. “Não estou falando que ela vá ser contracionista, mas também não será persistentemente expansionista”, acrescenta.

O diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), José Ronaldo Souza Júnior, afirma que a queda dos juros está ligada a fatores estruturais, como o compromisso do atual governo com a responsabilidade fiscal e a credibilidade do Banco Central, e conjunturais, como o baixo crescimento da economia brasileira e a queda dos juros em vários outros países.

Segundo ele, com o crescimento do PIB abaixo do potencial, é necessário ter uma política monetária que estimule a economia, com a taxa de juros abaixo da taxa neutra.

“A gente nunca teve uma taxa tão baixa de forma sustentável. Na frente vai aumentar, mas aumentar pouco. Foi uma queda lastreada em mudanças. É justificável. É mais estrutural do que conjuntural”, diz o economista.

O diretor do Ipea afirma que não é impossível o Brasil chegar a uma situação de taxa de juros real negativa, mas não trabalha com esse cenário.

“Dificilmente a gente imaginaria taxa de juros real negativa. Por um tempo, pode até ficar próxima de zero, mas não vai durar muita coisa. A economia deve ser recuperar dessa capacidade ociosa.”

Borges, da LCA, avalia que a capacidade ociosa é um dos fatores que contribui para manter o juro baixo de maneira sustentada quando a economia retomar. E que o crescimento da economia consumindo essa ociosidade, ajudaria o país no ajuste fiscal.

Istvan Kasznar, professor da FGV EBAPE (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas), afirma que, se o governo conseguir melhorar o quadro fiscal, será possível conter pressões inflacionárias e mantes os juros em patamares baixos.

“Neste momento, não há pressão de preços. No ano que vem, talvez a economia cresça de 2% a 2,5%. Então, haverá um pouco mais de demanda. Pode ser que a inflação suba um pouco, mas não tanto quanto antes.”

A ausência de pressão inflacionária, algo que a economia brasileira desconhece, é o que dá autonomia para o BC atuar neste ciclo recessivo. Entre 2015 e 2016, o país estava em crise e ainda assim sofria com a inflação alta.

José Júlio Senna, chefe do centro de estudos monetários do FGV/Ibre e ex-diretor do Banco Central, afirma que esta é a primeira vez em que o BC não “está remando contra a maré” e pode usar da política monetária.

Ele reforça, porém, que “nunca sabe quando o fiscal vai de fato pegar”.

“O fiscal é indiscutivelmente importante, e a inflação tem um componente psicológico. Se o clima vira, é uma encrenca”, diz Senna, ainda reforçando que não vê isso ocorrer no curto prazo.

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