Dólar sobe a R$ 4,17 com previsão de juro zero e briga de Bolsonaro com PSL

Mercado volta a colocar ruído político no cenário que afasta investidores estrangeiros do país

Tássia Kastner
São Paulo

O agravamento da crise entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seu partido, ao lado das novas previsões de queda de juros para 4%, fez o dólar voltar a ser negociado acima de R$ 4,16 nesta terça-feira (15). A Bolsa avançou, mas em percentual bem mais modesto que o registrado no exterior.

Foi a dupla de fatores que fez também o real ser a moeda que mais perdeu valor ante o dólar nesta terça, considerada uma cesta de 24 moedas emergentes. 

A alta do dólar foi de 0,94%, a R$ 4,1660, o maior patamar de fechamento desde 24 de setembro.

Desde a segunda, economistas e analistas do mercado financeiro passaram a indicar a expectativa de queda da taxa Selic para 4% ao ano em 2020, o que levaria o juro real do país para perto de zero.

Como parte dos dólares que entra no país vem de estrangeiros que querem investir em juros, esse fluxo deixa de existir, já que o país fica menos atrativo.

O dado de saída líquida de investidores será atualizado nesta quarta-feira (16) pelo Banco Central.

Além da discussão da queda de juros, economistas voltaram a citar incerteza política como um dos fatores que afasta estrangeiros e ajuda a elevar o dólar.

Nesta terça, a PF (Polícia Federal) fez uma operação contra Luciano Bivar, presidente do PSL, tendo como pano de fundo as investigações do caso do uso de candidatos laranjas nas eleições do ano passado.

Bolsonaro tenta sair do partido e levar junto deputados aliados, que precisam manter fidelidade partidária.

“Acho que a gente está num cenário muito ruim: os gringos estão com uma visão muito negativa desde o caso da Amazônia. A gente não está conseguindo ter a dimensão”, afirma Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

Victor Candido, economista-chefe e sócio da Journey Capital, também considera que a crise entre PSL e Bolsonaro eleva a incerteza e afasta investidores estrangeiros do país.

Outro termômetro é a Bolsa brasileira, que fechou com alta bem mais modesta que a registrada em países emergentes.

O Ibovespa subiu 0,18%, a 104.489 pontos. O giro financeiro também foi menor, ao redor de R$ 13 bilhões, ante a média diária do ano de R$ 16 bilhões. 

No exterior, as principais Bolsas americanas e europeias subiram ao redor de 1%, ainda na esteira de um otimismo com as primeiras sinalizações de acordo comercial entre Estados Unidos e China e também com o início da temporada de divulgação de resultados.

Ainda na leitura local, o mercado segue limitado pela saída de estrangeiros da Bolsa, que somou R$ 8 bilhões até sexta-feira (11), dado mais recente divulgado pela B3. São R$ 28,6 bilhões negativos no acumulado do ano.

Consorte ressalta o menor interesse de investidores externos no mercado brasileiro usando o exemplo das ações da Vivara, que realizou IPO (oferta pública inicial de ações) na semana passada. Do total captado, 70% foi com investidores locais.

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