Efeito sobre economia real já aparece no mercado imobiliário

Desde a redução da taxa Selic para 6,50%, houve um repasse para o custo do financiamento

Tássia Kastner Eduardo Cucolo
São Paulo

O setor imobiliário é o mais consolidado exemplo de como a queda de juros, quando repassada para o consumidor, beneficia a economia real.

Mês após mês saem dados que mostram crescimento nos lançamentos, vendas e financiamento imobiliário. Os números são atribuídos, de forma unânime, a uma combinação de queda de juros, retomada da confiança do consumidor e de sinais de recuperação do emprego.

Desde que a taxa Selic saiu de 14,25% para os 6,50% em que permaneceu até julho, houve um repasse para o custo do financiamento. Essa segunda rodada de redução de juros, que pode levá-lo para abaixo de 5%, deu largada a uma disputa entre bancos que levou a crédito mais barato para a compra da casa própria —está na banda de 7% ao ano + TR (taxa referencial, atualmente zerada).

“O mercado imobiliário é o que mais consegue tangibilizar a queda de juros. Hoje a gente está praticando as menores taxas da história e é uma verdadeira guerra de preços”, afirma Gilberto Abreu, presidente da Abecip (associação de entidades de crédito imobiliário).

0
Vista aérea do Grand Reserva Paulista, em Pirituba, na zona norte de SP - Gabriel Cabral - 4.abr.19/Folhapress

No começo do mês, quando as grandes instituições financeiras reduziram o custo do crédito ao consumidor do intervalo de 8% para o de 7%, houve no mercado quem dissesse que a rentabilidade dos bancos seria espremida. Um executivo do setor chegou a temer por suas metas, que garantem o pagamento de bônus.

A explicação estaria nas previsões futuras para os juros. No longo prazo, a curva de juros futuros (contratos negociados em Bolsa) mostra uma expectativa de que a taxa Selic voltará para acima de 6%.

Essa é a explicação de Abreu para estimar que o juro do crédito imobiliário chegou a um piso.

Esse patamar seria suficiente, porém, para estimular a compra da casa própria. Nas contas dele, se um mutuário conseguir dar uma entrada de 30% do valor do imóvel, conseguiria pagar de prestação mensal equivalente a 0,4% a 0,5% do valor do bem ao mês —esse percentual é a base média de cálculo do valor do aluguel. 

Dados do SecoviSP (sindicato do mercado imobiliário) mostram que foram vendidos, apenas em São Paulo, 40 mil imóveis nos últimos 12 meses encerrados em agosto, crescimento de 40% na comparação com um ano antes. A principal demanda é por unidades de dois dormitórios, o que corrobora a percepção de que são famílias comprando a casa própria.

Crescem também os lançamentos, e essas obras ajudam na geração de empregos, como mostra o Caged (registro de vagas formais). Dos cerca de 760 mil postos com carteira assinada criados neste ano, 116 mil foram na construção civil.

Bráulio Borges, economista sênior da consultoria LCA, afirma ainda que a queda da Selic ajuda mesmo aqueles que não estão comprando casa própria agora, mas o fizeram na crise, com crédito caro. Juros mais baratos abrem espaço para renegociação e uma folga no orçamento, o que, por fim, se converteria em mais consumo.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.